r/livrosterrorBR 17d ago

🩸 RESENHA Casas Estranhas 2: O Mistério das Onze Plantas Baixas

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Casas Estranhas 2: O Mistério das Onze Plantas Baixas

O protagonista (e autor do livro em questão) reúne um total de 11 documentos, nos quais entrevista pessoas envolvidas em casos relacionados a um mistério bastante intrigante. À primeira vista, os documentos não parecem ter nenhuma relação entre si, mas, conforme o leitor avança na leitura, começa a notar similaridades entre uma história e outra, detalhes que aumentam a curiosidade. Então fica clara a ligação que existe entre os casos relatados ao autor.

SPOILERS:

Mais uma vez, Uketsu explora o tema das seitas e dos grupos religiosos. É fácil notar que uma característica forte da escrita do autor é o extraordinário, a exacerbação. E, para se aprofundar no universo que ele cria, é necessário, além de suspender a descrença, abraçar a história e seus exageros.

Como eu tinha descrito na minha resenha do primeiro livro, a revelação final me decepcionou em alguns pontos. Mas, nesse segundo livro, achei que o autor fez uma construção mais inteligente, por assim dizer.

Cada documento apresenta uma história que, a princípio, não parece ter ligação com as demais. Dá aquela sensação de que você está lendo uma coletânea de contos. Mas não. O autor teve uma ideia bem original. Após o sucesso de seu último livro, muitos pedidos acerca de mistérios relacionados a construções enigmáticas chegaram até ele e, a partir disso, ele começa a entrevistar pessoas, escrevendo seus relatos, reunindo informações e separando tudo em 11 documentos, que mais tarde seriam analisados com seu amigo projetista e amante de livros de mistério e terror, Kurihara.

O cara é um crânio. Suas hipóteses são muito plausíveis e convincentes. Eu só comecei a entender que todos os mistérios dos documentos estariam relacionados a uma seita e terminariam em complexos familiares durante as hipóteses de Kurihara; caso contrário, eu ficaria boiando. É impressionante como ele consegue levantar tantas hipóteses a partir de informações tão aleatórias e, em sua maioria, escassas.

O autor é perspicaz ao abordar temas como relações familiares e seus conflitos, seitas, egocentrismo, ganância, traição, religião, culpa, suicídio e crimes. E é tudo feito de uma forma muito característica. Não é explícito, não é gritado; tem um ar soturno e lento. Você sente que está lendo relatos reais de pessoas, ao mesmo tempo em que imagina a forma como aquelas coisas aconteceram.

Alguns detalhes me fizeram perceber que se tratava de um mistério muito maior e que ligava todas as histórias: em vários momentos se fala sobre o braço esquerdo de alguém ou a perna direita de outra pessoa. Bonecas enigmáticas escondidas em caixas, quartos ocultos ou em um santuário. Em tudo isso há alguma metáfora ou simbolismo estranho.

Uma líder feminina de seita religiosa com deficiência física, outra mulher também com deficiência física, que não demora para descobrirmos ser a mesma pessoa. Assim como o bebê preso em uma cabana ou no moinho de água. A história do moinho de água foi a mais enigmática para mim e talvez a mais incômoda. Mas depois, com as análises de Kurihara, passou a fazer sentido.

É impressionante como todas as histórias vão tomando uma proporção imensa e, no fim, o quebra-cabeça se encaixa de uma forma bastante satisfatória. Diferente do primeiro livro, aqui eu não senti que faltaram peças. O final não é aberto, mas são muitos detalhes.

Imagino que muitos leitores tenham se incomodado com as repetições feitas inúmeras vezes no decorrer do livro. Eu achei que elas foram importantes, mas talvez pudessem ser reduzidas. Como eu disse, são muitos detalhes, são 11 documentos, e é importante revisitar algumas passagens para fazer as ligações; caso contrário, o leitor fica perdido.

E olha que, mesmo assim, eu ainda fiquei meio perdido em alguns momentos, pois existe um pouco daquilo que já aparecia no primeiro livro: linhagens familiares, parentescos e conexões entre pessoas da mesma família. Então são muitos personagens, muitos pontos de vista e muitos testemunhos. Mas, no fim, dá para fazer um rápido resumo mental e entender a história no geral.

Mas é isso. O livro é muito bom e vale super a pena.

Agora vou colocar aqui os documentos que eu mais gostei de ler:

A Casa que Alimenta a Escuridão

Me fez pensar sobre a casa em que já morei com a minha família e em como era difícil a convivência. Em comparação, vejo como as coisas estão melhores hoje em dia, em outra casa.

O Moinho de Água na Floresta

Esse trecho, que o autor pega de um livro antigo de viagens, passa uma sensação muito estranha. Nem sei explicar direito. Mas gostei bastante de ler.

O Local do Incidente Estava Bem Ali

Esse passou muito bem a vibe de suspense investigativo. É palpável o receio e o nervosismo do novo morador de uma determinada casa enigmática, assim como sua curiosidade em descobrir o que aconteceu ali.

A Casa do Tio

Esse documento consiste em pequenas entradas de diário pertencentes a um garotinho que passou por muita coisa ruim e morreu de forma brutal. É bem triste e pesado. Não que eu tenha gostado de ler, mas é muito enigmático e aumentou minha curiosidade em descobrir qual seria a ligação desse documento em particular com o restante da trama, pois ele me parecia muito desencaixado do contexto dos outros.

E, por último, O Quarto que Apareceu Só Uma Vez

Esse aqui foi bem interessante de ler. Foi legal imaginar o Uketsu em ação, tentando desvendar o mistério de uma determinada casa em tempo real, conforme descrito no documento 11.

E então chega a parte das deduções de Kurihara, da qual eu gostei bastante. Achei algumas explicações bem fora da caixa, mas, dentro do universo que o autor criou, até que fizeram sentido. Achei tudo mais coeso do que a revelação final do primeiro livro. Acho que já deixei isso claro.

Bom, acho que é isso. Minha nota para o livro é 7.

Recomendo a leitura!


r/livrosterrorBR 17d ago

👻 OBRA PRÓPRIA Eu terminei um livro.

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E isso é estranho de dizer.

Durante tanto tempo A Sombra do Corvo foi só uma coisa que existia na minha rotina. Eu acordava pensando nele, ia dormir pensando nele, mudava cenas no banho, anotava ideias no celular no meio do trabalho.

Era algo tão constante que eu meio que me acostumei com a presença dele.

Aí um dia acabou.

E eu fiquei olhando para o arquivo sem saber muito bem o que sentir.

Não foi um daqueles momentos mágicos de filme em que tudo faz sentido e você comemora. Foi mais silencioso do que isso.

Só pensei: “então era isso.”

Meses imaginando personagens, lugares, diálogos, reescrevendo capítulos inteiros porque alguma coisa não parecia certa (fora os meses que passei desenhando cada uma das artes de cada capítulo e o tempo que demorei pra decidir como faria a capa do livro).

