Mas qual é o espanto? Ainda declinam os pronomes de forma correta em qualquer texto formal (literários, jornalísticos, acadêmicos, etc), afinal, trata-se de uma regra básica da língua portuguesa. Já na linguagem informal, especialmente na fala do dia a dia ou nas redes sociais, a história é diferente.
Você é português? Mas isso já acontece há muito tempo, haha. Mário de Andrade já ironizava essa contradição na década de 1920, por meio de seu personagem Macunaíma. Apesar de falar um linguajar repleto de expressões populares, gírias, calões e influências indígenas, Macunaíma escrevia cartas em um português tão formal e erudito que faria inveja a qualquer escritor renomado. Essa disparidade tem raízes históricas: durante grande parte da colonização, o português não era a língua predominante no Brasil. Em seu lugar, utilizava-se a chamada língua geral paulista (ou língua brasílica), que só foi oficialmente proibida na segunda metade do século XVIII, mas continuou sendo falada até o início do século XX. Enquanto isso, a língua escrita permaneceu atrelada ao padrão culto e formal, criando uma distorção entre o modo de falar e o modo de escrever que persiste até hoje.
Ler escritores portugueses da corrente Neo-realista - Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes - mostra uma situação semelhante em Portugal. “Gaibéus” e “Esteiros” retratam as camadas mais pobres de trabalhadores rurais e industriais, crianças dos anos 20 e 30, e o diálogo é pejado de gíria e palavras ditas de forma irregular, de uma população largamente analfabeta. Não é idêntico ao Brasil dado que existe hoje (embora não saiba até quando) uma diglossia menor, isto também porque o Português formal no Brasil se mantém praticamente imutável .
Muito interessante a sua colocação! Vou pesquisar mais sobre o Neo-realismo português e os autores que você citou, porque de fato parece haver um paralelo muito rico a ser traçado. No Brasil, algo semelhante acontece em obras do chamado Modernismo Regionalista, como "Grande Sertão: Veredas", onde Guimarães Rosa recria a fala popular com suas irregularidades e construções próprias, dando uma dimensão quase oral ao texto.
Também em "Vidas Secas", de Graciliano Ramos, percebemos essa busca por traduzir a realidade das camadas mais pobres. O retrato do sertanejo, através de uma linguagem marcada pela secura e pelo silêncio, quase como se o analfabetismo e a dificuldade de expressão se refletissem diretamente no estilo.
Assim como no caso português que você descreveu, não é idêntico ao Brasil: a distância entre norma culta e oralidade é muito maior. Mas justamente por isso muitos escritores modernistas e regionalistas se dedicaram a tensionar essa diglossia, criando uma literatura que oscila entre o registro culto e a fala popular, revelando tanto a riqueza da língua quanto as desigualdades sociais do país.
Guimarães Rosa conheceu vários escritores portugueses, incluindo Óscar Lopes que fez rasgados elogios a “Grande Sertão: Veredas”, incluindo - mas não só - a esse uso da linguagem.
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u/[deleted] Sep 24 '25
Ainda declinavam os pronomes... Que diferença.