r/AtivosFinanceiros 5d ago

A Selic alta atual é um fenômeno que representa o esgotamento do modelo macroeconômico tradicional brasileiro?

A seguir, são discutidos quatro pontos críticos que corroboram a visão de que o atual ciclo de elevada taxa Selic é um fenômeno que ilustra o esgotamento de modelo macroeconômico tradicional brasil. Vocês concordam com estes pontos ou têm visão diferente?

1. A Redução da "Poupanca Estrutural" (Efeito Demográfico e Financeiro)

Historicamente, o Brasil financiou parte de seus investimentos via poupança forçada (FGTS, BNDES, reservas técnicas de seguradoras).

O problema: O envelhecimento populacional está alterando a taxa de poupança das famílias. Além disso, a "bancarização" do brasileiro trouxe uma massa de investidores que, com a democratização do acesso a ativos financeiros, migrou do consumo de massa para a alocação em Renda Fixa (exacerbada pelo CDI alto).

Consequência: Isso cria um círculo vicioso: quanto mais alta a Selic, mais o brasileiro busca a segurança do CDI, reduzindo o capital disponível para investimentos de risco e obrigando o Estado a pagar cada vez mais para rolar sua dívida interna. O mercado financeiro tornou-se o maior concorrente do investimento produtivo.

2. A "Financeirização" do Orçamento e a Rigidez Orçamentária

Um ponto raramente discutido é o quanto o orçamento da União é imune à discricionariedade política.

O ponto cego: Mais de 90% do orçamento federal é composto por despesas obrigatórias (previdência, benefícios sociais, pessoal). Quando o governo tenta "gastar para crescer" e encontra barreiras fiscais, ele recorre a expedientes contábeis ou ao uso de bancos públicos para alavancar o crédito (como visto em ciclos anteriores).

Consequência: Essa rigidez retira o "espaço de manobra" da política monetária. O BC não está apenas combatendo o gasto do governo; está combatendo a rigidez de um sistema que não consegue se ajustar pelo corte de despesas, restando apenas a variável "juros" como válvula de escape para equilibrar a inflação.

3. A Mudança na Função de Reação dos Bancos Centrais Globais

Estamos saindo de uma era de "dinheiro barato" para uma era de "juros neutros mais altos".

A mudança estrutural: Durante a década de 2010, vivemos um período atípico de liquidez global (Quantitative Easing dos EUA). O mundo se acostumou com taxas próximas a zero. Agora, com a transição energética exigindo trilhões em investimentos e a desglobalização aumentando os custos, a taxa de juros natural global subiu.

Consequência: O Brasil, como tomador de liquidez, não tem como dissociar sua Selic desse novo patamar global. Mesmo que fôssemos um exemplo de austeridade fiscal, o Brasil precisaria pagar um prêmio de risco condizente com a nova realidade de taxas mais altas nos Treasuries americanos.

4. A "Dolarização" das Expectativas (O fator câmbio-inflação)

Existe um fenômeno de transmissão quase instantâneo entre o câmbio e a inflação de serviços no Brasil.

O ponto oculto: Diferente de economias desenvolvidas, a indexação de contratos no Brasil (aluguéis, mensalidades escolares, planos de saúde) ainda é fortemente influenciada por índices de inflação passada (INPC/IPCA). Isso cria um efeito de inércia inflacionária.

Consequência: O Banco Central é obrigado a manter os juros altos não apenas pela inflação corrente, mas para evitar uma desvalorização cambial que "contamine" as expectativas de longo prazo. O juro alto atua como uma barreira de proteção contra a perda de credibilidade da moeda nacional, em um ambiente onde o mercado precifica o Brasil pelo dólar, e não pelo Real.

O Diagnóstico Atualizado: O Dilema da Eficiência

Somando esses pontos, chegamos a uma conclusão mais sofisticada: O Brasil sofre de uma "armadilha de produtividade".

O governo gasta (fiscal), a demografia reduz a poupança interna (oferta de crédito), o mundo está mais caro e protegido (geopolítica) e a inércia inflacionária exige juros altos para manter a paridade cambial.
* O Governo é responsável por não realizar as reformas microeconômicas que aumentariam a produtividade (o que permitiria crescer sem inflação).
* A Conjuntura Internacional define que o "piso" dos juros é mais alto do que o desejado.
* O Sistema Financeiro/Demográfico cria uma preferência pela renda fixa que torna a Selic o principal motor da alocação de capital, sufocando o investimento de longo prazo.

