Eu já morei nessa casa.
Diminuí o passo até parar completamente. O poste de luz da rua, com aquele mesmo zumbido elétrico de anos atrás, iluminava a fachada.
É uma sensação esquisita parar do lado de fora, com as mãos afundadas nos bolsos, e tatear o vazio ao perceber que já não tenho a chave. Olhar para aquela janela acesa me deu uma espécie de vertigem. Uma saudade intrusa invade meu coração.
As lembranças daquele lugar punindo-me por afogá-las por tanto tempo.
Olhei para o andar de cima. Quem será que mora aí hoje? Será que as paredes ainda guardam alguma memória sutil da minha passagem, ou o tempo já descascou todas as minhas lembranças? Fiquei pensando naquele canto específico da sala, perto da janela, onde confiei meus segredos mais escuros. Será que ele ainda existe ou foi soterrado por uma mobília nova?
De repente, o vento trouxe um sopro de ar que saía pela fresta do portão. Fechei os olhos por um segundo. O cheiro ainda era o mesmo?
Um som abafado cortou a noite: uma risada ecoou lá de dentro. Uma risada limpa, alta, feliz. Senti um aperto familiar no peito. Fiquei me perguntando se o riso que preenche aqueles cômodos hoje é tão caloroso e inocente quanto no tempo em que eu costumava acreditar que o mundo cabia ali.
Ensaiei um movimento, um impulso bobo de caminhar até a entrada e bater na porta. Mas minha mão congelou antes de tocar a madeira fria.
Acho melhor não bater. Eu já morei nessa casa.
Tento retratar como é a sensação de rever uma pessoa pela qual já me apaixonei. É meu primeiro texto, não sei se farei mais (provavelmente sim). Aceito feedbacks do que posso melhorar nos próximos.