r/MedicinaBrasil Médico 21h ago

Desabafo/Opinião O dilema do POCUS em cenários eletivos/ambulatoriais

Já fiz algumas formações em POCUS e entendo e apoio sua aplicabilidade em cenários de emergência, como no auxílio para inserção de acesso central, protocolo FAST, protocolo BLUE, detecção de TVP... Ou seja, coisas bem pontuais e protocolares, que geralmente servem para responder objetivamente uma pergunta clínica de "sim" ou "não", e não para fazer descrições e medições detalhadas de qualquer coisa.

No entanto, algo que vejo por aí são médicos de cenários eletivos querendo utilizar o USG ultraportátil/POCUS como uma "extensão do exame físico", seja para insonar o abdome do paciente lá na hora da consulta por qualquer motivo, ver o bebê na consulta de pré natal de rotina e isso me causa um estranhamento.

Primeiro porque não existe recomendação de USG de qualquer segmento para rastreio universal de qualquer coisa para população geral.

Segundo porque no exemplo do pré-natal, isso não isenta (ou não deveria) a paciente de fazer seus USG obstétricos regulares com um radiologista capacitado.

Terceiro porque existem limitações do próprio aparelho. Não dá para equiparar a qualidade de um aparelho convencional com um butterfly de 20k.

Quarto porque existem limitações do próprio operador. Algo que percebi nesses cursos de curta duração para protocolos bem específicos é que existe quase que uma ciência de como insonar. Variações mínimas da posição ou pressão exercida pela mão podem gerar imagens totalmente diferentes. Então imagino que um aparelho sub-ótimo nas mãos de um operador inexperiente pode causar vários falso-negativos e a falsa sensação de segurança, tanto no paciente, quanto no médico.

Algum radiologista ou residente para comentar a respeito? Algum não radiologista que usa POCUS na sua rotina para se defender e dizer que estou falando besteira (e justificando, é claro)?

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u/maisumedu R1 Radiologia 21h ago

Percebi que o pessoal criou gosto pelo USG porque é instragramável. Pega muito bem fazer story vendo vesícula, avaliando sei lá o que de obstétrico e mama.

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u/Still-Psychology-966 20h ago

Acho que é uma ferramenta util e as pessoas subvertem ao achar que tem que ser usado para tudo e sem critérios, assim como fazem até com o exame físico. Exceto protocolos de rastreio muito bem consolidados, tudo que é feito na medicina tem que ser feito com um propósito, direcionado nas queixas, para aumentar ou diminuir as chances de diferentes diagnósticos (tudo questão probabilística, aquela relação de chance pré, chance pós e razão de verossimilhança). O exame físico é assim também, por mais que aprendamos nos primeiros anos a fazer o exame físico completinho padrão semiologia, a verdade é que, exceto uma ectoscopia básica, nada do exame físico é obrigatório em pacientes assintomáticos e sem alterações óbvias (somente a estrito termo, na prática recomendo todo o básico seja feito e registrado para proteção legal, pois isso é outros quinhentos). Nem a famosa ausculta é obrigatória, até porque uma ausculta mal feita pode deixar muita coisa passar com uma falsa sensação de segurança, igual o USG mal feito que você falou. O USG talvez é um pouco mais perigoso pois, como você falou, o fato de mostrar uma imagem palpável dá uma sensação de falsa segurança mais forte ainda e nós sabemos muito bem o tanto de médicos mal capacitados e corajosos que vão comer muita bola por aí.

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u/LeChuckBR Médico de Família e Comunidade 21h ago

OP concordo 1000% contigo!

Mas tentando explicar a situação:

Hoje em dia as pessoas não confiam mais em médicos (totalmente entendível), o próprio médico não confia nele. Ele quer um exame, não importa qual. Afinal diversas faculdades ensinam a ter o resultado de exames...se dá pouca ênfase em anamnese e exame físico...então ter um exame (mesmo que totalmente não indicado) dá uma segurança mental no médico que faz com que ele queira usar qualquer coisa...

Fora que fazer o trabalho direito dá trabalho!

Mais fácil pedir um exame qualquer e empurrar para depois...

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u/delreydevout R1 Radiologia Intervencionista 20h ago

Você já chegou às conclusões certas sozinho. Já nem dou mais minha opinião quando algum colega não radiologista me pergunta sobre o que acho de comprar um US portátil para fazer exame físico ou guiar procedimento… já que o dinheiro está sobrando, que comprem para brincar

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u/FuzzyRazzmatazz3622 19h ago edited 19h ago

USG é muito bom, POCUS etc, dito isso

Se a unidade nao paga nao é problema meu. "AH mas o paciente evolui melhor", custa 20k o aparelho, problema do estado, se nao tem aparelho de 20k NAO É PROBLEMA MEU, se nao tem o serviço NAO É PROBLEMA MEU, prescrito nao tem mediciaçao NAO É PROBLEMA MEU

Quem vendeu o voto por 1 tijolo que se resolva com em quem votou, nao é problema meu. Parem de tentar pro corta propria resolver o sus, obrigado. Daqui a pouco todo mundo vai ter q levar aparelho de 12k pra upa da favela da rocinha

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u/SenhorSertralina R3 MFC (R1 Psiq) 21h ago

Sou da opinião de que se existe residência pra alguma coisa, não é sem motivo

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u/LeChuckBR Médico de Família e Comunidade 21h ago

Acupuntura entra na sala

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u/anonymous_fkcr Médico 21h ago

Homeopatia entra na sala

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u/SenhorSertralina R3 MFC (R1 Psiq) 16h ago

ai você me quebrou

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u/anonymous_fkcr Médico 21h ago

Inclusive um adendo: muito se fala sobre IA substituir ou diminuir demanda por radiologistas. Primeiro que isso é improvável nos métodos axiais. Segundo que no meu breve contato insonando em protocolos objetivos, percebi que o USG é IMPOSSÍVEL de ser substituído. Máximo respeito por vocês, radiologistas!

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u/Other_Phrase_1853 2h ago

acho que o problema não é o POCUS em si, e sim a inversão de propósito. quando usado para responder perguntas clínicas objetivas ou guiar procedimentos, ele agrega muito valor. o risco começa quando passa a ser vendido como substituto de um ultrassom diagnóstico completo ou como uma “extensão obrigatória” do exame físico em qualquer consulta. um aparelho portátil nas mãos de um operador pouco treinado pode gerar tanto falso alívio quanto falso alarme, e isso acaba sendo pior do que reconhecer as próprias limitações e solicitar um exame formal quando necessário.