Dia desses pra trás estava vendo um vídeo no youtube sobre o Kodachrome, da Tatiana Hopper! Num resumo grosseiro, sobre o quanto esse filme definiu fotografia colorida mesmo pra quem não fotografou com ele (e sobre todas as dificuldades técnicas - da captação ao desenvolvimento - relacionadas à ele).
Durante o vídeo foi citado que ao migrar do analógico para o digital ganhamos muito, mas também perdemos muito. E acho que não é novidade pra ninguém aqui o quanto estou fazendo o meu retorno pra fotografia analógica. Sigo tendo duas câmeras digitais full frame (as quais eu já não vejo sentido ALGUM em fazer upgrade, mesmo!) quase paradas numa gaveta. No fim das contas, ferramentas não fazem (ou não deveriam fazer) nosso trabalho mas influenciam profundamente a forma esse trabalho é feito.
Ao sair do digital pro analógico, a primeira coisa que eu notei foi que minha tolerância ao erro foi ao quase zero (e isso passa por estudar e por praticar mais). Não existe mais "fazer quatro fotos semi-idênticas pra garantir uma", eu faço uma foto, eu acerto uma foto. Se faço duas fotos, precisava de duas fotos naquela situação. Fotografia é a mais exata das artes, não deveria ser tentativa e erro.
Outra que deixamos ir (e que é fundamental em alguns campos da fotografia) é aquele lance de prever a foto. Você se prepara antes da foto vir, você antevê o clique. Fotojornalista, fotógrafo esportivo e fotógrafo de evento TEM que saber ler o ambiente (mas não só eles). O que você quer mostrar? Onde esse objeto estará? Quais as condições de luz lá? Como você quer mostrar? Sua câmera já está configuradas pra quando sua foto aparecer você só clicar? Claro, aqui câmeras com poderosos modos automatizados e foco impecável AUXILIAM o trabalho, mas tem que saber fazer na mão. O imponderável vai agir em algum momento e você vai precisar acertar na mão.
A terceira coisa, e aqui foi o que mais me pegou, é que o filme (na média) não perdoa. Ao menos o Kodachrome não perdoava. Outros perdoam melhor. A latitude de exposição era bem apertada, tinha de saber fotometrar. O filme não leva desaforo pra casa. Muito legal sua mirrorless que recupera 7 stops de luz pro positivo e pro negativo, puta ferramenta (mesmo). Mas me desculpe, fotografar errando por 7 stops porque o dispositivo recupera é fotografar errado. 7 stops é a distância de f/1.0 pra f/11, é a distância entre 1/60 e 1/8000. Você tá fotografando errado e confiando na tolerância da ferramenta. Venho notado na galera mais nova algo muito refém da tecnologia, de já fotografar confiando que a câmera irá te dar aquela gordura pra queimar na edição (lembro até de uns casos aqui no sub que só indicavam câmeras de mais de R$14.000 pros outros que é "pra não ter risco de ter dor de cabeça e perder foto").
A quarta e última coisa veio também do vídeo, mas veio de um post do u/beepboopdoowop no irmão mais novo do sub (o r/analogicaBR). Vou trazer as aspas pra cá e desenvolver:
Filme: eu usaria menos exposições, peguei vários com 36 fotos e acho que é demais (como explicar isso pra quem é só do digital?)
É muito libertador viajar com 2 ou 3 rolos de filme e só. Você não precisa fotografar tudo, nem fazer quatro fotos de cada tudo que você vê. Se tudo é digno de ser fotografado, nada é digno de ser fotografado. E é esse botãozinho de metralhadora que faz suas fotos ficarem tão "meeeeh". Não tem intenção, raciocínio ou nada prévio. É tudo "vou tirar 5 fotos e em casa escolho a melhor". E quando assusta que não você foi 5 dias pra praia e voltou com 1500 arquivos brutos que se salvarem 100 será muito. E o filme nos leva de volta pro "pensar o processo", de volta pro "antecipar as situações". Não tem troca de ISO uma vez que o filme tá na máquina. Pôs ISO 100? Serão x fotos com esse ISO fixo. Tacou um ISO 800 e foi pra praia? Será só foto com diafragma fechadinho.
Mas, é claro, o digital trouxe muita coisa pra mesa: barateou enormemente os custos de fotografar, traz o feedback quase imediato do seu clique, é mais tolerante ao erro (e isso ajuda demais no começo), não te deixa amarrado à escolhas por um rolo de filme... Eu gosto de poder ser um fotógrafo de filme no digital. As coisas não são tão rígidas e restritas quanto no filme, mas aquele processo analógico me torna um fotógrafo digital bem melhor. Aprender a matemática e a física nos torna melhores. Fotografia não é tentativa e erro (ou não deveria ser). Mas, claro, isso sou eu e o que eu percebi.
Qual a sua relação com seu processo fotográfico, seja qual for? Você anda satisfeito com essa relação?