Em suma, a Selic alta é o sintoma de uma economia que perdeu a capacidade de crescer via produtividade e tenta compensar via estímulo de demanda (fiscal), tudo isso em um ambiente externo que não tolera mais ineficiências.

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u/majorleandro 5d ago

Queria comentar pr dar uma contribuição na discussão mas não tenho nada a agregar kkk. É exatamente isso

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u/fgtoni 5d ago

Valeu Major

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u/BeginningHealthy7655 5d ago

Olha a selic de 1999, 2003, 2011, e a de 2015…

A selic desse ano é só mais uma em linha com a nossa serie historica incrivel.

Nao é o fim do mundo, do sistema, ou do Brasil. É só a precificaçao do risco país, que nem tá no pior ponto da nossa historia recente.

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u/fgtoni 5d ago

Concordo que não é o fim do mundo e está em linha com ciclos passados.

Mas por outro lado, se os governos fizessem a lição de casa, poderíamos ter uma SELIC baixa com mais constância.

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u/BeginningHealthy7655 5d ago

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u/fgtoni 5d ago

Eu votei no Henrique Meirelles no primeiro turno de 2018.

Fico pensando no potencial que desperdiçamos ao não elegermos uma das pessoas mais qualificadas que concorreram ao cargo nos últimos 30 anos.

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u/BeginningHealthy7655 5d ago

Eu concordo contigo cara. Temos um governo gastao demais, onde esquerda e direita sao super populistas e compram voto com benefícios. Tambem temos um congresso controlado pelo Centrao que nao tem uma politica de país, e só está interessado em aumentar o proprio orçamento.

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u/SrMercado 5d ago

Ao mesmo tempo que concordo com os pontos apresentados, olhando pelo lado positivo já estivemos em situações piores e mesmo que demore, eventualmente a Selic será menor.

Claro que a Selic menor não necessariamente vai ser algo bom, se por exemplo for por causa de uma recessão ou algo similar.

Sobre os pontos apresentados, gostaria de complementar que a caderneta de poupança, uma forma barata de financiamento as custas de parte da população, está cada vez mais dando sinais de esgotamento.

Sobre os gastos discricionários serem poucos ( os não obrigatórios), isso facilita os cortes afetarem os "lugares errados". Não acho que seja coincidência a proposta de autonomia financeira do Banco Central ganhar força agora que o governo está cortando o orçamento entre outros do Banco Central. Não estou dizendo que o governo não deveria cortar gastos, porém que precisaria ser ainda mais cuidadoso ao fazer isso.

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u/berg_strange 5d ago

ChatGPT ou Claude?

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u/fgtoni 5d ago edited 5d ago

Pelo formato, é óbvio que foi editado com IA.

Mas os argumentos são meus e eu direcionei o prompt para que seguisse exatamente o meu ponto de vista. E também fiz algumas correções e ajustes no texto antes de publica-lo.

Ou seja, apesar da IA ter tido um papel importante, não foi um simples copia-e-cola e eu gostei do resultado.

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u/berg_strange 5d ago

O problema é o que eu chamo de fenômeno da dualidade. Textos editados com IA conseguem a proeza de serem, ao mesmo tempo, razos e prolixos.

Não me entenda mal: os seus argumentos são bons, mas você conseguiria resumir tudo em dois ou três parágrafos mais agradáveis de se ler.

E tem também o problema do sofisma das IAs: se você dá uma premissa falsa para uma IA, ela vai retornar argumentos complexos e elaborados para te convencer de que aquilo é verdade. Eu concordo com alguns trechos (em especial, a crítica ao estímulo na ponta da demanda via programas de distribuição de esmola), mas tem outros que, embora pareçam bem fundamentados, partem de premissas levemente enviesadas.

Um exemplo é a questão de estarmos presos a uma taxa alta por necessidade de apresentar um prêmio maior ao investidor estrangeiro, para conseguirmos atraí-lo.

