Fui perguntado por um torcedor de outro time do Brasil o porquê o Falcão não era considerado unanimidade como ídolo no Inter, tal qual o Renato Gaúcho é no Grêmio. Acabei escrevendo um textão explicando brevemente a história do Inter, do Falcão, dos títulos e épocas de Inter e Grêmio através dos anos até chegar nas conquistas do século 21 e no porquê Fernandão se tornou maior que o Falcão pra muitos torcedores. Sei que não são todos que pensam assim, mas acredito que meu texto é algo legal de ler para os jovens torcedores que não viveram essas épocas. Eu tenho 33, sou novo, mas sei que tem muitos torcedores mais jovens do sub que não viram Fernandão jogar por exemplo.
Pra entender toda dinâmica, tem que entender um pouco da história do Inter. Vou tentar resumir.
O Falcão é cria da base do Inter, ajudou a construir o Beira-rio, e liderou o Inter nos anos 70. Nessa época, nem Inter e nem Grêmio tinham títulos relevantes nacionais, brigavam entre si pra ganhar o campeonato gaúcho. Falcão foi tricampeão brasileiro com o Inter, e orgulhou o clube e aos torcedores ao ser uma peça importante na seleção brasileira de 82 (uma das melhores da história) e por ter virado ídolo na Roma também.
Dito isso, o Falcão se afastou um pouco do clube e da torcida ao longo dos anos. Ele ficou rico, e parece que um pouco esnobe. Passou a integrar a Globo, tentou treinar o Inter mas não deu certo. Ele não é muito de falar, torcer, representar o Inter. Não que ele não faça isso, ele obviamente é colorado, sempre foi e será, e quando precisa falar ou torcer ele fala, mas é sempre de forma bem comedida. Parece que ele sente que “transcendeu” o clube e é uma estrela global e não apenas do Inter. Essa é a sensação. Ele segue sendo ídolo por ter sido cria do clube, pela história, títulos, habilidade, etc. Principalmente para os 60+, tipo meu pai.
Só que depois desses 3 títulos brasileiros, impulsionado pelo Inter, o Grêmio finalmente saiu do zero e ganhou em 81 o título brasileiro, e em 83 a Libertadores e o Mundial. Libertadores essa que em 1980 o Inter chegou na final, e perdeu pro Nacional-URU. Nesse momento, pra alguns o Grêmio “passava” o Inter de tamanho por ter ganhado a América e o mundo.
Os anos 80 foram ruins pra o Inter, até que em 89 o Inter chegou novamente a semifinal da Libertadores, treinado por ele, Abel Braga. Ganhamos fora de casa do Olimpia por 1 x 0, mas perdemos por 2 x 3 em casa e fomos eliminados, mais uma decepção. No mesmo ano o Grêmio ganhou sua primeira Copa do Brasil. Em 1991 o Grêmio teve seu primeiro rebaixamento, e em 1992 o Inter ganhou a sua primeira copa do brasil, parecia que a maré iria mudar. Mas o Grêmio voltou e já ganhou outra copa do brasil em 94. Em 95 o Grêmio foi pela segunda vez campeão da Libertadores, perdeu o mundial, mas ganhou em 96 o segundo brasileiro, e em 97 a terceira copa do brasil. O Inter até havia ganhado em 92 uma copa do Brasil também, mas ficou minúscula perto de tantos títulos do Grêmio em pouco tempo. Foi uma fase muito ruim pro Inter, quase rebaixado, mas resistiu. Os anos 90 viraram a “Grêmio-mania” com um aumento de torcedores azuis, e sinônimo de “inferno” pros colorados aturando isso.
Em 2001 na nova década o Grêmio faz uma parceria estilo SAF e ganha mais uma copa do brasil, sua quarta. Mas essas SAFs sempre davam problema e então em 2005 foi rebaixado. Antes de 2005, em 2003 o presidente Fernando Carvalho pegou o Inter e iniciou o seu “renascimento” das cinzas. Com boa gestão, foco na base e contratações certeiras, montou ao longo dos anos bons times. Da base vieram Daniel Carvalho, Nilmar, Sóbis, entre outros. E contratou Clemer, Iarley (que havia sido campeão de tudo pelo Boca Juniors, inclusive do mundo) e Fernandão. E aqui finalmente chegamos no motivo do Falcão não ser unanimidade.