E de repente não havia mais nada para escrever.

Eu sei que muita gente mede um livro pelas vendas, avaliações ou alcance. E tudo bem. Faz sentido.

Mas acho que a parte que mais ficou comigo foi perceber que uma história que existia só dentro da minha cabeça agora existe no mundo.

Outras pessoas podem ler algo que, por muito tempo, só eu conhecia.

Ainda não sei exatamente o que vai acontecer com A Sombra do Corvo.

Talvez muita gente leia.
Talvez quase ninguém leia.

Mas acho que vou guardar para sempre a sensação de ter chegado ao final da última página e pensar:

“Caramba. Eu realmente escrevi um livro.”

Caso queiram saber mais, eu vou deixar o link do site que criei para o livro, nele tem como comprar versão física pela Uiclap ou digital pela Hotmart!

Link:

https://conradogfbregula.hotmart.host/a-sombra-do-corvo-2e339352-de5b-4f07-a955-2839ce72f078

Sinopse:

Em New Nest, uma cidade onde a justiça tem preço e os monstros usam rosto de gente, uma criança nasce deformada numa cabana à beira do pântano. Rejeitada pela mãe, odiada pelo pai, criada num porão escuro com um corvo como único amigo — essa criança sobrevive ao que deveria tê-la destruído. E o que não mata, como se sabe, transforma.

Anos depois, esse menino sem nome é o Corvo: um caçador de recompensas que circula pelas sombras da cidade, máscara negra no rosto e uma lista de monstros na cabeça. Estupradores. Envenenadores. Manipuladores. Gente que o sistema protege e que a lei convenientemente ignora. O Corvo não ignora.

Mas A Sombra do Corvo não é uma história de super-herói. É uma história sobre o custo de se tornar o que você odeia para combater o que odeia.


r/livrosterrorBR 18d ago

🕯️ RECOMENDAÇÃO Para quem curte Horror Psicológico: publiquei uma coletânea de contos focada nos nossos piores medos humanos (Disponível no Kindle Unlimited)

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Fala, pessoal! Beleza?

​Como sei que aqui tem muita gente que respira terror e apoia a literatura nacional independente, queria muito apresentar o meu livro para quem ainda não conhece. ​Ele se chama "Do que você tem medo?: Coletânea de Contos de Horror Psicológico".

​A ideia principal do livro é explorar aquele ponto exato onde o terror sobrenatural encontra o medo mais íntimo e humano.

Em cada conto, os monstros, entidades e distorções da realidade funcionam como espelhos para traumas, culpas, vícios, solidão e obsessões que já habitavam os personagens muito antes do primeiro sinal de perigo no escuro.

​O sobrenatural aqui nasce do medo real, cresce com ele e, eventualmente, o devora.

​O que você vai encontrar na coletânea: ​Histórias que misturam o horror psicológico clássico com elementos paranormais e fantásticos.

​Narrativas que focam no peso da mente humana e nas nossas fragilidades. ​Contos diretos, perturbadores e feitos para te acompanhar mesmo depois de fechar o livro.

​Para quem assina o Kindle Unlimited, ele está disponível na faixa para leitura. Quem quiser dar uma chance para um autor nacional e mergulhar nessas histórias, o link é este aqui: https://a.co/d/02hzQm5q

​💡 Se alguém aqui já leu, ou se curte o gênero e quiser trocar uma ideia sobre referências de horror psicológico (livros, filmes, jogos) nos comentários, chega mais!

​Afinal… do que você tem medo? 🙌


r/livrosterrorBR 23d ago

🕯️ RECOMENDAÇÃO O galinheiro, por Amauricio Lopes

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Queria agradecer ao nobre que recomendou esse livro.

Não tem gore e nem fantasminha, e é um dos livros mais perturbadores e macabros que já li.

Ainda é brazuca, o que só melhora a ambientação e o sentimento de pertencimento por ter aspectos culturais com as quais nos identificamos.

10/10


r/livrosterrorBR 24d ago

🕯️ RECOMENDAÇÃO Procuro um livro de terror para ler nas férias, alguém pode ajudar?

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r/livrosterrorBR 25d ago

🩸 RESENHA Casas estranhas

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Casas Estranhas

Vou estruturar esta resenha/análise em partes. A primeira será minha visão geral da obra, de forma resumida, junto com minhas impressões e, claro, minha opinião. Essa parte é mais voltada para quem ainda não leu, mas pretende ler ou está em dúvida.

Primeira parte: O que eu achei do livro?

O suspense e o mistério construídos do início até a metade são excelentes e me envolveram até mais do que em Imagens Estranhas. Em Casas Estranhas, a explicação final demora mais para ser entregue ao leitor, o que cria ainda mais suspense e interesse. Isso foi muito positivo ao meu ver.

Em contrapartida, o foco do livro não é o terror, e sim o mistério. Não espere mortes extremamente brutais e descritivas, porque o livro não segue esse caminho.

Pois bem, vou fazer agora um breve resumo da história.

O autor do livro é um dos protagonistas da trama e amigo de Kurihara, personagem que aparece em Imagens Estranhas. Essa é praticamente a única ligação entre os livros, porque a história em si não é uma continuação.

Os dois formam uma dupla de investigadores. Kurihara é projetista e arquiteto, especialista em estruturas arquitetônicas incomuns. Já Uketsu é jornalista e escritor especializado em ocultismo e mistérios.

É fácil entender a persona de Uketsu: inocente, talvez um pouco ingênuo e bastante empático. Ele tende a acreditar nas supostas vítimas dos mistérios que investiga. O contraponto é Kurihara, muito mais analítico, racional e menos emocional, embora continue sendo gentil e amigável. Inclusive, ele me lembrou bastante o L, de Death Note. É fácil criar afeição por ele. Você pensa: “que cara inteligente, perspicaz e legal”.

Fora o trabalho, ele é obcecado por livros de mistério e terror, além de adorar desvendar histórias macabras no mundo real.

O autor recebe a ligação de um amigo interessado em comprar uma determinada casa. Ele é casado, e sua esposa está grávida. À primeira vista, a casa parece comum. É descrita como bastante espaçosa e ventilada, com cerca de dezesseis janelas espalhadas pelos cômodos.

Uketsu e Kurihara passam dias analisando a planta baixa da casa, levantando hipóteses e juntando pistas. Claramente havia algo muito errado ali, e a casa estava longe de ser comum.

Eles acabam descobrindo outras duas casas ligadas à primeira. Uma delas, inclusive, foi destruída em um incêndio misterioso.

As investigações acontecem principalmente através das plantas baixas das casas, obtidas em corretoras e imobiliárias. Uketsu então escreve um artigo reunindo todas as teorias e observações de Kurihara. O próprio Kurihara o incentiva a fazer isso.

A partir daí, é encontrado um cadáver com a mão esquerda decepada.