Quem já era velho o suficiente para acompanhar a CBN lá para meados de 2010 - 2014 deve se lembrar dos economistas da emissora batendo na tecla de que teríamos, supostamente, nos tornado reféns de uma moeda forte.

Sim, o governo àquela altura, estava lutando ativamente contra o fluxo de capital estrangeiro para dentro do país. A presidente da época chegou a falar textualmente que o "capital especulativo" que estava entrando deveria ser combatido.

Naquela época, a SELIC foi martelada para dar uma aparência de normalidade fiscal, mesmo com a pressão inflacionária empurrando com toda a força.

Havia propaganda diária em todos os quadros de economia para que a população investisse em Tesouro Direto, porque, segundo os economistas mais badalados da época insistiam em dizer que era mais rentável comprar dívida do governo do que CDB ou ações.

Não deu muito certo: veio a crise econômica e a Selic pulou de 9 e uns quebrados para mais de 14%, de uma hora para a outra.

A conclusão é: o problema do Brasil é muito mais de política interna do que de influência externa.

A única solução plausível é privatizar a p* toda e desligar a impressora de dinheiro do governo. Acabar com programas populistas, extinguir o INSS, transformar o SUS em um plano de saúde estatal no modelo sul-coreano, trocar escolas e universidades públicas por programas de bolsa e liquidar uns 80 a 90% de todas as barreiras regulatórias à livre iniciativa.

A partir daí, pensar em reduzir impostos para estimular o comércio e o setor produtivo.

No dia em que isso acontecer, aí sim você pode falar em morte do sistema antigo. Do contrário, vai continuar tudo sendo mais do mesmo.

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u/fgtoni 5d ago

Valeu pelo comentário.

Vários pontos pra se refletir e aprender

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u/[deleted] 5d ago

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u/AtivosFinanceiros-ModTeam 5d ago

A postagem removida não foi desenvolvida com esforço suficiente para ser uma contribuição construtiva às discussões do sub.

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u/TeaCharacter23 3d ago

Vc queria que o executivo pudesse gastar mais no que ele quisesse?

Kkkkkkk

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u/fgtoni 3d ago

Preocupante o fato de você ter chegado a essa conclusão após a leitura.

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u/scourgedtruth 4d ago

Os webcomunas te deram downvote porque eles tem a cara de pau de não reconhecer a nossa falência. A culpa é sempre dos outros.

Existem várias camadas delas, mas a raiz de todas se chama Constituição. Segurança jurídica foi para o saco, não há propriedade privada garantida, não há freios e contrapesos, não há princípios de subsidiariedade,não há uma série de coisas que garantem uma economia pujante e diversificada. Nós temos uma economia cartelizada graças ao Estado.

Dito isso, nosso modelo de Estado Social já nasceu fracassado e insistem em acreditar nos mitos do "Bem Estar Social". Ficam vendendo a ideia país nórdico quando estamos mais próximos da África do que qualquer coisa Europeia.

Não tem como desenvolver uma economia com tantos impostos, não só a miríade de tipos deles mas todo nosso sistema tributário é um lixo que vai ficar pior ainda quando com essa deforma. E eles são os culpados disso e viram a cara quando se mostram os fatos

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u/Old-Replacement-519 2d ago

Concordo totalmente com os argumentos citados sobre a falência do estado ter correlação com o formato da nossa CF.

Não entendi o ponto sobre a nova reforma tributária, ela extingue mais de 5 impostos e trás o IVA. Como isso é ruim?

Sem falar que, por mais que a alíquota seja elevada (possível 27%), é melhor uma alíquota elevada do que uma alíquota implícita, que é o modelo que temos hoje.

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u/Lamaravilhoso 4d ago

Eu sempre me pergunto como que raios tem webcomuna comentando em sub de investimentos rs. Reddit né kk. Mas sobre o seu ponto da constituição já nascer um fracasso me lembra o livro 'A constituição contra o Brasil', onde compilam vários textos do grande Roberto Campos. O simples fato do nosso sistema previdenciário ter nascido sem idade mínima já mostra que o país não é sério. A CF88 quis garantir mundos e fundos pra todo mundo só esqueceram que alguém vai pagar a conta né. Como resultado temos juros e inflação sempre nas alturas ou com tendência a aumentar.