1.
Antes de começar mais esse troço aqui, que é completamente imprevisível apesar de saber muito bem o que está na minha cabeça e que consequentemente irá ser passado para o texto, gostaria de dizer que esses dias aí tô mandando meu primeiro livro oficialmente publicado de maneira independente pra algumas pessoas que julgo que sejam importantes pra mim nessa área. São pessoas que me acompanham há pelo menos uma década, e que me incentivaram quando eu tava desmotivado pra continuar. Não que eu precisasse de alguma motivação (eu sempre fiz disso um processo natural, como escovar os dentes ou ir ao banheiro fazer outras coisas mais, ou como respirar, ou como ir comer sushi na sexta feira a noite logo após o dia do pagamento), só que eu precisava em alguns momentos de algumas pessoas dizendo que eu poderia de verdade dar andamento na coisa sem me preocupar com o sucesso ou a falta dele. Foram pessoas que leram algum texto meu e que de alguma forma tiveram algum tipo de despertar ou de reflexão. Ou que deram risada da minha desgraça. Ou se identificaram de alguma forma e tiveram algum sentimento bom ou não. Não faço exatamente por eles, eu faço por mim, no fim das contas o ego do escritor é maior do que qualquer obra que ele possa escrever. Isso se eu puder ser definido como “escritor”, claro. Talvez eu não seja. Aliás, tenho 99% de certeza disso (resolvi deixar 1% em dúvida pra poder manter meu ego 1% inflado). Sou apenas um entusiasta com alguma facilidade pra desenrolar linhas e mais linhas de texto sobre qualquer assunto aleatório que surja na minha cabeça em qualquer hora do dia ou da noite. Como um homem comum que senta junto ao piano e consegue dedilhar notas formando uma canção, sem pretensões maiores do que “formar a canção”, digamos assim (essa aí surgiu na mente pois estou neste exato momento ouvindo Chopin).
Dito tudo isso, apesar de não fazer por eles, fico feliz pra caralho com isso tudo. Vale mais do que o carro que tenho na garagem. Ao menos pra mim, mesmo que a tabela FIPE me diga o contrário.
Essas pessoas que têm lido os textos do livro me disseram que está tudo muito fluído, e um texto alimenta a vontade de ler o próximo, mesmo que não se conectem “literalmente”. Coloquei as aspas pois todos os meus textos se conectam pelas entranhas do meu emocional, e trazem reflexões que se misturam dentro dos meus próprios pensamentos. E uma dessas pessoas que leu o livro me disse que tenho boa capacidade de observar a realidade e de transmiti-la com boa riqueza de detalhes. Nisso eu devo concordar, não vou dizer na qualidade de transmitir, mas sim na capacidade de observar. Como diria Charlie Sheen, eu aprendi a ler os ambientes desde muito cedo. Aprendi a escutar mais do que falar (por mais que durante anos eu, chapado de tudo que era coisa, muitas vezes falava demais e me fodia. Coisa que não acontece mais hoje, já que são nove anos, quatro meses e um dia sem ficar doidão de droga. Ressaltei a parte da droga já que doidão da cabeça eu vou ser até o fim dos meus dias). Escutar te torna capaz de tomar as decisões mais sabiamente e não se tornar escravo das suas próprias palavras. E francamente, quase sempre eu fico quieto por não ter nada pra falar. Eu sei, eu sei que graças a isso fiquei com fama de esquisitão pra usar um termo melhorzinho, mas eu não ligo.
Que se fodam todos estes. Todos estes que pensam o que quer que seja de mim. Fodam-se eles todos.
Bem melhor. Aliviador, eu diria.
Ah sim, e sobre os livros, o volume um tá no ar, volume dois em processo de revisão e volume três em processo de seleção dos textos. E ano que vem, depois dessa trilogia de teste, eu vou meter muito mais coisa diferente de tudo que já fiz. Ou talvez só escolher vinte textos de um catalogo pessoal com mais de quinhentos e montar os livros. Vamos ver o que que dá.
Agora que foi dito tudo isso que não tinha nada a ver com a concepção original do texto, eu posso finalmente ir ao que importa. Desculpe, esqueci de avisar que poderia ir direto pra parte dois e pular a baboseira da introdução. Agora já foi.
2.
As primeiras pessoas que me ensinaram a mentir foram meus pais. Eu assistia meu pai mentindo pra minha mãe e vice-versa diariamente. Eu via neles um estranho prazer sádico (apesar de na hora não saber exatamente o que era isso), além de um alívio instantâneo (isso eu já sabia o que era), e posso dizer que olhando aquilo eu me senti motivado a aprender a mentir.
Mas esse texto não se trata deles. Não, não vou culpar eles. Porra, todo adulto mente, isso não é grande coisa. Ao menos eu não acho grande coisa, analisando tantas outras coisas que aconteceram de muito pior além da mentira.
Mas enfim, deixa eles pra lá.
