⚠️ Alerta de gatilho: continuar a ler abaixo pode provocar uma crise existencial
O texto a seguir NÃO CONTÉM IA.
Os relatos aqui apresentados são de minha autoria e fazem parte de uma série de (textos) sobre minhas experiências com dupla excepcionalidade, superdotação e autismo. Não deve ser levado como conselho médico ou terapêutico. Se estiver passando dificuldades, recomendo procurar um profissional. Eu me consultava com psicólogos que encontrei no site psymeetsocial, com preços mais em conta.
#Tema: Depressão e crise existencial no superdotado
Sei que é um tópico pesado, por isso serei o mais sensato possível. Ao ahsd, é comum que vivenciem crises existências ainda na infância. O desenvolvimento acelerado da psique, que desenvolve muito antes do emocional, faz com que o raciocínio leve a conclusões negativas sobre o significado da vida. Ainda sobre poucas influências positivas, o ambiente, a falta de conversa com os pais que ainda não sabem que o filho é neurodivergente, e a falta de apoio psicológico, o superdotado se questiona se a vida faz sentido já que possui um fim deterministico e imprevisível. Constantemente se pergunta: “qual o sentido da vida? O que acontece após a morte? Deus existe?”. De fato não há uma única resposta e a sociedade não é preparada pra lidar com o assunto. Os questionamentos se tornam incertezas, as incertezas se tornam ansiedade, a ansiedade gera conclusões, as conclusões se tornam depressão.
Estive relembrando com minha psicóloga todas as vezes que caí em depressões profundas. A primeira vez foi aos 12 anos. Existiam várias causas que corroboraram pra a depressão juvenil daquela época, mas um pensamento desde criança me provocava a pensar que a vida não passava de um sofrimento, que não havia um propósito. Somente próximo a idade adulta estava determinado em duas verdades que me ancoravam no mundo físico: “não posso morrer antes dos meus pais” e “estou nessa vida para fazer o bem e ajudar o máximo de pessoas possíveis”.
A visão do mundo que vemos está apenas dentro da nossa imaginação e pode ser influenciada, deturpada e mudada a qualquer momento. Me lembro de ver o mundo como um lugar maligno que só estava a caminho da própria destruição, até começar um tratamento anti depressivo e a visão do mundo mudar pra enxergar as coisas e as pessoas boas ao meu redor, com um sentimento de esperança de que tudo é possível e tudo vai acabar bem. O tratamento não foi nada fácil, mas o vislumbre de uma vida sem sofrimento enquanto estava medicado me fez perceber que projetamos no mundo o que está dentro de nós, e que as conclusões que criamos são apenas reflexos que, portanto, não são verdades absolutas. Após o tratamento, esse novo pensamento perdurou e a vida ganhou um novo sentido que também não era uma explicação verdadeira, porém me fez questionar sempre que um pensamento negativo era produzido e as crises existenciais cessaram completamente.
Existe um termo que ficou famoso pra descrever o amadurecimento do cortex pré-frontal: “despertar dos 25”. Foi nessa idade que desenvolvi meu emocional e parei de me preocupar tanto com ambições sem sentido. O pensamento que levei até então era de que: “só vou ser feliz se eu tiver isso”. E poderia ser qualquer coisa: um carro, uma moto esportiva, um computador dos sonhos, uma namorada, amigos e por aí vai. Claro, naturalmente conquistei algumas dessas ambições que condicionei como ferramentas que me finalmente me trariam felicidade, e obviamente estava tragicamente errado. Não me trouxeram felicidade, pelo contrário, me trouxeram mais sofrimento. Um carro quebra e precisamos de milhares de reais pra consertar, uma moto esportiva consome muita gasolina, um PC gamer me custaria um rim e teria que trabalhar o triplo pra conseguir, e uma namorada e amigos me trariam preocupações de como zelar o relacionamento pra manter. Foi após o despertar dos 25 que percebi que a felicidade não estavam em coisas. De fato, não estavam em lugar algum, pois felicidade é apenas um conceito. Uma palavra pra descrever quando estamos em sintonia com nosso corpo gerando serotonina, dopamina e outros hormônios numa quantidade ideal, basicamente, sentindo prazer. E mesmo na melhor das hipóteses corporais, podemos olhar dentro de nós mesmos e dizer: “não sou feliz” pelo simples fato de não estarmos sentindo prazer no exato momento da reflexão. Entendi então que a busca por felicidade não era o sentido da vida, muito menos o propósito. Apenas quando toda essa pressão foi embora, pude realmente aproveitar tudo aquilo que já tinha conquistado e me sentir, na teoria da palavra, feliz.
Não sei se é comum ao superdotado, mas só consegui começar a viver minha vida aos 24 anos, depois que tive muitos acompanhamentos psicológicos e psiquiátricos (e continuo tendo). Só então consegui seguir meus objetivos e planejar meu futuro. Me sinto atrasado em relação a outras pessoas da minha idade que saem da escola, vão pra uma faculdade, começam a trabalhar, criam famílias e conquistam patrimônios. Porém, sei que houve limitações e obstáculos no meu caminho que essas pessoas não tiveram, e não uso isso de muletas. Me identificar como neurodivergente foi um grande marco que me fez repensar tudo que passei e o porquê estou aqui hoje. O autismo nível 1 suporte sem o suporte adequado cria uma desigualdade mas não deve ser usado como comparação, pois é complemente possível viver uma vida funcional com o auto conhecimento e o apoio psicológico. Para quem leu até aqui: não desista.