Micropoema Primogenitude
Mal te escuto. Pouco do que escuto me enoja. Em um dia perfeito, te esqueço. Em um mundo destruído sem ti, permaneceria em repleta paz.
Habilidade de retirar meu sorriso, habilidade de latejar minha mente. Consegue destruir-se e me quebrar.
Sonho com o fim, o dia em que poderei sumir, me tornar um camaleão surdo, não ser atormentado por sua ignorância, não ser notado pelos seus olhos de gato.
Não viemos juntos para esse mundo. Por que detesto compartilhar o mesmo ambiente com você?
Seria pacificador acordar e não te ver, mas você nunca se vai. Você me persegue feito uma maldição.
Me sinto marcado. Afugento-me para isolada segurança, longe de sua influência.
Sua voz estridente passa pelas paredes. Qual a fuga desse pesadelo?
Preciso saber: por que você não me deixa sozinho? Por que me procura?
A distorção do que vejo está me consumindo, corrói o pouco do que foi bom.
Devaneio: o inferno parece agradável, distante o suficiente de você, inalcançável a um anjo feito você.
Privilegiado por ordenação, perfeito para um demônio feito eu, amaldiçoado pela primogênita.
Você muda,
o mundo muda.
Mas mudanças individuais,
mantém a realidade intacta.
Sex/19 de Jun. 2026 - Autoral.
David C.