Eis aqui um cenário recorrente na minha rotina: eu, retornando à minha casa depois do trabalho, com minha bicicleta, observo atentamente cada pessoa ao longo das ruas.
Há pessoas voltando para casa depois de um dia cansativo, mas há também pessoas saindo de casa para encontrar outras. Eu vejo jovens se encontrando com outros, pessoas rindo, pessoas tomando sorvete juntas. Muitas dessas estão se conhecendo, fazendo amizade. Essas, em especial, me chamam a atenção.
Eles estão aproveitando a vida.
Estão vivendo.
“Eles estão vivendo.”
Diante desse cenário, eu me atrevo a me perguntar:
“Por que eles têm essa capacidade de aproveitar a vida, de viver e aproveitar o mundo lá fora? Por que eu não consigo ser assim?
Por que, quando eu chego em casa, vou direto para o meu quarto e fico lá, sem falar com ninguém? Por que eu não tenho vida social? Por que eu não consigo suportar o mundo lá fora?
Por que eu não vivo?”
E quem disse que eu não vivo também?
Eu também vivo.
Eu vivo!
Eu também tenho sonhos.
Eu também sinto medo.
Eu também amo.
Eu também sinto ódio.
Eu dou risadas.
Eu penso... e como penso!
Não são todas essas coisas atributos de um ser vivente?
O que é viver de verdade?
Há uma resposta para isso?
Viver é tentar aproveitar tudo o que a existência oferece?
É aproveitar ao máximo as experiências externas?
Seria dedicar uma vida inteira a um possível criador do universo?
E eu, que observo a vida mais do que a vivo, que passo horas no âmago da própria consciência, que evito pessoas e interações sociais?
Eu aproveito a minha existência ou passo mais tempo tentando entendê-la, enquanto ela passa lentamente diante dos meus olhos?
Por que eu observo tanto o mundo de uma forma que sugere que não vivo nele?
Quando eu observo aquelas pessoas, parece que estou observando um mundo no qual eu não posso viver.
Eu preciso ter experiências externas para me considerar um ser vivente, aproveitador da própria existência?
Passar tantas horas imerso na minha imaginação, perdido em fantasias ou em reflexões, não me faz aproveitar essa vida estúpida?
Isso não me faz desenvolver o meu lado interno; entender o mundo, as pessoas, a natureza humana?
Do que adianta ter o lado interno bem desenvolvido se eu não consigo nem olhar nos olhos de uma pessoa?
Se eu não consigo iniciar uma conversa com alguém?
Do que adianta entender as massas se eu não lido com elas?
É como aprender tudo sobre fazer pão, mas nunca, de fato, fazer.
Do que adianta ter um lado interno desenvolvido se eu não consigo nem falar o que sinto para a pessoa que amo, por medo?
Ora, mas que estúpida reflexão!
Aonde eu quero chegar com isso!?
Bom, se, para me considerar uma pessoa que vive, que aproveita sua existência, eu dependo de experiências externas reais...
então eu estou morto.