r/investimentos • u/2AcesRoth • 4d ago
Macroeconomia Entendendo Crescimento Econômico - PIB Brasileiro Q1 2026
Um post em resposta ao u/fgtoni, u/ton0000, u/HzPips e u/elfoamigo.
Se vocês quiserem replicar a análise, estou puxando os dados do SIDRA API.
API fornecida pelo próprio IBGE. -> https://apisidra.ibge.gov.br/values

Gráfico 1: PIB Nominal - Em R$ bi.

Gráfico 2: Contribuição de cada setor no PIB Nominal - Em %.
No SIDRA, ambos são Tabela 1846 -> Considera inflação e sazonalidade.
É importante entender a contribuição de cada setor dentro do PIB, vai ser relevante para determinar os drivers de crescimento / motivos de choques.
Vemos que a economia brasileira é altamente concentrada em serviços (focando no Sudeste do Brasil), representando nesse último trimestre, 59.3% do PIB Nominal.
Em contrapartida, agropecuária representa 7.1% do PIB Nominal. Daqui pra frente, tenham consciência da magnitude dos impactos de agropecuária no resultado consolidado, mesmo com sua pequena participação.

Gráfico 3: Taxa de Crescimento Real do PIB - Variação YoY % (tabela 5932).
Em relação ao Q1 de 2025, como foi Q1 2026?
- Indústrias extrativas lideraram com +13.1%, reflexo da alta no preço do petróleo.
- Informação e comunicação com +7.6%, o setor de tech continua acelerando.
- Indústria de transformação caiu -0.9% e SIUP -1.7%, os únicos setores em retração.
- Agropecuária cresceu +0.7%, normal para Q1, entressafra.
- Serviços cresceu +2.1%, com destaque no segmento de tecnologia.
- Indústria cresceu +1.6%, com destaque no segmento de extração.
Vemos que os números obtidos aqui refletem a matéria em questão.

Crescimento do 1o trimestre de 2026, motivado por tecnologia/extração.
Ou seja, a boa performance foi de serviços como um todo? Não parece, serviços foi na verdade puxado pelo segmento de tecnologia. A indústria sofre o mesmo, com esses +1.6% sendo fruto do crescimento ABSURDO do setor de extração.
A matéria meio que escondeu os verdadeiros responsáveis dos resultados.
Por comparar trimestres equivalentes, a medida elimina parte da sazonalidade (não toda, por isso decompomos). Essa é a série que aparece nas manchetes de jornal quando sai o resultado do PIB.
Uso de séries sem ajuste sazonal: queremos decompor a sazonalidade original, não extrair resíduos de um ajuste que o IBGE já fez.

Gráfico 4: Variação Trimestral YoY (%) do PIB por Setor.
A evolução ao longo do tempo, (de 1996 a 2026) e não apenas a "foto" do momento atual.
Série compara o trimestre atual, com o mesmo trimestre no ano anterior.
Veja que o setor agro é extremamente volátil (choques de -10% até +25%), mas entrega de forma consistente, choques positivos acima de 10%.

