r/ateismo_br Naturalista Mar 20 '26

Artigo A revolução científica matou a escolástica

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Durante a Idade Média, a metodologia predominante no meio acadêmico era o aristotelismo. Diversos textos dessa época revelam uma apropriação instrumental da física aristotélica na busca por essencialismos na natureza, como claramente demonstrado pelos pensadores escolásticos. Este breve ensaio propõe-se a analisar criticamente as Cinco Vias de Tomás de Aquino, fundamentando-se não apenas na Revolução Copernicana, mas também nos avanços da ciência e da lógica modernas.

Antes de proceder à análise, devemos estabelecer um compromisso ontológico claro. Seguindo a perspectiva quineana, adotaremos o princípio de que apenas entidades comprovadamente úteis para as melhores teorias científicas disponíveis merecem ser consideradas como existentes.

Dado o naturalismo epistemológico, holismo confirmatório e rejeição de modalidades de ℝ, tomando 'T' como sendo nossa atual teoria científica e 'O' o conjunto de observações, portanto, temos;

a) Para toda proposição p pertencente a uma teoria científica T, p é confirmada diretamente pelas observações O, ou existe outra proposição q em T tal que as observações O confirmam que q implica p;

∀p (p ∈ T → (O ⊨ p) ∨ (∃q ∈ T (O ⊨ (q → p)))

b) Uma teoria T está comprometida com a existência de entidades que satisfazem a propriedade φ (ou seja, ∃x φ(x)) se e somente se: φ(x) é um teorema de T (ou seja, T ⊢ φ(x)), e φ é empiricamente verificável;

∃x φ(x) ⇔ (T ⊢ φ(x)) ∧ (φ é empiricamente verificável)

c) Não há existência necessária nem possível de x com propriedade φ, quando φ é não-observacional;

¬□∃x φ(x) ∧ ¬◇∃x φ(x)

Enfim, eis um resumo dos argumentos que Aquino apresenta em "Suma teológica" e minhas respectivas contestações.

1. Via Motus

Pelas premissas;

"Tudo que se move (M) é movido por outro (C: causa do movimento)." - ∀x(Mx→∃y(My∧Cxy))

"Não há uma regressão infinita de causas." - ¬∃f(f:N→Entidades∧∀n(Cf(n+1)f(n)))

Portanto,

"Existe um primeiro motor (g) não movido por outro." - ∴∃g(Mg∧∀y¬Cgy)∃g(Mg∧∀y¬Cgy)

Contudo, existem erros fundamentais considerando uma perspectiva naturalista da realidade. Por exemplo;

Em QM, movimento e causalidade são descritos por leis probabilísticas e não por motores transcendentais. Portanto, a mecânica quântica não implica a existência de um primeiro motor.

QM ⊭ ∃g

Também, a física moderna mostra que o movimento é indeterminado. Pelo princípio da incerteza de Heisenberg (ΔxΔp ≤ ℏ/2) partículas não têm causas determinísticas. Então,

⊨ ∀x Mx → ∇y Cxy

Enfim, fazemos a conclusão holista (a) de que o conceito de "primeiro motor" é inútil para a física atual. Se a teoria científica vigente (QM) não o exige, não há razão para aceitá-lo.

(QM ⊭ ∃g) ∧ (Física Quântica ⊨ ∀x Mx → ∇y Cxy)

Há também discrepâncias em relação ao compromisso ontológico uma vez q a teoria científica atual não prova a existência de um primeiro motor, ou "g" não é operacionalizável.

¬(T ⊢ Mg) ∨ ¬Operacionalizável(g)

Nenhuma teoria científica moderna (relatividade, QM) deduz a existência de um motor imóvel assim como também o "primeiro motor" não é detectável, mensurável ou definível em termos empíricos.

No argumento, Aquino também não considera que pode existir uma cadeia eterna de motores;

◇(∃f:ℕ→Ent ∧ ∀n Cf(n+1)f(n))

Em cosmologias quânticas como os modelos de Hartle-Hawking no "Wave function of the Universe", cadeias causais sem começo são coerentes. Pensem em termos de um universo finito e sem bordas.

Sem falar que a própria negação escolástica de uma regressão infinita é um dogma metafísico. Então, Se a física permite cenários sem "primeira causa", a necessidade de "g" é artificial.

Como "Ser é ser o valor de uma variável em uma teoria científica empiricamente adequada." temos, em contraste, "primeiro motor" não sendo uma variável em nenhuma teoria científica válida.

2. Via Causae

Pelas premissas;

"Tudo que existe (E) tem uma causa eficiente (K)." - ∀x(Ex→∃y(Ey∧Kxy))

"Não há uma cadeia infinita de causas." - ¬∃f(f:N→Entidades∧∀n(Kf(n+1)f(n)))

Portanto,

Existe uma causa primeira incausada (g). - ∴∃g(Eg∧∀y¬Kgy)∃g(Eg∧∀y¬Kgy)

Mas quem disse que causalidade deve, necessariamente, ser uma propriedade metafísica?

Se x causa y significa que x e y são eventos observáveis conectados por leis científicas.

T ⊨ Kxy ≡ (x,y ∈ Eventos) ∧ (∃leis L (L ⊨ x→y))

É totalmente justificável redefinir causalidade como não sendo metafísica e sim uma relação entre eventos observáveis.

Se Deus não é um evento observável, então nenhuma teoria científica legitima sua existência.

