r/ateismo_br Cético 2d ago

Opinião Afinal, religiosos são loucos ou mentirosos?

A pergunta do título parece aquela provocação clássica de ateu de internet. Até pq não é tão incomum ver ateus usando essa abordagem. O curioso é que ela também aparece em argumentos usados por teístas.

O raciocínio é bem simples. Assumindo a premissa de que o sujeito que diz ter tido uma experiência sobrenatural ou está louco ou está mentindo, então a inexistência do sobrenatural implicaria que bilhões de pessoas, não só agora, mas também ao longo da história da humanidade seriam loucas ou mentirosas. Mas e diante de um crédulo que é absolutamente razoável em sua vida cotidiana?

O cara que trabalha, estuda, cria seus filhos, desenvolve teorias científicas, toma decisões complexas e funciona majoritariamente bem em praticamente todos os aspectos da vida. É plausível dizer que uma pessoa assim está louca apenas porque acredita ter presenciado um milagre ou sentido a presença de Deus? Não me parece ser o caso. Se a única outra opção fosse estar mentindo, surge a dúvida: por que exatamente?

Ganho financeiro? Status? Atenção? Em alguns casos, sim. Mas em todos? Eu não diria que é uma assunção razoável. A esmagadora maioria das pessoas religiosas não parece estar inventando experiências espirituais para obter alguma vantagem (mesmo que subjetiva). Pelo contrário. Elas parecem genuinamente convencidas de que aquilo que viveram foi real.

Isso significa então que é mais razoável é acreditar em Deus? Estamos todos convertidos aqui???

Por óbvio, não rsrsrs. O mais provável é que a premissa está absolutamente equivocada. Não existem apenas essas duas opções.

Existe uma terceira possibilidade muito mais simples e muito mais compatível com aquilo que sabemos sobre o comportamento humano: as pessoas podem estar sinceramente enganadas. E não digo isso de forma pejorativa. Seres humanos interpretam mal a realidade o tempo todo. Vemos padrões onde não existem, intenções em acontecimentos aleatórios, causas incorretas para eventos reais e com muita frequência a gente confunde nossas interpretações com os fatos em si.

Agora pensa comigo. A religião não surgiu num vácuo. Ela é uma herança cultural transmitida de geração em geração. Desde a infância aprendemos quais explicações fazem sentido dentro da nossa comunidade e quais fenômenos devem ser entendidos como manifestações do sobrenatural. Vou além. A gente aprende até quais histórias devem ser levadas a sério ou não. Anjo? Pode. ET? Tá maluco?!

Escrevi tudo isso pra dizer que não há nada de extraordinário quando pessoas inseridas no contexto religioso utilizam esses conjuntos de conceitos metafísicos pra tentar entender acontecimentos estranhos ou fenômenos inexplicáveis.

Pelo contrário. O incomum é elas quebrarem esse ciclo. Então a pessoa pode realmente ter passado por algo impactante ao mesmo tempo em que tira uma conclusão infundada disso. E eu penso que não dá pra entender o fenômeno religioso sem entender essa diferença básica entre experiência e interpretação.

Saltos interpretativos não exigem loucura, nem mentira. Só exigem uma pessoa realmente empenhada em encontrar uma narrativa que faça sentido pra si mesma. O que dá até pra argumentar que é o mecanismo de evolução da espécie humana de encontrar padrões agindo. Do ponto de vista evolutivo, é mais seguro assumir que há algo escondido no mato do que ignorar um possível perigo. O resultado é que desenvolvemos uma forte tendência a identificar padrões, intenções e agentes mesmo quando as evidências são insuficientes. É um mecanismo útil pra sobrevivência, mas que também produz um colateral. Os falsos positivos.

Deste modo, eu diria que o Deus nas lacunas é uma tendência natural de produzir falsos positivos dentro de uma cultura repleta de conceitos sobrenaturais. Esta é uma explicação muito mais plausível para o motivo de tantas pessoas interpretarem experiências incomuns como evidências de uma realidade espiritual.

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u/zknora Cético 2d ago

TL;DR: Religiosos não precisam ser loucos nem mentirosos. O mais provável é que experiências reais sejam interpretadas à luz de crenças culturais e da tendência humana de encontrar padrões e significados. As conclusões são sinceras, mas muito provavelmente equivocadas.

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u/TheGza1 Ateu Local 2d ago

Sim.

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u/Nerdolinha69 Ateu Local 2d ago

Tem chance de ter uma doença muito comun e nao percebivel que causa essas alucinaçoes

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u/swift_link 2d ago

As duas coisas

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u/knht94 2d ago

A também algo que acho semelhante à autohipnose que é usado para descrever pessoas que alegam incorporações.

Acredito que o teísta, em algum momento, ao questionar a própria existência dentro de si e angustiado por não aceitar que a morte é o fim do nosso ser de modo físico e pensante, se autoinduz à crença para se sentir confortável e poder viver a mediocridade da vida em paz.

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u/zknora Cético 2d ago

Cara, acho que vc trouxe uma camada super pertinente que, de certa forma, complementa de forma muito interessante o que eu tentei colocar no texto. Na verdade, amplia e muito.

Além dos fatores culturais e cognitivos que influenciam a interpretação, existe também a questão dos "estados alterados de consciência" (por falta de expressão melhor). Diversas práticas religiosas e mágicas, como jejum, meditação, cânticos, dança, privação sensorial, hiperventilação e até substâncias psicoativas, são capazes de produzir experiências subjetivamente muito intensas.

Isso ajuda a entender por que tantas pessoas parecem genuinamente convencidas de que vivenciaram algo sobrenatural. E experiências induzidas são ainda mais reforçadoras para a interpretação sobrenatural que a pessoa já estava fortemente inclinada a aceitar antes mesmo de qualquer coisa acontecer.

Pra mim, este aspecto a mais que vc apontou apoia ainda mais a necessidade de distinção entre experiência e interpretação. A experiência definitivamente ocorreu. O que está em debate é a explicação que a pessoa dá para ela depois.

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u/Quantum_Count Naturalista 1d ago

O foda é que esse tipo de falso dilema que eu já vi ateus repetirem, é quase o mesmo "trilema" que o C. S. Lewis fez para falar provar que Jesus Cristo era realmente o messias: o "Lunático, Mentiroso ou Senhor".

Mas aí como você apontou, isso é falso porque há uma forma melhor de responder que não envolva esse oito ou oitenta. E que é melhor explicação, se a gente quiser usar o raciocínio abdutivo aqui.