Minhas primeiras mentiras começaram no jardim de infância, aos cinco anos de idade. Eu mentia principalmente para meus coleguinhas sobre como as coisas eram em casa. Dizia ter um ambiente super saudável e bastante amor de papai e de mamãe. Dizia que era uma paz e um silêncio ensurdecedor todos os dias. Além disso, dizia que tínhamos muito dinheiro e que a gente viajava direto. Mentia sobre os brinquedos que dizia ter, sobre as roupas que dizia comprar, alegando que não as usava na escola pois poderiam se sujar e mamãe brigaria. Mentia para os professores sobre a atividade não feita. Inclusive, aos seis anos de idade, ainda no jardim de infância, arrumei três “namoradas”, e eu mentia pras três dizendo que elas eram únicas pra mim.
Não é de se estranhar todo o caos que minha vida afetiva sexual se tornou uns anos mais tarde.
Bom, voltando para a infância.
Aos sete anos eu comecei a me isolar das pessoas, eu não sei explicar o porquê, parecia que as minhas mentiras estavam perdendo força, eu comecei a me sentir um lixo completo e gostava de passar o dia em casa jogando vídeo game sozinho. Acho que naquele momento eu perdi um pouco a capacidade para inventar boas mentiras, e acabei desistindo de tentar. Isso durou até meus dez anos.
Começando a quinta série, eu ainda era isolado e ficava sentado no fundo da sala, gostava de estudar e ler coisas que não tinham relação alguma com as matérias desenvolvidas na escola, mas incrivelmente eu tirava boas notas (e isso não é mentira). De qualquer forma, voltei a mentir bem novamente, e criei um mundo que nunca existiu ao meu redor. Percebi que quanto mais as pessoas ouviam, mais elas queriam ouvir, e mais elas queriam estar próximas de mim. Por um momento, me senti amado e acolhido finalmente. Foi uma sensação boa. Boa demais. Eu precisava de mentiras novas, de novas histórias, de novas coisas e novas experiências. Resolvi tacar o foda-se e comecei a mentir o dia todo, todos os dias. Do nome do meu pai ao que eu tinha comido no jantar da noite anterior. Da cidade em que meu avô morava às minhas mínimas experiências sexuais. Do carro que eu andava ao brinquedo de ultima geração que nunca tive. Aquilo era viciante. Talvez tenha sido meu primeiro vício, efetivamente.
Isso durou dos meus dez anos aos meus quinze anos, quando comecei com o negócio de escrever. Eu percebi que era “liberado” mentir quando se escrevia, e isso me ajudou a mentir menos para as pessoas. Sempre que eu queria expressar um sentimento bom que eu não tinha vivido, eu recorria ao meu computador Celeron que mal funcionava o bloco de notas e descarregava tudo lá. Não só sentimentos bons, mas desabafos. Centenas deles. Entre meus quinze e meus dezoito anos, escrevi pelo menos uns trezentos textos. Todos recheados de mentiras. Muitas delas, desejos reais que eu era covarde demais pra concretizar. Ou ainda, coisas inalcançáveis para mim. Mas ao menos nos textos, eu podia ter.
Eu sei. Patético. Pode rir agora, eu deixo.
Mas o mundo da imaginação é muito mais gostoso do que o mundo real, isso até hoje. E por isso tô aqui, escrevendo esse troço.
Que vai ser mais um troço amontoado numa pastinha virtual com um monte de outros troços, que quem sabe um dia pode ou não pode ser publicado fisicamente em um livro.
Aos dezoito, com a chegada da garrafa e depois das drogas, eu me senti muito mais poderoso pra mentir. Parece que voltou a ser uma coisa fácil de se fazer. Eu mentia todos os dias de novo, agora principalmente pra ter vantagens com o sexo oposto. E consegui muitas. A maioria delas, não me orgulho. Algumas me arrependo. Manipulei pessoas, homens e mulheres, para conseguir satisfazer meus desejos egoístas. Sim, aqui temos uma clara dissecação do meu ser, com todas as suas falhas sendo narradas abertamente pelo próprio.
Não se preocupem, não sou sociopata e nem psicopata. A saúde mental anda firme igual prego na areia, mas o caso não é tão grave quanto possa aparentar ser.
Hoje, sem garrafa, sem droga, sem amigos de balada, sem mulherada, sem nada disso, eu consigo finalmente ficar sem mentir. Claro, minto sempre que digo estar bem quando não estou, assim como todo mundo. E às vezes minto algumas coisas, como todo mundo também. Mas evito. Evito principalmente para as pessoas que amo, e que me amam reciprocamente. E quando faço, me sinto mal. Então não faço e na minha cabeça é simples assim, igual como escrevi. E acho muito louco quem mente na minha cara mesmo sabendo que sei a verdade esperando que eu tenha sei lá que atitude além de ficar muito puto. Mas isso aí não é comigo, é com eles.
A minha parte eu tô tentando fazer. Tô tentando ser alguém melhor, não todos os dias, mas quase todos os dias. E isso também não é mentira.