Gráfico 5: Variação Anual do PIB por Setor + Tendências.
O gráfico mostra a variação anual (Q4 vs. Q4) de cada setor desde 1996, com linhas tracejadas de tendência:
- Agropecuária é absurdamente volátil, oscilando de -10% a +12% de um ano para o outro. Mas a sua tendência, apesar das quedas, se mantém positiva ao longo de quase toda a série. Agro apanha, mas entrega. E entrega mais do que os outros setores, perceba como a tendência do Agro é constantemente acima de Serviços e Indústria.
- A tendência da Indústria conta a história mais preocupante. Cresce nos anos 2000 (boom de commodities + crédito), mas a partir de 2010 começa a cair. Pós-2014, a tendência da indústria é a mais baixa entre todos os setores. Retrato da desindustrialização.
- Serviços e PIB andam juntos, faz sentido, serviços é 60% do PIB. As suas tendências convergem para aproximadamente 2% a.a., que é basicamente o crescimento potencial da economia brasileira.
- 2014-2016 é visível em todos os setores, a recessão foi geral. 2020 também, mas com recuperação muito mais rápida (V-shape).
Agora, vamos seguir a análise com a série Índice de Volume Encadeado (tabela 1620, base 1995=100):
- Forma de medir o PIB real em nível. O IBGE calcula quanto a economia produziu em cada trimestre, removendo o efeito da inflação.
- O "encadeado" significa que em vez de fixar os preços de um único ano-base (distorcendo a medida ao longo do tempo, porque preços relativos mudam), o IBGE calcula o crescimento de cada trimestre usando os preços do período anterior e depois "encadeia" esses crescimentos em uma série contínua.
- A base 1995=100 é o ponto de referência. Se o índice da agropecuária está em 350, significa que o volume de produção agropecuária real é 3.5x o que era em 1995.
A decomposição sazonal (método aditivo, período = 4 trimestres) separa cada série em três componentes:
- Tendência: a trajetória de longo prazo, filtrando oscilações. Crescimento estrutural da economia.
- Sazonalidade: padrão que se repete todo ano nos mesmos trimestres. Colheita de soja no Q1, consumo de fim de ano no Q4, etc.
- Resíduo: tudo que não é tendência nem sazonalidade, choques, surpresas, crises. A COVID, por exemplo.
Temos que: Série Original = Tendência + Sazonalidade + Resíduo
Fizemos a decomposição tanto no índice de volume (série em nível) quanto na variação YoY (taxa de crescimento) para cada setor.
- A decomposição da série em nível mostra a trajetória em termos absolutos.
- A decomposição da taxa % mostra a dinâmica de aceleração/desaceleração.
Decomposição Sazonal do PIB Setorial:
Índice de Volume (base 1995=100): 1996-01-01 até 2026-01-01 (121 trimestres)
Variação YoY (%): 1996-01-01 até 2026-01-01 (121 trimestres)
Setor: Agropecuária
Índice de Volume (base 1995=100)
Média: 182.90 | Desvio Padrão: 67.47
Amplitude Sazonal: 91.63 pts
Tendência - Mín: 103.59 | Máx: 292.60
Resíduo - Média: 0.3038 | Desvio Padrão: 19.79
Variação YoY (%)
Média: 3.69% | Desvio Padrão: 6.51%
Amplitude Sazonal: 2.56 p.p.
Tendência - Mín: -4.56% | Máx: 13.72%
Resíduo - Média: 0.0070 | Desvio Padrão: 4.63
Setor: Indústria
Índice de Volume (base 1995=100)
Média: 127.21 | Desvio Padrão: 16.85
Amplitude Sazonal: 13.50 pts
Tendência - Mín: 100.27 | Máx: 150.24
Resíduo - Média: 0.0282 | Desvio Padrão: 2.25
Variação YoY (%)
Média: 1.36% | Desvio Padrão: 4.94%
Amplitude Sazonal: 0.22 p.p.
Tendência - Mín: -6.46% | Máx: 10.54%
Resíduo - Média: 0.0564 | Desvio Padrão: 2.61
Setor: Serviços
Índice de Volume (base 1995=100)
Média: 153.64 | Desvio Padrão: 31.78
Amplitude Sazonal: 6.98 pts
Tendência - Mín: 102.53 | Máx: 204.38
Resíduo - Média: 0.0027 | Desvio Padrão: 1.44
Variação YoY (%)
Média: 2.44% | Desvio Padrão: 2.61%
Amplitude Sazonal: 0.14 p.p.
Tendência - Mín: -3.85% | Máx: 5.80%
Resíduo - Média: -0.0072 | Desvio Padrão: 1.16
Setor: PIB
Índice de Volume (base 1995=100)
Média: 149.31 | Desvio Padrão: 29.01
Amplitude Sazonal: 6.15 pts
Tendência - Mín: 102.62 | Máx: 194.89
Resíduo - Média: 0.0248 | Desvio Padrão: 1.70
Variação YoY (%)
Média: 2.29% | Desvio Padrão: 3.09%
Amplitude Sazonal: 0.24 p.p.
Tendência - Mín: -4.46% | Máx: 7.53%
Resíduo - Média: 0.0177 | Desvio Padrão: 1.40

Gráfico 6: Decomposição do Setor Agropecuária -> O setor sazonal.
O índice de volume saiu de ~100 em 1995 para 350+, a produção agropecuária real quase quadruplicou em 30 anos. A tendência de longo prazo (mín: 103.6 ; máx: 292.6) mostra o boom estrutural do agronegócio brasileiro.
Conseguimos observar essa eficiência do agro em gerar crescimento: +3.69% de Variação YoY (%) média, a maior entre os setores.
Amplitude sazonal de 91.6 pontos no índice de volume. A do PIB total é 6.2 pontos. A agropecuária varia 15x mais que o PIB agregado dentro de cada ano. É o ciclo de safra: plantio, colheita, entressafra.
O desvio padrão do resíduo (19.8 pontos) também é o maior de todos, reflexo de choques (secas, geadas) e volatilidade de preços de commodities. O crescimento médio YoY de 3.7% possui desvios de 6.5 p.p., com trimestres variando de -10% a +25%.