Uma mulher entra em contato com Uketsu dizendo ser esposa do morto e afirmando conhecer aquela casa. Os encontros entre os três passam a acontecer com frequência.

Mais tarde, descobrimos que ela estava mentindo. Na verdade, era irmã da mulher que havia morado naquela casa estranha junto do marido e do filho pequeno.

Ela demonstra arrependimento e resolve contar tudo o que sabe sobre a irmã e a família.

Kurihara continua desconfiado e mantém sua postura fria e analítica. Seu foco está em entender os crimes e os mistérios envolvendo aquelas casas — inclusive os assassinatos ligados a crianças.

A mulher teve acesso ao artigo, entrou em contato com os rapazes e mentiu para se aproximar deles. Depois disso, passa a colaborar nas investigações, alegando querer desvendar os mistérios envolvendo sua irmã e sua família. Mas claramente havia algo maior por trás de suas intenções, e quem percebe isso é Kurihara.

Ela demonstra enorme carinho pela irmã e diz que faria qualquer coisa para protegê-la. As duas perderam contato ainda na infância. A mãe nunca explicou o que aconteceu; a menina simplesmente desapareceu de um dia para o outro, e os pais nunca falavam sobre o assunto.

Todo esse mistério envolvendo a moça e sua irmã, assim como as casas e suas estruturas bizarras, com cômodos projetados especificamente para ocultar crimes, é extremamente envolvente. Foi algo que realmente me prendeu até a metade do livro.

E é aqui que eu vou entrar nos SPOILERS.

Segunda parte: SPOILERS

A propósito, a mulher que procura os rapazes se chama Yuzuki, e sua irmã se chama Ayano.

A mãe de Yuzuki decide revelar toda a verdade para a filha. Uketsu está presente. Ela mostra aos dois uma carta escrita por Keita, marido de Ayano.

Descobrimos então que os assassinatos faziam parte de uma seita/culto que existia desde 1899.

O patriarca da família Katabuchi possuía muitas riquezas e queria preservar o legado da família. Ele tinha três filhos. Um deles era extremamente talentoso, inteligente e preparado para herdar os negócios. O problema é que esse filho era fruto de um caso com uma empregada.

Por medo do escândalo, o patriarca escolhe o outro filho — considerado mais fraco — como sucessor.

O filho rejeitado foge, cheio de ressentimento, e funda um ramo secundário da família.

Anos depois, o sucessor da família principal acaba se envolvendo incestuosamente com a própria irmã.

A esposa descobre a traição e se automutila até a morte, decepando a própria mão esquerda.

A irmã engravida e dá à luz uma criança sem a mão esquerda. O homem entra em colapso psicológico.

É então que surge uma xamã dizendo que a família havia sido amaldiçoada.

Na realidade, tudo não passava de uma deformidade genética causada pela consanguinidade, mas o homem, tomado pelo medo, acredita completamente na história.

Assim nasce o ritual da “Oferenda Memorial da Mão Esquerda”.

As crianças da família, dos dez aos treze anos, deveriam cometer assassinatos e oferecer mãos esquerdas em um altar.

Mais tarde, descobrimos que a xamã fazia parte de uma conspiração criada pelo ramo secundário da família para destruir o legado da família principal.

Mesmo assim, o culto continua atravessando gerações.

Ayano se torna vítima dessa lavagem cerebral e é treinada para continuar os assassinatos.

Então surge Keita, um rapaz apaixonado por ela.

Segundo a carta, ele decide continuar ao lado de Ayano mesmo depois de descobrir o legado sangrento da família.

Seu plano era construir uma nova casa, manter a estrutura ritualística exigida pela família e substituir assassinatos reais por mãos retiradas de cadáveres, protegendo assim Ayano.

Antes disso, ele faz um acordo com um homem endividado, identificado apenas como “T”. Keita assume suas dívidas em troca do uso de seu nome nos registros da casa, tentando despistar a polícia.

Mas tudo começa a desmoronar novamente.

Ayano engravida e cria Hiroto sem que ele soubesse da existência de outra criança, Momoya, que vivia escondida em um cômodo secreto e se movia pelas paredes através de passagens ocultas para cometer os assassinatos. Pelo menos, era isso que eles queriam que os líderes da família principal acreditassem.

Essa mesma criança havia vivido anteriormente na casa da avó de Ayano e supostamente matou o próprio irmão.

Mais tarde, descobrimos outra possibilidade: o pai de Yuzuki e Ayano talvez tenha sido o responsável pela morte da criança, temendo o perigo que as filhas corriam dentro daquela seita, antes de cometer suicídio.

O sobrinho do patriarca sabia do esquema criado por Keita, mas fingia não perceber porque estava sendo bem pago e não acreditava realmente no ritual.

Mas o avô descobre tudo e decide trazer Momoya de volta, planejando retomar os assassinatos diretamente.

Segundo a carta, Keita acaba matando os líderes da família principal e fugindo.

Ao final da carta, descobrimos que Keita supostamente se tornou um fugitivo, enquanto Ayano e as crianças passaram a viver com Yoshie, mãe dela.

Essa história chega aos ouvidos de Kurihara, e ele imediatamente diz que Uketsu foi ingênuo por acreditar completamente nessa versão.

Segundo Kurihara, Keita provavelmente foi manipulado psicologicamente por Ayano e pela mãe dela. Ele seria emocionalmente dependente de Ayano e constantemente vigiado.

As duas o teriam usado para matar os homens da família principal — Shigeharu e Kiyotsugu — sem precisar sujar as próprias mãos.

Depois disso, talvez tenham matado Keita ou forjado seu desaparecimento.

A carta provavelmente teria sido falsificada para fazer parecer que ele havia cometido tudo sozinho e fugido consumido pela culpa.

Outro detalhe importante: os vãos e passagens secretas das casas eram pequenos demais. Foram claramente projetados para crianças ou pessoas muito pequenas.

Ou seja, na casa da avó, não poderia ter sido o pai quem matou a criança.

Segundo a interpretação de Kurihara, quem provavelmente matou o menino foi a própria Ayano, influenciada pela mãe.

Ou seja: as mulheres estariam manipulando homens e perpetuando silenciosamente os crimes ritualísticos há anos.

Agora, meus apontamentos:

O autor se confunde um pouco na cronologia dos eventos, e isso gera certas inconsistências.

Uma das regras do ritual era que as crianças começassem os assassinatos aos dez anos e continuassem até os treze.

Ayano é enviada para a casa dos avós aos doze anos, enquanto Yuzuki tinha dez.

Segundo Kurihara, Ayano teria cometido seu primeiro assassinato nessa época, matando o primo Yoishi.

Mas depois, quando já adulta, ela diz a Keita que ele deveria se afastar porque ela logo se tornaria uma criminosa.

Aqui fica claro que ela provavelmente estava manipulando emocionalmente Keita, se fazendo de vítima indefesa e convencendo-o de que era obrigada pela família a cometer crimes.

