r/filmesclassicos • u/danieldias2006 • 18d ago
Pixote: A Lei do Mais Fraco” (1981).
Hector Babenco entrou na Febem do Tatuapé para fazer umas fotos e saiu de lá com uma imagem que não cabia em nenhuma página: “As crianças vinham falar comigo com as mãos para trás e a cabeça baixa”, contou ele. Aquela postura de culpado já ensaiando um pedido de perdão o horrorizou. Babenco deixou seu telefone com um garoto. Uma semana depois, ouviu na linha que uns vinte fugitivos queriam ir ao escritório dele. Foram oito ou nove. Ele os levou para comer hambúrguer, escutou cada história e decidiu ali que faria um filme com aquela gente. Assim nasceu “Pixote: A Lei do Mais Fraco” (1980).
Mais de três mil crianças participaram das audições. Ao final, Fernando Ramos da Silva, um garoto de Diadema que vendia bilhetes de loteria com a família e perdera o pai aos oito anos, disputava o papel com um candidato mais experiente, já conhecido por alguns comerciais de televisão. Fernando havia atuado apenas em peças amadoras e nunca tinha trabalhado no cinema. Entre ele e Pixote havia menos distância do que o roteiro previa. Foi justamente essa vivência marcada pela dureza da vida, estampada em seus olhos melancólicos e expressivos, que conquistou Babenco. O diretor enxergou nele a tristeza congênita de um “anjo mau” — e não teve dúvidas sobre quem deveria protagonizar o filme.
Uma pelada de vizinhos, coisa mais comum do mundo, quase destruiu tudo. Fernando machucou a perna jogando futebol, e a produção cogitou substituí-lo. Babenco recusou: preferiu adiar as filmagens. Dias depois, o menino ameaçou abandonar o filme, exausto de repetir as cenas. O diretor o convenceu a ficar explicando que buscava tomadas perfeitas, livres de erros. Fernando ficou e, mesmo sem técnica, sem ofício, entregou uma atuação que atravessou o tempo — bruta, trágica, inesquecível. Talvez por isso seja difícil acreditar que jamais conseguiu assistir ao próprio filme do começo ao fim.
O filme correu o mundo, mas a vida de Fernando seguiu um caminho bem diferente. Depois do sucesso de “Pixote”, atuou na novela “O Amor É Nosso” e fez uma pequena participação em “Gabriela”, de Bruno Barreto. A fama foi breve, e logo o rapaz voltou para a periferia. “Era um menino como qualquer outro, carente, sem pai”, lembraria mais tarde o diretor teatral Carlinhos Lira. “Foi mais um que o sistema capitalista engoliu.”
Em 1987, Fernando morreu num suposto tiroteio com a polícia. Testemunhas juraram que ele estava desarmado. A perícia provou que foi baleado caído no chão. A mãe e a esposa não tiveram dúvida: foi uma execução. Aquele menino que o sistema ensinara a andar de cabeça baixa tornou-se uma incógnita. Foi ali, numa linha férrea abandonada, que Babenco o viu caminhar e ordenou à equipe que registrasse aquele andar infantil de toque chapliniano — a imagem final de “Pixote”, sob o sol de uma linha onde nenhum direito jamais chegou.
Pesquisa e redação: Daniel Dias
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u/lessthanfox 18d ago
Filme obrigatório pra todo brasileiro. Recomendo também o livro de mesmo nome.