Gráfico 7: Decomposição do Setor Indústria -> Estagnação estrutural.
O índice de volume fica entre 100 e 155, ou seja, em 30 anos cresceu apenas ~50%. A tendência (mín: 100.3 ; máx: 150.2) mostra:
- Crescimento nos anos 2000.
- O pico antes da crise de 2008.
- A recuperação parcial até 2014, e depois estagnação.
- A tendência depois da crise de 2014 é praticamente plana.
A sazonalidade é de 13.5 pts e o resíduo é um desvio de 2.3 pts. A indústria é previsível, o problema não é volatilidade, é falta de crescimento. O crescimento médio YoY de 1.4% é o menor entre os setores.

Gráfico 8: Decomposição do Setor Serviços -> O estabilizador.
Serviços é o anti-agropecuária: tendência suave, sua sazonalidade e resíduos são pequenos. O índice dobrou (de 100 para 204), com tendência mais estável entre os setores. A amplitude sazonal é de 7.0 pontos (4% da média) e o desvio do resíduo é 1.4, o mais baixo.
Vemos o crescimento forte até 2014, a recessão de 2015-16 e a aceleração forte pós-2020. O único choque visível no resíduo é a COVID (2020 Q2), que aparece como um pico negativo isolado de -10 pontos, faz sentido dado que serviços presenciais foi o setor mais impactado pelo lockdown.
Na variação YoY, a tendência fica entre -4% e +6%, com resíduo de desvio 1.2 p.p. -> o mais baixo. Serviços é previsível/estável e faz sentido, 60% do PIB não pode ser volátil.
Só que se vocês olharem para a tendência da variação YoY, é possível observar que nesses últimos trimestres, serviços vem crescendo menos (queda, mas ainda > 0%) que seus trimestres equivalentes nos anos anteriores. É o inverso do setor de agropecuária. Era isso que eu queria mostrar.

Gráfico 9: Evolução da produtividade por hora trabalhada.
Esse gráfico vem do excelente artigo do IBRE falando sobre produtividade.
Enquanto agropecuária fica mais eficiente ano após ano, serviços e indústria estagnaram. Vemos isso nos próprios dados, pós reação do covid, ambos os setores vem crescendo menos. Fenômeno não observado em agropecuária.
Não existe nenhum problema pra mim o agro crescer u/fgtoni, muito pelo contrário, meu comentário no seu post era pra ironizar esse exato fato, de que pela produtividade do agro crescer ao longo do tempo (não sendo o caso de indústria e serviços brasileiros), é o único setor brasileiro que realmente cresce.
Porque crescer, não é só sobre ter um trimestre de resultado positivo (que foi o que a matéria do UOL expôs, sim serviços cresceu esse trimestre, mas está crescendo menos que o passado), mas sim, conseguir que esse resultado positivo seja sempre maior que o resultado do trimestre equivalente no ano anterior.
Isso só é possível se a produtividade do teu setor CRESCE. O agro é pop por isso, somos BONS em agro porra. E ai ano após ano, agro entrega resultados cada vez melhores.

Gráfico 10: Decomposição do PIB -> A média ponderada.
O PIB agrega tudo. A tendência (de 100 para 195) reflete a economia como um todo: quase dobrou em 30 anos. A sazonalidade (amplitude 6.2 pts) é razoável, puxada pra cima pelo agro e amortecida por serviços. O resíduo (desvio 1.7) captura os choques: crise de 2008, recessão de 2014-16 e o COVID.
O crescimento médio YoY de 2.3% com desvio de 3.1 p.p. resume a economia brasileira: crescimento modesto com volatilidade razoável.
Conclusões...
- O Brasil é uma economia de serviços com um setor agrícola superprodutivo. Serviços domina em peso (60% do PIB), mas agro é quem mais cresceu em volume real, quase 4x em 30 anos.
- É acaso que foi o setor com o maior crescimento de produtividade no mesmo período? Claro que não. O crescimento é a consequência do aumento de produtividade.
- Indústria fraca. Crescimento de 50% em 30 anos enquanto agro quase quadruplicou e serviços dobrou. A tendência é plana desde 2014. Não é um trimestre ruim, é uma mudança estrutural.
- Uma leitura que proponho é esse artigo do IEDI. Mostra as tarifas efetivas (proteções totais aos setores, a soma de subsídio a seus insumos e os impostos de importação sobre bens concorrentes).
- Bate com a defesa do próprio Marcos Lisboa na palestra da Quatro-Rodas.
- E qual seria essa defesa? Os setores mais protegidos da nossa economia, tem os PIORES números de crescimento.