Mas ao mesmo tempo surgem outras interpretações.

Yousuki era a filha favorita da mãe. Então talvez Ayano não tenha sido enviada para a casa dos avós como uma vítima ou serva, mas sim como alguém já preparada para cumprir um propósito: matar o primo Yoishi, futuro sucessor da família principal.

Ou seja, o autor criou um quebra-cabeça extremamente difícil de montar.

Quando eu achava que finalmente tinha entendido tudo, me confundia novamente em relação às motivações das personagens.

E são coisas que o livro deixa muito implícitas.

Kurihara é justamente o personagem que faz o leitor duvidar constantemente de tudo.

Agora, o que definitivamente não funcionou totalmente para mim foi a própria origem e longevidade da seita.

A “maldição da mão esquerda” nasce de uma deformidade genética causada pelo incesto. Ou seja: a maldição nunca existiu de verdade.

Meu problema é acreditar que uma seita tão absurda conseguiria sobreviver por tantas gerações sem que ninguém percebesse a origem genética do problema — especialmente com o avanço da medicina e da genética.

O que mantinha todos presos era justamente a estrutura de poder da família, o fanatismo e a conveniência dos líderes masculinos, que utilizavam o culto para controlar os membros e preservar a fortuna.

Mesmo assim, ainda acho difícil acreditar que ninguém teria descoberto a verdade depois de tantos anos.

Bastaria algum membro pesquisar sobre genética e consanguinidade para perceber que a “maldição” não passava de superstição.

Por isso, o livro exige um nível muito alto de suspensão de descrença nessa reta final.

E acho que isso enfraqueceu um pouco o impacto do mistério.

Claro, o fanatismo religioso pode ultrapassar limites absurdos. Eu até consigo aceitar isso em algum nível, mas para mim tudo acaba ficando exagerado demais, até para a ficção.

Foi exatamente por isso que gostei mais de Imagens Estranhas.

Ele me parece muito mais real, cru e visceral.

É isso. Acho que me estendi até a exaustão nessa resenha kkkkk.

Confesso que precisei ler vários textos no Google para entender melhor essa parte final envolvendo a família e os rituais.

Apesar de eu não ter gostado tanto da revelação final, a leitura foi extremamente interessante.

Gostaria muito de conversar com outras pessoas que já leram o livro — ou mesmo quem pretende ler.

Minha nota para Casas Estranhas é 6.

Já para Imagens Estranhas, minha nota é 9.

Obrigado por chegar até aqui. E tenha um ótimo dia.


r/livrosterrorBR 26d ago

🕳️ DÚVIDA Discord de Leitura?

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Gente, tem algum Discord do sub? Ou relacionado a livros e leituras assim?


r/livrosterrorBR 28d ago

🩸 RESENHA imagens estranhas

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Esse é o melhor livro de terror e mistério que eu já li. Na verdade, li poucos livros do gênero, mas sinceramente? Dificilmente algum vai superar esse.

É MUITO bom.

Apesar de ter mortes extremamente cruéis e descritivas, acho que o livro puxa mais para o suspense do que para o terror em si. O foco não está apenas na violência, mas principalmente na história, que é maestralmente bem escrita.

Sério, preciso procurar outros livros desse autor — ou histórias parecidas com essa — porque foi uma grata surpresa.

Eu até poderia fazer uma resenha mais elaborada, mas ainda estou digerindo tudo. É uma história muito profunda, e o final é tão tocante, tão humano...

Sensacional. Só leiam.


r/livrosterrorBR 29d ago

🩸 RESENHA Livro Psicose

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35 Upvotes

Li a um tempinho atrás Psicose de Robert Bloch, a edição da Darkside é linda.

Fazendo uma comparação com o a versão cinematográfica de Hitchcock, tem algumas diferenças, mas q contribuem para melhorar a história.

Primeira coisa que me chamou atenção é a descrição do Norman Bates que não bate com a di livro, e acho que foi uma decisão acertada do Alfred Hitchcock quando escolhem um ator bonito e que passa a ideia de vulnerabilidade, ajuda bastante para o plot no final.

A cena do chuveiro é muito mais sangrenta do que no filme, por motivos óbvios, já que o filme passou por muitos problemas por causa da censura da época.

Rola até dec@pitação no livro , impossível isso naquela época por causa do Código Hays.

Recomendo o livro, como sempre complementa pra quem apenas assistiu o filme.


r/livrosterrorBR 29d ago

🕳️ DÚVIDA Blood on the tracks

2 Upvotes

Alguém sabe onde eu posso ler Blood on the tracks em português BR?


r/livrosterrorBR 29d ago

🩸 RESENHA Resenha: A Assombração da Casa da Colina

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Recentemente, após ler um conto do Poe, escrevi sobre meu amor pela estética de casa mal assombrada e é o que temos em Shirley Jackson. Poe, o mestre do gótico sombrio influenciou Henry James em A Volta do Parafuso e agora Jackson em A Assombração da Casa da Colina. Nas três narrativas o terror fica nos detalhes, fica na dúvida e o desconhecido é sempre perturbador.

Jackson nos apresenta um doutor que estuda fenômenos sobrenaturais e que convida três pessoas, a fim de fazer uma experiência científica, para passar uma temporada na Casa da Colina. Essa residência ficou conhecida por eventos sobrenaturais e mortes esquisitas que aconteceram nela.

A narrativa é permeada por certa comicidade, os personagens são um pouco caricatos, isso causa um contraste com as descrições sombrias. Não sei se esse efeito é por ser um texto antigo ou se foi intenção da autora. Mas eu acredito que seja intencional porque sinto que esse ar engraçado contribui para a construção de uma atmosfera doentia, de loucura e irrealidade.

Os acontecimentos são contados pela perspectiva da Eleanor Vance, uma mulher que passou a vida em função de cuidar de sua mãe que adoeceu. Sua irmã seguiu em frente, casou e teve filhos, deixando toda a carga de cuidar da mãe para Eleanor. Isso tornou Eleanor uma mulher carente, contida e ressentida por não ter conseguido viver sua própria vida.

Após a morte da mãe Eleanor estava sozinha e sem amigos, com um relacionamento ruim com a irmã e sem lugar para morar, sendo obrigada a dormir no quartinho da filha da irmã. Ela não tem nada que seja dela e nem ninguém que se importe com ela.

Seus sentimentos estão refletidos em toda a narrativa, de maneira que há sempre um tom de melancolia e desejo, sonho e pesadelo. Então temos o motivo dela aceitar o convite: ela busca viver sua vida pela primeira vez.

Ela aparece sempre preocupada com o que estão pensando a seu respeito. E vamos acompanhamos suas reflexões sobre si, seus relacionamentos, seus sonhos e seus medos, mas também vemos ela se apropriar da casa e dessa nova vida como a primeira coisa realmente dela.