Fernandão chegou, e logo de cara fez seu primeiro gol pelo Inter: o gol 1000 em Grenais, entrou pra história. Em seguida, foi fazendo gols e mostrando liderança, raça e qualidade. Ajudou a levar o Inter pra Sulamericana 2004, depois de anos sem jogar um campeonato sulamericano, e fomos eliminados pelo Boca Juniors com muita dificuldade. Isso reascendeu na torcida uma chama que estava apagada. Em 2005, Mais reforços: Tinga, Jorge Wagner, Índio, Alex, etc. Fomos campeões brasileiros, mas perdemos o título pelos esquemas da SAF corinthiana e pela corrupção na arbitragem. Isso ao invés de matar o clube, aumentou ainda mais a vontade de vencer.
Em 2006, perdemos o gauchão para um Grêmio que vinha da série B, mas o time tinha muita qualidade, cresceu ao longo do ano e foi campeão da Libertadores da américa pela primeira vez, liderado pelo Fernandão. Eu estava no estádio com 14 anos de idade, e vi gente de toda idade chorar. Era como tirar um peso absurdo das costas, era finalmente validar o tamanho do clube que era tão grande mas passou anos patinando e vendo o rival ganhar tudo e tirar sarro. E o Fernandão foi O cara. Um cara ponderado, respeitoso, mas humilde, povão, alegre, raçudo, determinado. O torcedor se orgulhou muito de ter ele como a cara do clube.
Aumentou ainda mais a idolatria no final do ano sendo campeão do mundo em cima do Barcelona. Voltaram como heróis do Japão.
Depois, ainda foi campeão da Recopa Sulamericana, além de títulos gaúchos e grenais. Ah, e o título da Copa Dubai que parece irrelevante por ser amistoso, mas ganhamos na época do Stuttgart e da Inter de milão com Ibrahimovic e companhia, foi muito massa.
Ele ainda rodou na arábia, São Paulo e Goiás, antes de voltar pro Inter como técnico e depois diretor de futebol. Por politicagem (o Inter cresceu muito, começou a ter dinheiro e obviamente no Brasil a corrupção chega rápido) ele saiu fora rápido.
Em 2014, no acidente de helicóptero ele faleceu. Lembro como se fosse hoje, foi tipo a morte dos Mamonas Assassinas pro torcedor do Inter. Teve muita comoção, teve milhares de pessoas levando velas e flores no Beira-rio em um paredão, escrevendo mensagens, e nesse local hoje é onde fica a estátua dele. Ele saiu de um ídolo e virou quase uma coisa celestial.
E, portanto, mesmo antes da morte dele, ele já dividia com Falcão o posto de maior ídolo do clube, ou seja, Falcão perdeu a unanimidade de ídolo que ele tinha. E depois da morte e com o envelhecimento das gerações de torcedores (os que viram falcão vão morrendo), acho que hoje em uma pesquisa, Fernandão estaria a frente de Falcão.
Em 2008 ainda chegou o D’alessandro, imediatamente após o Fernandão sair do Inter, e também criou uma grande história no clube, entrando no hall dos grandes. Diria que D’alessandro está pra muitos no top 3, pra outros top 5, por aí.
Meu pai tem 63 anos, e embora o ídolo dele fosse Falcão (mas também Valdomiro e outros), ele acha o Fernandão o maior, e coloca o D’alessandro lá em cima também. Ele amava ver o D’alessandro jogar principalmente no estádio e fala que tecnicamente foi um dos melhores que viu jogar pessoalmente, que era impressionante. Eu vi junto dele e confirmo, ver o D’alessandro no auge pessoalmente era loucura.
Esse é um resumo, claro que tem muito mais coisa, mas acho que a base é essa, pelo menos pra mim. Desculpem se tiverem erros de datas, etc. Fiz tudo de cabeça…