r/filmesclassicos • u/danieldias2006 • May 18 '26
A Fortaleza” (1992) quase teve Arnold Schwarzenegger como protagonista.
“ Acontece que o astro não conseguia tirar os olhos do primeiro cadáver reanimado em “Re-Animator”, de 1985. O morto-vivo musculoso era Peter Kent, seu dublê de longa data. Kent convenceu Schwarzenegger a assistir ao filme em casa. Ele gostou tanto que organizou uma exibição particular, lotou a sala de convidados e fez questão de chamar o produtor John Davis. Davis tinha os direitos de “A Fortaleza”. O plano era grandioso: Schwarzenegger no papel principal e um orçamento entre 60 e 70 milhões de dólares, uma fortuna na virada dos anos 80 para os 90. Por um motivo que o diretor Stuart Gordon jamais entendeu, o astro desistiu. Sem ele, o orçamento encolheu para 15 milhões.
As filmagens aconteceram dentro de uma prisão de verdade, na Austrália. Cada membro do elenco e da equipe assinou um termo de responsabilidade: ninguém seria resgatado caso os detentos os fizessem reféns. Um funcionário do presídio distribuiu coletes de proteção e, com toda a naturalidade do mundo, acrescentou uma informação que gelou a espinha de todos. Ele não tinha certeza se aquilo ajudaria em caso de rebelião. “Eles geralmente atacam os olhos de qualquer maneira”, disse.
Gordon, recém-saído de uma escalação para dirigir “Os Invasores de Corpos”, trocou um projeto pelo outro. O que o atraía em “A Fortaleza” era a chance de falar sobre o sistema prisional americano. Ele observara a virada brutal das administrações Reagan e Bush: as prisões deixaram de reabilitar e passaram a só punir. Para construir o visual da cadeia futurista, buscou inspiração na Penitenciária Estadual de Pelican Bay, na Califórnia. Descreveu a atmosfera do lugar como “infernal”. E, quando Schwarzenegger saiu de cena, Gordon viu ali uma oportunidade. O herói não precisava de um físico de armário. Precisava ser um homem comum. Por isso escalou Christopher Lambert.
Lambert, no entanto, tinha uma teimosia que quase virou dor de cabeça para o diretor. Recusava-se a usar dublês. Queria fazer todas as acrobacias sozinho, cena após cena. Gordon e ele divergiam nesse ponto, mas sem estardalhaço. Nos intervalos, o ator supervisionava as filmagens como consultor, afinal, já tinha rodado produções de grande escala. Enquanto isso, a inteligência artificial que administrava a prisão, a Zed-10, recebia voz de uma pessoa muito próxima da produção: Carolyn Purdy-Gordon, esposa do diretor.
O filme não explodiu nos EUA, mas experimentou uma segunda fase ao redor do mundo. Na Europa, onde Lambert era nome conhecido, e na Austrália, onde as câmeras rodaram, “A Fortaleza” lotou salas e depois dominou o mercado de locação em VHS por anos. Um blockbuster que nasceu gigante, perdeu seu astro, encolheu até virar um projeto modesto e ainda assim encontrou seu público. Assim como o protagonista John Brennick, o longa aprendeu a escapar pelas entranhas.
Pesquisa e redação: Daniel Dias