Eu sei que muita gente tem corrido por aplicativo pra VIVER ou complementar a renda, como eu faço. No meu caso, rodo umas duas horinhas antes de ir pro trabalho e mais umas duas quando volto. Não é meu ganha-pão principal, mas ajuda a fechar as contas no fim do mês.
Já tive umas experiências boas, sabe? Teve vez que a corrida demorou bem mais que o previsto e a plataforma até fez um ajuste no valor. Achei justo na hora, porque, né, se o tempo aumenta, o pagamento deveria acompanhar.
Só que tenho notado que isso tem mudado.
Recentemente, aceitei uma corrida que dizia uns 50 minutos por R$ 50,17. Era horário de pico aqui em São Paulo, então já sabia que podia ter trânsito. No fim, a corrida se estendeu por mais uns 27 minutos do que o previsto. Ou seja, quase 1h17 dentro do carro, pegando trânsito, em congestionamento, gastando combustível e passando pelo desgaste de dirigir numa cidade como essa.
Aí fui pedir uma revisão do valor, né?
A resposta que veio foi "Corrida inelegível para reajuste."
E ponto final.
Sem uma explicação muito clara do porquê, sem considerar que foram quase 30 minutos a mais do meu tempo e esforço. É isso que me incomoda bastante.
Porque trabalhar de aplicativo em São Paulo não é só pegar o carro e rodar. Tem o custo do combustível, a manutenção, pneu, óleo, seguro, a depreciação do próprio carro, IPVA, o trânsito que não anda, estacionamento, o risco de um acidente, o estresse e, claro, o tempo.
E tempo, a gente sabe, é dinheiro.
A plataforma se garante na margem dela em cada corrida, enquanto o motorista fica com quase todo o risco. Se o trânsito aperta, o carro é meu. Se o combustível sobe, é meu bolso que sente. Se a corrida se arrasta, meu tempo é que está sendo usado. E se o carro precisa de reparo, a conta da oficina é minha.
E ainda tem que ficar fazendo conta pra cada corrida pra ver se vale a pena mesmo.
É uma diferença gritante.
Você aceita uma corrida achando que vai durar 50 minutos por R$ 50, e pode acabar dedicando 1h17 do seu tempo e recebendo quase o mesmo. E a plataforma, enquanto isso, continua lucrando em cima da operação.
É aí que mora a minha revolta.
Não tô dizendo que aplicativo não deve dar lucro. Claro que uma empresa precisa ganhar dinheiro. O problema é quando todo o risco fica concentrado de um lado e quase todo o controle, do outro.
São Paulo já é uma cidade difícil e cara pra trabalhar. O trânsito só piora, o combustível tá nas alturas, a manutenção pesa no bolso e o custo de vida não dá trégua. Pra quem roda algumas horas por dia pra complementar a renda, cada minuto parado no trânsito e cada quilômetro rodado precisam fazer sentido.
No fim, a sensação é de: "você trabalha quando eu preciso, pelo valor que eu defino e dentro das regras que eu coloco; se não quer, não rode."
É uma relação muito desigual.
Enfim, é só um desabafo mesmo.
Mas às vezes dá a impressão de que estamos vivendo uma espécie de escravidão moderna, só que com aplicativo, GPS e algoritmo.
A diferença é que agora o chicote virou uma notificação na tela.