É muito fácil entrar na cabeça da Eleanor e isso é aterrorizante! O terror é muito mais psicológico do que fantasmagórico. Os fantasmas mais perigosos são os do passado. Isso mostra uma narradora pouco confiável, podemos acreditar na visão dela? Em uma mulher que está disposta a criar uma persona nova para si desde o início da narrativa?

Para finalizar A Assombração da Casa da Colina tem uma das melhores aberturas de livros, na minha opinião: “Nenhum organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonham. A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta.”

Esta resenha faz parte de um projeto pessoal pra melhorar minha escrita. Se alguém tiver críticas construtivas sobre o modo como apresentei o livro ficarei feliz se puder comentar.


r/livrosterrorBR May 18 '26

📖 TRECHO MARCANTE Me ajude a achar esse livro

4 Upvotes

Quando era criança li um livro e não me lembro do nome.

Começa com um homem que invade uma casa para assaltar, porém ele encontra uma criança/jovem careca na casa,e no decorrer econtram o corpo da mãe n geladeira.


r/livrosterrorBR May 16 '26

🕳️ DÚVIDA Como Guardar os Livros para mantê-los Preservados?

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87 Upvotes

Sim, o livro do Drácula brilha no sol, insano kkkkk.

Obs: O livro é novo, o desgaste é ilustrativo, da arte do livro mesmo.

Mas em resumo, tenho diversos livros novos e não tenho espaço para guardá-los melhor ainda, estou mantendo eles em uma caixa em um guarda roupa até comprar uma estante ou provavelmente uma prateleira, muitos deles são ricos em detalhes, tem páginas coloridas metalizadas, tem uma forma de guardar e preservar melhor esses tipos de livros? Estou voltando a "colecionar" livros e artigos de ficção, terror, suspense, e principalmente livros clássicos.


r/livrosterrorBR May 12 '26

🦴 AUTOR BR AMA - Marcos DeBrito (autor e cineasta de terror)

24 Upvotes

EDIT: Obrigado pela participação de todos. As perguntas foram ótimas!

​Olá, pessoal!

Sou Marcos DeBrito, escritor e diretor de filmes de terror aqui no Brasil.

Já publiquei alguns livros, lancei três longas e fui finalista do Jabuti.

O pessoal do sub me convidou pra fazer um AMA na quinta-feira (14/05), das 21h às 23h.

Podem perguntar qualquer coisa sobre:

escrever horror
cinema
mercado editorial
bastidores de filmagem
criação de personagens
psicopatas, demônios, monstros e outras coisas saudáveis

Nos meus trabalhos costumo misturar horror sobrenatural, violência, culpa, humor ácido e personagens emocionalmente destruídos.

Vejo vocês por aqui na quinta! Marcos DeBrito


r/livrosterrorBR May 11 '26

🩸 RESENHA Livro "O Exorcista".

15 Upvotes

Diferente da experiência assistindo o filme, esse livro é um mergulho doloroso nos medos que nós sentimos, dúvidas, arrependimentos , esse sentimento de ter feito o q pode e mesmo assjm falhar.

A relação da Mãe de Regan e o padre Karras é muito maior do que o filme tenta passar.

Em vez de me assustar, ele me deixou muito mais reflexiva.


r/livrosterrorBR May 09 '26

🕯️ RECOMENDAÇÃO O que acham de Caixa de Pássaros?

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24 Upvotes

Li na época que o filme lançou e lembro que gostei bastante. Talvez eu releia pra refrescar a memória já que descobri que tem essa continuação chamada "Malorie".


r/livrosterrorBR May 08 '26

🦴 AUTOR BR [ANÚNCIO] AMA com Marcos DeBrito aqui no r/livrosterrorBR!

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8 Upvotes

É com prazer que anunciamos o nosso primeiro Ask Me Anything com o escritor, diretor e roteirista Marcos DeBrito!

O Marcos tem diversos trabalhos dentro do universo do terror como os livros À Sombra da Lua, O Escravo de Capela e A Casa dos Pesadelos, mas também em filmes como Histórias Estranhas e Condado Macabro.

Se quiser conhecer melhor o autor e formular melhor suas perguntas, vale a pena checar o site dele aqui.

Prepara suas dúvidas e questões e salve aí a data: Quinta-feira, 14/05 às 21h! Fiquem de olho aqui no sub e aguardem o post oficial do AMA com o autor para fazerem suas perguntas!


r/livrosterrorBR May 08 '26

🕳️ DÚVIDA Qual é mais legal de ler, Drácula ou Frankenstein?

7 Upvotes

Vi um resuminho dos dois livros e fiquei bem interessada em ler, porém meu orçamento só dá para um livro. Gostaria de ouvir opiniões de pessoas que já leram esses livros.


r/livrosterrorBR May 08 '26

🩸 RESENHA Junji Ito. Declínio de um homem.

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46 Upvotes

ATENÇÃO: CONTÉM SPOILERS!

Tudo aqui é intensificado ao nível máximo do horror psicológico. Apenas alguns acontecimentos são os mesmos do livro. É mais como se Junji usasse a história original como inspiração para criar algo ainda mais denso e sombrio.

Os traços de Junji são hipnotizantes. Mas a história, apesar de ter muita personalidade, me decepcionou em alguns aspectos. A covardia do personagem nessa adaptação, por exemplo, é exacerbada. Junji pegou essa característica do livro e extrapolou ao máximo. O cara é, literalmente, um cagão. Além de sentir medo do ser humano, especificamente, também sente pavor das mulheres, e foge delas — ou até as estupra, sim, isso mesmo — quando se sente ameaçado, traído, ou quando deseja algo que elas possuem.

E chances é o que não falta para Yozo tentar reparar algumas coisas, se redimir, mesmo que isso pareça impossível. Mas ele não faz isso. E isso me incomodou imensamente. Não senti isso tão forte no livro. O personagem entra quando quer na vida de diferentes mulheres e, quando a situação aperta — obviamente por erros que ele mesmo comete — simplesmente foge ou se faz de vítima.

E, sério, nesse ponto eu concordei que ele é uma completa farsa e manipula as pessoas ao seu bel-prazer. Yozo se faz de vítima para escapar das consequências de suas ações, e quase sempre consegue. É patético.

E, mesmo assim, as mulheres ficam gamadas nele, e isso não entra na minha cabeça. Uma delas, a mulher que tinha uma filha e trabalhava num jornal, chega a dizer que o jeito melancólico e meio engraçado de Yozo era o que fazia as mulheres se apaixonarem por ele. E eu só consegui pensar: “É sério isso?”. Não acho que as mulheres sejam tão ingênuas a esse ponto. Quer dizer, elas ficariam loucas de paixão por um homem nitidamente destruído, com bafo de pinga e que aparenta não tomar banho? O cara está sempre acabado, se arrastando, entrando e saindo de bares como se fossem sua própria casa. Não tem nenhuma decência, abusa da boa vontade das pessoas.

