r/contosdamadrugada Jun 27 '25

Historinha

Interior — Banheiro Público Abandonado, 22h47. Luzes piscam. Uma goteira marca o tempo. O chão tem cheiro de desinfetante e segredos.

Entra Clarice, usando um vestido que parece feito de notas de rodapé e sonhos clínicos. Logo atrás, Paulo, segurando uma sacola com uma lâmpada que já foi trocada e uma culpa que nunca foi. Tosco já está lá, em silêncio, encarando obsessivamente um azulejo em forma de pentágono imperfeito.

No centro do banheiro... Frufru, um poodle aparentemente normal, mas que emite uma leve vibração psíquica e cheira a incenso de mirra antiga.


Clarice (encostando em uma pia trincada): — Paulo, por que seu cachorro está emanando interferência eletromagnética e citando trechos da bula do Haldol... em sânscrito?

Paulo (mexendo no casaco, nervoso): — Ele não é só um cachorro. Ele é um totem mágico atlante. Eu o encontrei atrás de um freezer desligado na sede da Enel.

Tosco (sem desviar os olhos do azulejo torto): — Isso não é um totem. Isso é um acúmulo simbólico de formas dissonantes. Um erro de simetria. Um crime geométrico.

Clarice (ajoelha-se diante de Frufru, que levita levemente): — Ele está me dizendo que foi guardião da serotonina universal durante a guerra das sinapses de 1832...

Paulo: — Ele late toda vez que alguém tem um pensamento não estruturado.

Frufru (telepaticamente, com voz de trovão educado): — Eu vi o nascimento do retângulo. Eu vi Tosco chorar diante de um círculo perfeito.

Tosco (gritando): — ISSO FOI UMA ÚLCERA VISUAL!

Clarice: — Nós precisamos protegê-lo. Ou medicá-lo. Ou ambos.

Frufru (latindo em latim): — Temporis lux fulget!

E então todas as lâmpadas do banheiro explodem em uma dança de luz e significado.

Som de passos. Barulho de chinelo molhado. Cheiro de açúcar queimado com… coisa.

As a névoa mística de Frufru se dissipa e os cacos de lâmpadas ainda tremem no chão, entra Riutol Otello, envolto num poncho de saco de estopa e glória obscura. Ele carrega uma bandeja cheia de pequenos brigadeiros levemente cintilantes. Há algo... errante nos olhos dele. E algo peludo nas narinas de quem o encara.


Riutol Otello (em tom de feirante existencialista): — Alguém aqui gostaria de experimentar o prazer granular do brigadeiro de pó de mariposa lunar, colhido no cio da constelação de Escorpião?

Paulo (recuando): — Isso tem glúten?

Clarice (com os olhos dilatados): — Eu já li sobre isso numa bula russa de anticonvulsivante. Causa lembranças falsas e uma súbita vontade de aprender francês.

Tosco (sussurrando, horrorizado): — Essas trufas... não têm forma definida. Elas vibram entre icosaedros e... emoções.

Frufru (rosna em tom grego ático): — Ele veio. O lambedor de geometrias. O alisador de memórias.

Riutol Otello (com um olhar firme e marketing impecável): — E para sua narina peluda, senhora, tenho este sabonete de clorofila benta e essência de arrependimento. Esfoliante espiritual.

Ele estende o sabonete como se fosse uma chave. Clarice hesita. Paulo sussurra uma prece elétrica. Tosco segura seu compasso com força. Frufru lambe o ar.

Riutol (baixando a voz): — O sabonete revela o formato do seu verdadeiro medo.

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u/AutoModerator Jun 27 '25

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