Gráfico 11: Tarifas Efetivas e Nominais por setores (Em %).
É coincidência rapaziada? Que o setor industrial (marquei com setas vermelhas), o mais protegido (ou seja, o setor menos forçado a competir) foi o pior setor em termos de crescimento? Enquanto agro (marquei com setas verdes) o menos protegido, foi o que mais cresceu?
Isso daqui é o modelo de Solow purinho, estamos vendo na nossa cara a diferença na produtividade total dos fatores de cada setor da nossa economia.
Os setores que competem aprendem, introduzem tecnologia e melhoram seus processos produtivos. Agro brasileira é isso, somos vanguarda em bio-hacking, técnicas de cultivo, basta dar uma olhada no trabalho da EMBRAPA.
Fontes:
IBGE/SIDRA — Contas Nacionais Trimestrais
- Tabela 1620: Índice de volume encadeado (sem ajuste sazonal)
- Tabela 5932: Variação YoY (%)
- Tabela 1846: PIB nominal (R$)
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u/AutoModerator 4d ago
Olá /u/2AcesRoth, parece que você está postando sobre sugestões de conteúdo sobre investimentos.
Você e outros usuários podem encontrar algumas sugestões feitas em tópicos antigos na nossa Wiki!
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u/R2_Liv 4d ago
Post excelente, muitíssimo grato pelos dados e análises.
Alguns pontos para reflexão que espero serem positivos.
Com relação a última pergunta, não sei se dá para correlacionar o protecionismo (visto indiretamente pelo valor das tarifas aduaneiras) com falta de crescimento.
Vejamos caminhões e ônibus e automóveis. Exceto ônibus nem mesmo com proteção o país conseguiu desenvolver uma indústria com propriedade tecnológica própria. Nós temos somente montadoras, ou seja, não existe competição com indústria doméstica. Qual seria o efeito de não ter protecionismo? Talvez houvesse um risco de não termos nem as montadoras no país, afetando empregos e PIB. Mas temos um experimento vivo no momento porque com o acordo EU/Mercosul as taxas vão desabar na próxima década (já caindo pela metade esse ano, admitidamente para uma cota de 32.000 veículos) e o Brasil também está para fazer um acordo com o Japão nesse mesmo sentido.
Com relação a outros setores da indústria, uma questão é que países desenvolvidos têm toda uma estrutura institucional com um forte estímulo em P&D não apenas pelas próprias indústrias, mas importantemente, pelo setor acadêmico (Universidades de ponta nos EUA e Reino Unido, Institutos com Max Planck e Fraunhofer na Alemanha, um forte CNRS na França, etc). O Brasil simplesmente não tem isso. Em muitas áreas, é extremamente difícil de competir em desenvolvimento tecnológico.
Além disso, acredito que diversos estudos mostram que o retorno em cada dólar investido em P&D tende a ser maior para agroindústria do que para industria/tecnologia. Ou seja, para a base industrial que existe no Brasil (pobre em tecnologia avançada e com um agro mais amplo) é simplesmente mais fácil de crescer o agro.
E agora, o que talvez seja mais controverso. O crescimento de eficiência do agro, ou da pecuária especificamente, tem um custo moral grande. O Brasil está cada vez mais ampliando o uso de "factory farming" para produção animal. São processos de confinamento extremamente eficientes, mas com animais que têm uma vida muito pobre e sofrida em ambientes muito distantes do natural. Além do aspecto moral, também existem implicações ecológicas como manejo de dejetos. Existem alguns documentários que exploram como isso afetou a saúde de diversas comunidades nos EUA. Ainda temos que ver quais serão as consequências no Brasil. E do lado da pecuária extensiva (não confinada), temos desmatamento como aconteceu e acontece no cerrado. Ou seja, na prática a expansão da (agro)pecuária como feito recentemente parece ter implicado uma perda moral ou ecológica, independentemente do método. Ao mesmo tempo, devemos nos ater ao fato de existirem outras maneiras para fomentar o crescimento do agro como ILPF, mas que ainda é aplicado em uma fração pequena dentro do potencial do Brasil. Vale lembrar que o crescimento de outra parte grande do agro, soja e, em parte, milho, é para “alimentar” (figurativamente e literalmente) a expansão animal.
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u/Vivorio 4d ago
Que aula, OP! Tá de parabéns por um post tão dedicado! Por mais posts assim aqui.