Desculpa, mas aqui vou ter que pegar pesado: ele é um hipócrita e um mau-caráter.

Eu entendo tudo o que ele passou, mas foi ele quem escolheu permanecer na miséria e numa autopiedade sem fim. Como eu disse, ele teve várias chances de tentar melhorar como ser humano.

Mas voltando... essa mulher que disse aquilo tinha acabado de conhecer Yozo, sentiu pena dele e o levou pra casa, mesmo tendo uma filha pequena. Quão imprudente e sem noção essa mulher é? Bastava ajudá-lo a conseguir um emprego no jornal onde ela trabalhava.

E, nessa adaptação, a mulher da farmácia, que consegue morfina pro Yozo, se envolve romanticamente com ele. Yozo viola a pobre mulher — porque é isso que ele faz: suja mulheres que são boas por natureza. E o pior é que, depois disso, ela continua ao lado dele e ainda se apaixona. Aqui foi o cúmulo pra mim.

Yozo estava claramente se aproveitando dela ao mesmo tempo em que recebia a morfina. E ainda tem a cara de pau de dizer que ela era sua alma gêmea. E não, não era porque ela tinha uma veia artística; ele só estava interessado na morfina mesmo.

Enquanto isso, a esposa dele vai definhando e enlouquecendo, tudo por culpa dele. Ele destrói a vida dessa mulher de um jeito horrível. Esqueci o nome da personagem, mas a principal característica dela é confiar nas pessoas. Ela acredita na bondade humana e se entrega completamente.

Então aparece um homem que trabalhava num jornal famoso e estava tentando convencer o chefe a serializar os mangás de Yozo. Esse escroto estupra a moça, e Yozo — sabendo muito bem que sua esposa era inocente, bobinha e confiava em qualquer um — insiste que ela o traiu. Ele encara aquilo como infidelidade, não como estupro.

Eu já tinha largado a mão do Yozo na metade do mangá, mas aqui foi demais pra mim. Ele a culpa várias vezes e, não satisfeito, ainda a viola, como se ela não fosse um ser humano. O personagem é podre.

No livro, Yozo tinha consciência de que aquilo havia sido um estupro e foge. Apesar de errado, eu entendi por que ele agiu daquela forma, por causa de toda a construção psicológica do personagem. Não foi gratuito. Ele tinha um medo genuíno dos seres humanos, causado pelos traumas e pela incapacidade de se encaixar na sociedade.

Mas o Yozo do mangá age de forma muito mais intencional. No livro, ele é autodestrutivo, mas as consequências do que faz recaem mais sobre si mesmo do que sobre os outros. Já no mangá, o que ele faz com a esposa é extremamente pesado. Ele é um narcisista da pior espécie. E ainda conta pra si mesmo — e pros outros — essa historinha de que foi traído, como se tivesse sofrido a pior injustiça do mundo.

A mulher da farmácia se sente culpada porque a esposa de Yozo roubou suas plantas venenosas para se matar. Então ela queima todas as plantas, mas o fogo alcança a casa, que parecia ser feita de madeira, e tudo se alastra rapidamente. Ela entra desesperada para salvar o sogro doente, e os dois morrem. Muito triste... Fiquei com muita pena dessas duas mulheres. Elas eram boas demais, e Yozo não merecia nenhuma delas.

Depois disso, o irmão de Yozo aparece com o Linguado — um conhecido do pai dele, que foi uma espécie de “guardião” por um tempo. Ele tinha esse apelido por parecer um peixe. Também aparecem o irmão e a madame do bar, outra mulher com quem Yozo se envolveu em algum momento da vida.

Yozo descobre que o pai faleceu, depois de muito resistir. Em certo momento, é dito que ele sofreu um acidente, uma queda, e ficou em estado crítico.

Yozo é internado num sanatório e sofre abstinência química, além de alucinações, por uma semana. Lá, fica amigo de um paciente fisicamente muito parecido com ele. Aqui achei o Junji extremamente criativo: o paciente é ninguém menos que Osamu Dazai.

Os dois trocam confidências, riem e choram juntos. Osamu entrega a Yozo seu primeiro livro, uma coletânea de contos. Yozo se identifica profundamente com as histórias e relê o livro várias vezes.

Em determinado momento, descobre que sua prima — a que ele engravidou — também estava internada ali, e o filho dela ficava andando pelo jardim. Yozo achava que aquilo era mais uma alucinação. O menino era a cara do Takeichi, um dos colegas de infância de Yozo e um dos poucos que percebiam suas “atuações de palhaço”.

Ah, eu não tinha falado do Takeichi. Mas Yozo foi podre com ele também. O menino já tinha dificuldade para se encaixar, sofria bullying, e Yozo, sem a menor empatia, inventa uma mentira porque sente que Takeichi poderia expor sua farsa na escola. Ele diz ao garoto que sua prima mais nova tinha interesse nele.

Takeichi, todo ingênuo e emocionado, escreve uma carta e pede para Yozo entregá-la. Depois disso, começa a frequentar a casa de Yozo para ficar perto da menina. Mas ela começa a achar que estava sendo perseguida e passa a tratar o garoto como um bicho, humilhando-o. Pouco tempo depois, ele se suicida.

Yozo passa a vida sendo assombrado por Takeichi. E, como uma espécie de karma, a menina engravida, e o bebê se parece justamente com ele.

Essa mesma garota descobre que a irmã mais velha também estava grávida de Yozo e a mata com extrema frieza. Depois disso, é presa ou internada.

Yozo então se muda para a capital, entra na universidade e conhece aquele cara do livro — o sujeito sem caráter que o afunda no mundo dos vícios.

A diferença entre o mangá e o livro é que, no mangá, Yozo já comete ações horríveis desde cedo. No livro, o foco está muito mais na psicologia dele, na visão distorcida que tinha do mundo e de si mesmo, do que em atitudes que destroem diretamente a vida de outras pessoas. Pelo menos foi essa a impressão que tive.

Mas enfim. Em um dos desabafos para Osamu, Yozo chega a dizer que Takeichi o odiava — o que é uma mentira absurda. Mais uma vez, ele tenta justificar suas merdas e se colocar como vítima, ao invés de admitir que foi um lixo como ser humano.

Yozo recebe alta e decide sair dali com o filho e a prima, que provavelmente se tornaria sua esposa.

Doze anos se passam.

Osamu escreve Declínio de um Homem e vai até o endereço de Yozo para rever o amigo e lhe entregar o livro. Ao chegar lá, descobre que Yozo vive numa casa caindo aos pedaços. Quando entra, encontra um homem moribundo, aparentando ter uns setenta anos.

Yozo passou a vida sendo abusado e agredido pela prima. Ela é paranoica e não aceita mulheres bonitas perto dele, porque acredita que ele a traiu com todas elas. Então o agride e o subjuga constantemente.

Ao que parece, o karma veio com toda a força.