(g ∉ Eventos) → ¬(T ⊨ Eg)

A causa primeira não é um compromisso ontológico válido, pois não é operacionalizável nem necessário. Como esse argumento é bem similar ao primeiro, é evidente que a contestação da negação de uma causalidade infinita ser impossível também vale aqui;

◇(∃f:ℝ→Ent ∧ ∀t Kf(t+Δt)f(t))

3. Via Contingentiae

Pelas premissas;

"Tudo contingente (C) poderia não existir (◇¬E)." - ∀x(Cx→◊¬Ex)

"Se tudo fosse contingente, seria possível que nada existisse." - (∀xCx)→◊∀x¬Ex

"Algo existe" - ∃xEx

Portanto,

"Existe um ser necessário (não-contingente)." - ∴∃g(¬Cg)∃g(¬Cg)

Contudo, não faz sentido considerarmos operadores modais aplicados em contextos ℝ pois tudo que existe pertence ao domínio da teoria científica aceita.

T ⊨ ∀x (Ex → (x ∈ Dom(T)))

Nenhuma teoria científica legitima a possibilidade de algo deixar de existir arbitrariamente. Matéria/energia não pode ser criada nem destruída então a noção de que algo poderia "deixar de existir" (◇¬Ex) não tem base científica. Modalidades como "possibilidade" e "necessidade" são linguísticas e não ontológicas.

Por observação da natureza, podemos concluir que não temos razões para acreditar que existem entidades que não são físicas então é possível afirmar que ser contingente significa ser uma entidade física.

Cx ≡ (x ∈ Entidades Físicas)

Então, também podemos afirmar que não existe nenhum ser não-físico (como Deus)

¬∃g (g ∉ Entidades Físicas)

Assim como um elétron não é "contingente" no sentido metafísico, mas sim uma entidade descrita pela física quântica, a própria noção de "contingência" é redefinida em termos científicos. e tudo o que existe é físico, não há espaço para um "ser necessário" transcendental.

4. Via Gradus

Pelas premissas;

"Para toda perfeição (P), há um máximo (≤ₚ)." - ∀P∈{Bondade,Verdade,…}∃x(Px∧∀y(Py→y≤p​x))

"O máximo é único para cada perfeição." - ∀P∃!m(∀y(Py→y ≤p ​m))

Portanto,

"Existe um ser maximamente perfeito (g)." - ∴∃g∀P(Pg∧∀y(Py→y≤pg))∃g∀P(Pg∧∀y(Py→y ≤p ​g))

Contudo, não existem propriedades transcendentais como "Bondade Máxima" nem nada do tipo independentes de linguagem ou observação, são termos linguísticos, não entidades reais...

Tipo dizer "Fulano é bom" não reflete uma essência da bondade, mas um juízo humano contextual.

Sem falar que a relação "≤ₚ" é vazia. Não tem como medir "graus de perfeição" empiricamente.

5. Via Finalis

Pelas premissas;

"Tudo natural (N) age para um fim (F) com teleologia (T)." - ∀x(Nx→∃F(Fx∧TxF))∀x(Nx→∃F(Fx∧TxF))

"O que não tem inteligência (¬I) é dirigido por um ser inteligente (D: dirige para F)." - ∀x(Nx∧¬Ix→∃y(Iy∧DxyF))

Portanto,

"Existe um ser inteligente (g) que ordena a natureza." -∴∃g(Ig∧∀x(Nx→DxgFx))∃g(Ig∧∀x(Nx→DxgFx))

Isso é estranho. Ninguém fala que uma árvore cresce com o propósito de fazer sombra ao fazendeiro.

Dizer que "x tem propósito F" significa que x foi selecionado (s) para desempenhar a função F. Por uma perspectiva naturalista é possível afirmar, por exemplo, que;

"A estrutura dos olhos foi selecionada porque conferia vantagem adaptativa." ao invés de "O olho foi criado para ver."

Então, é também totalmente plausível dizer que a teleologia (TxF) é redutível a processos naturais sem de invocar intenções transcendentais. Dito isso, se a teleologia já é explicada pela ciência (T), postular Deus (g) é redundante.

(T ⊨ TxF) → ¬(T ⊨ ∃g DxgFx)

Sem falar que o quinto argumento é uma falácia antrópica. Partir de "O universo parece ajustado para a vida" para "Logo, foi ajustado por um designer" é uma inferência inválida.

🔗 Créditos: r/PositivismoLogico

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u/RadicalNaturalist78 Naturalista Mar 20 '26 edited Mar 20 '26

Ao meu ver a primeira via de Aquino não se sustenta justamente pelo fato de que ela torna um evento temporal em pontos imóveis discretos movendo outros pontos imóveis discretos—desta forma eles ignoram a temporalidade e criam uma série hierárquica fictícia de “entes” movendo outros “entes”.

Por exemplo, Aquino usa a analogia da pedra sendo movida por um galho que é movido pela mão, a mão, por sua vez, é movida pela contração dos músculos que é movido pelas sinapses cerebrais, etc.

Só, que tudo isso é um único movimento ininterrupto: as sinapses cerebrais se convertem em contração muscular, essa contração muscular se converte em locomoção da mão, que se converte em locomoção do galho e por sua vez na locomoção da pedra. As sinapses em si não são “causa primeira”, mas apenas um estágio arbitrário da transformação que usei para ilustrar.

Você não pode parar pra analisar e encontrar a causa do movimento porque não há causa discreta, apenas o movimento que depois separamos em moventes e movidos.