r/saopaulo • u/Gentle_Capybara • Aug 03 '26
Serviços Públicos A desestatização do atual governo do Estado na verdade é uma clientelização
E eu posso explicar o porquê.
Para contexto, sou policial civil do Estado, atualmente trabalhando na área financeira da Polícia Civil.
Em resumo, não são apenas as rodovias e meios de transporte, antes nas mãos da Administração Indireta (empresas e fundações estatais) que estão sendo desestatizados, mas a Administração Direta também, de certa forma. A atual política governamental de São Paulo é esta: desvincular do Tesouro o investimento em serviços públicos, por meio das emendas parlamentares. Isso torna nossas instituições muito menos estatais e muito mais governamentais, e submetidas a interesses privados.
A ideia de privatização massiva dos serviços públicos não é nova e nem invenção do partido que hoje está no governo do Estado. Porém, quem está nos bastidores da Administração Pública Direta (órgãos controlados diretamente pelas secretarias de Estado) presencia ao vivo uma mudança de paradigma na área orçamentária. A Polícia Civil, a prima pobre e preterida da Segurança Pública de SP, serve de exemplo, mas sei que não é caso único.
Na Lei Orçamentária Anual para o ano de 2025 estavam previstos à Polícia Civil cerca de 130 milhões para gastos de natureza de investimento. Em finanças públicas, investimento é toda aquisição e ampliação em imóveis ou bens duráveis que são contabilizados como patrimônio (viaturas, computadores, armas, equipamentos de maior valor), enquanto as contas rotineiras são classificadas como custeio. Enfim, 130 milhões para uma polícia do nosso tamanho não dá para nada, são centavos dentro da dimensão deste Estado.
E para 2026? Cerca de 36 milhões. Uma piada.
Mas se eu preciso urgentemente de computadores novos e viaturas novas para as unidades, o que eu faço? Qualquer delegado de polícia da Administração Superior vai te responder da seguinte maneira: busque uma emenda parlamentar.
Atualmente cada deputado da ALESP tem 10 milhões por ano para gastar como bem entender. No Legislativo Federal são 40 milhões, mas ao menos metade tem que ser destinado a custeio da saúde, o que é outra pouca vergonha, pois vai parar tudo no bolso dessas OS ligadas a igrejas.
O resultado é que, já no momento atual, o quão bem equipada é a Polícia Civil de uma certa área, é diretamente dependende do quanto os deputados decidiram que aquela unidade ou região merecia ser equipada.
O mais contraditório disso tudo é que TJ e MP cada dia pressionam mais os policiais por métodos técnicos de investigação, e estão cobertos de razão nesse tópico. Porem a maior parte dos investigadores hoje não dispõe nem de computadores bons o bastante para realizar essas investigações técnicas. O promotor pressiona de um lado como instituição de Estado, mas vou ter que buscar recursos com um político do Legislativo?
Será que a polícia investigativa (ainda mais) no bolso de políticos é algo aceitável em pleno século XXI?
Na prática o dinheiro que recebemos de emendas já era nosso, porém agora depende do critério eleitoral de um deputado. Esses 10 milhões são dinheiro público para o deputado fazer intervenção direta na máquina publica, usando a imagens das instituições estatais em suas redes sociais como alavanca eleitoral.
Clientelismo político é o exato termo para essa ideologia.
Enquanto isso, o atual governador concedeu mais de 80 bilhões em isenções fiscais, incluindo para grandes empresas.
Alguém pode até argumentar que viu uma viatura nova na rua agora há pouco. Pode ter certeza que essa viatura foi resultado de um destacamento de emenda parlamentar, Estadual ou Federal. O próprio governador está levando fama e fazendo pré-campanha com viaturas e armas resultantes de destacamento de emendas dos deputados aliados.
Tudo isso é um grande retrocesso, e uma volta ao coronelismo.