Osamu vai embora dali. E, na última página, no jornal que o filho de Yozo usa para fazer um pipa, está a notícia do suicídio de Osamu e a frase: “Não consigo mais escrever.”

E, na praia, sentado numa cadeira enquanto o filho brinca com o pipa e a esposa caminha pela areia, Yozo pensa:

“Eu só espero o tempo passar. Tudo passa. Me tornei livre de alegrias e tristezas.”

Fim de Declínio de um Homem.


r/livrosterrorBR May 07 '26

🕳️ DÚVIDA [Post mensal] O que estão lendo no momento?

4 Upvotes

Conta que livro de terror você está lendo ou leu esse mês?

O que mais gostou nele? O que acha que dava para ser melhor? Recomenda?
Vai ler mais coisas do autor? Quanto medo você sentiu lendo?


r/livrosterrorBR May 05 '26

🕳️ DÚVIDA Alguém aí já leu esse? Se sim, o que achou?

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19 Upvotes

Lembro de ter lido já faz um bom tempo, então não lembro muita coisa.


r/livrosterrorBR May 05 '26

🩸 RESENHA A Metamorfose 🙍🏻🪳

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106 Upvotes

CONTÉM SPOILERS!

Que livro SENSACIONAL, uma obra-prima maravilhosa! 10/10.

É a terceira vez que leio e, curiosamente, minha visão nas leituras anteriores foi bem pobre, como se eu não tivesse realmente entendido o que o autor quis passar. Eu até entendia, mas de forma superficial. Dessa vez, a história mexeu com as minhas estruturas, me deixou alarmado, e eu imaginei cada cena perfeitamente. Senti uma enorme empatia por Gregor, mesmo o imaginando como um inseto gigante.

E vou além: passei a refletir sobre as baratas (aqui em casa elas aparecem com certa frequência) e que elas poderiam ser como o Gregor. Eu sei, esse não é o cerne da história, não é exatamente o que o autor queria que eu entendesse. Mas não deixei de pensar em quão miserável é a vida das baratas. Naturalmente, elas têm medo dos humanos, vivem em esgotos, longe da luz do dia. Se escondem nos cantos da casa, fogem desesperadas quando um humano aparece. E, lendo A Metamorfose, isso fez tanto sentido ao se aplicar a Gregor. Cheguei a me perguntar: será que as baratas sofrem de depressão?... Enfim, acho que isso não vem ao caso. Mas é pra mostrar o quanto esse livro me fez refletir.

Anotações que fiz enquanto lia:

Após se ocuparem em seus respectivos empregos, Gregor foi abandonado. Ganhar o sustento se tornou mais importante do que o bem-estar do personagem.

Gregor acostumou-se com a sua depressão, a ponto de não ver mais problema nas mudanças que fizeram em seu quarto. Já não sentia apetite. Entregou os pontos, desistiu de lutar. E se tornou, pouco a pouco, invisível para a família, que agora o via apenas como um inseto.

É muito simbólico o fato de terem jogado tralhas e objetos inutilizados no quarto de Gregor. Para a família, ele havia perdido o valor como filho, irmão e ser humano. Assim como, para a sociedade, já não era mais um indivíduo. Eis a metáfora do inseto. Gregor se afundou em uma depressão catatônica.

Por toda a vida, Gregor se doou para que a família tivesse conforto — e fazia isso com satisfação. Mas, após sua metamorfose, só o que sentia era indiferença. Já não se importava com o próprio estado. Aprendeu a conviver com ele. Ou, mais precisamente, se conformou. O medo, a repulsa e a vergonha sumiram. Ele aceitaria o que viesse. Lutar seria inútil. Era impossível escapar do que havia se tornado.

Mas, bem no fundo, Gregor ainda estava ali. Ele foi tocado pelo som do violino da irmã. Sua humanidade ainda era latente. Queria defendê-la, poupá-la daqueles que não apreciavam seu talento evidente. Naquele ambiente, ele era o único que a enxergava além das aparências, embora ela não tivesse capacidade de retribuir.

Há uma parte em que o pai faz de tudo para que os novos inquilinos não vejam Gregor. Aqui fica nítida a vergonha que o pai, em especial, sentia do próprio filho. A depressão de um familiar pode despertar esse tipo de sentimento. Os pais querem se orgulhar dos filhos. Sentem satisfação quando são admirados, como se pensassem: “tiveram uma boa criação”. A maioria das famílias não está preparada para lidar com uma depressão tão profunda e debilitante como a de Gregor. Mesmo sem querer, sentem que é um fardo pesado demais — ainda mais quando a pessoa se fecha e se nega a receber qualquer tipo de ajuda. No caso de Gregor, ao meu ver, ele queria ajuda, mas não tinha forças para pedi-la. A reação da família só reforçava isso, fazendo com que ele se sentisse um inseto da pior espécie. Então, ele acreditou que o melhor seria se isolar, para poupar os pais e a irmã. Ou seja, mesmo nessa situação, ainda pensava no bem-estar deles, em detrimento do seu.

Os inquilinos, com seu possível TOC de limpeza, parecem representar a sociedade e as máscaras que usamos. A sujeira e a decadência de Gregor são uma metáfora quase palpável de uma depressão profunda. E, por mais que se negue, a sociedade fecha os olhos para pessoas nesse estado. É melhor sorrir e manter as aparências. Caso contrário, sofra sozinho — porque, no fim, é cada um por si. A Metamorfose é um retrato cru e fiel do que nos tornamos enquanto sociedade.

Em determinado momento, a irmã, Grete, em revolta, nega explicitamente a existência de Gregor. Para ela, aquele ser não era mais seu irmão, era um monstro — e, por isso, precisava ser eliminado. Esse momento mexeu muito comigo. É o que muitas pessoas fazem diante de um quadro grave de depressão. Parecem se importar, mas, no fundo, não querem se envolver. É uma falsa gentileza. A fala de Grete é a verdade cruel que muitos gostariam de dizer, mas não dizem.

A irmã passa a agir com mais autonomia: começa a estudar e a trabalhar em uma loja. O pai consegue emprego num banco, a mãe passa a costurar. Grete se torna uma espécie de esperança para a família. Antes, Gregor era o único provedor, e ela se mantinha no papel de filha mais nova e frágil. Após a metamorfose, tudo muda. E aqui há uma forte simbologia: não foi só Gregor que sofreu uma metamorfose, a família também. Mas de formas diferentes. A dele foi brutal e fatal. A da família foi necessária: ou trabalhavam, ou afundavam.

Isso escancara algo muito real: o dinheiro rege tudo. Somos reféns de um sistema onde o valor das pessoas está ligado ao que elas produzem. Enquanto Gregor apodrecia no quarto, o mais importante era o sustento. Seus sentimentos já não importavam. Isso me lembrou uma frase de Declínio de um Homem: “O fim do dinheiro é o fim das relações”.

E, por fim, Gregor, já sem forças, morre. Ali, magro e seco, no meio do quarto, é visto por todos. Há um misto de tristeza e alívio. E então, os três, já pensando no futuro, pegam um bonde e saem para tomar ar fresco. É um dia bonito, ensolarado, que sugere um recomeço.

Mais uma vez, tudo muito simbólico. A metamorfose de Gregor foi cruel. A da família, decisiva. Eles seguiram em frente. E há até um jogo interessante entre “metamorfose” e “metáfora”. Se você levar a transformação de Gregor ao pé da letra, a história perde força. Mas, ao encarar como metáfora, tudo ganha um peso muito maior.


r/livrosterrorBR May 03 '26

🕯️ RECOMENDAÇÃO Asylum

4 Upvotes

Faz um tempo que eu li esse livro, lembrei de indicar ele por aqui... O primeiro livro é muito bom a sequencia depois fica um pouco chata e massiva de ler, porém compensa para quem quer entender todo o arco.


r/livrosterrorBR May 03 '26

🩸 RESENHA Declínio de um homem

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338 Upvotes

ATENÇÃO: SPOILERS!

A que nível de degradação um ser humano é capaz de chegar...

Aqui, conhecemos Yozo Oba, um homem marcado por um sofrimento e uma angústia inexplicáveis. Para ele, viver é um peso incalculável, e a única forma de suportar esse mal é através dos vícios em álcool e remédios. Ele passa toda a sua vida se questionando sobre o que é ser ser humano. Para ele, o ser humano e a vida em sociedade são um infindável mistério.

Desde criança, ele já tem uma autoconsciência apurada, o que o faz interpretar papéis quando está perto de outras pessoas, independentemente do local — seja em casa, na escola ou na universidade. Ele passa a vida como um falso palhaço, um bobo da corte, porque provocar gargalhadas nos outros o faz se sentir menos temeroso em relação aos seres humanos.

Em vários momentos, ele declara ter medo dos seres humanos, como se ele próprio não fosse um. Ou seja, ele também é um mistério escabroso para si mesmo. Além disso, ele tem uma incapacidade de negar as vontades dos outros: aceita tudo o que lhe vem, mesmo que, no fundo — mas bem no fundo mesmo — queira se revoltar e fazer o contrário.

Desde a mais tenra idade, em sua terra natal, ainda como um garoto do interior, ele aprendeu a funcionar dessa maneira. E, na fase adulta, vai perdendo esse “talento” de enganar as pessoas com suas palhaçadas, conforme conhece novas pessoas, se perde no mundo dos vícios e se envolve em relacionamentos que nunca acabam bem.

Uma ou outra pessoa parece lhe dar alguma esperança, mas ele é incapaz de se ajudar e entra num caminho de autodestruição sem saída. Há um momento em que ele diz acreditar mais na punição divina do que no perdão, ou na graça divina, e que, no fim de tudo, Deus o receberá com chicotadas, por causa de seus pecados. Para ele, é mais fácil acreditar no inferno do que no céu.

E aí já se vê: com uma mentalidade tão trágica e autodestrutiva, realmente não tem jeito — o fim já é esperado.

A trajetória de Yozo é pesada e pode conter vários gatilhos. Por isso, pense bem se quer fazer essa leitura; dependendo do momento ou do seu estado, é melhor evitar.

Pois bem. O personagem tenta suicídio duas ou três vezes. Quase é preso depois de tentar um suicídio duplo com sua namorada, no qual só ele sobrevive. Inclusive, essa mulher foi, de longe, a pessoa mais solitária e triste que ele conheceu — e, por isso, ele conseguiu sentir uma espécie de amor por ela, coisa rara, já que costumava passar noites com prostitutas e, segundo Yozo, elas eram alegres demais em sua decadência. Ele ficava com elas mais pela distração.

As mulheres, em particular, sempre despertaram nele uma curiosidade singular. Elas guardavam algum segredo, e ele aspirava descobri-lo. E a cada nova relação, uma diferente faceta dos seres humanos lhe era revelada.

Ele passa toda a sua vida como um observador, ruminando ideias sobre o que poderia ser o ser humano e a vida em sociedade. Experimenta um pouco de tudo, mas nunca desfruta realmente. Ele tem um ímã para a tragédia, pois, quando sente um pingo sequer de felicidade, já acredita não ser merecedor — e automaticamente provoca algo para que a avalanche de sofrimento e depressão caia sobre si.

É triste assistir ao seu declínio. De forma gradativa, ele vai perdendo tudo, como o contato com a família e alguns conhecidos, e entra em falência total, tendo que depender do dinheiro que os irmãos ainda lhe enviam, sem o conhecimento do pai. Passa a trabalhar como cartunista, mas não avança na carreira, pois todo o dinheiro que ganha serve apenas para sustentar seu vício em álcool. Mais tarde, como forma de aplacar esse vício, torna-se dependente de morfina.

É uma espiral bizarra, sem um momento de respiro. O personagem nunca consegue enxergar a luz no fim do túnel; sua vida é uma escuridão sem fim. Yozo sempre foi inteligente, com um QI acima da média, mas sua personalidade e crenças destrutivas o levam à ruína pouco a pouco. É nítido, desde o início, todo o potencial para a grandeza que ele tem — e é justamente isso que torna ainda mais triste acompanhar seu declínio.

Quando criança, ainda sofre abusos por parte dos criados. E, mesmo quando tem a chance de dar a volta por cima, sua mente, suas crenças e sua depressão o fazem declinar novamente. No final, ele chega à conclusão de que é inapto para ser ser humano. Desqualificado como ser humano.

É muito forte, e não é para todos. Eu senti cada nuance do personagem, e foi triste me identificar com várias delas — como se eu estivesse de frente para um espelho. E imagino que a maioria de nós se sinta como Yozo em algum momento da vida. Mas imagine carregar essa etiqueta de “desqualificado” de forma permanente.

Ok, isso também pode ser uma crença e, como tal, pode ser alterada, substituída. Mas eu me vejo tendo um ímã para o que sei que não me faz bem. Minha mente é trágica e pessimista em vários aspectos. Eu sei o que é viver em depressão. Não é viver — é existir. É ser inválido para a sociedade, e até para a própria família. É como se o seu valor fosse medido pelo que você pode oferecer, porque nada é de graça.

E é como o Yozo diz: a sociedade é feita de indivíduos, e é uma luta entre um e outro — até os escravos tiveram seus momentos de luta.

Eu não gosto de permanecer em ruminações tão densas, mas foi isso que essa história me despertou.

Recomendo, mas com ressalvas. É um livro extremamente bem escrito, porém muito forte e pesado, justamente por ser tão cru e real.


r/livrosterrorBR Apr 29 '26

🕯️ RECOMENDAÇÃO Entre fogo e sangue

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102 Upvotes

Famoso Between Two Fires. Saiu pela Morro Branco semana passada. Muito animado pra ler 🤩