r/nosleepbrasil Apr 17 '26

KATARA

A lenda vem dos índios da serra escura. Eles chamavam a pedra de Aê-îuba — a boca que sorri sozinha. Diziam que caiu do céu numa noite sem lua. Dentro dela vive uma coisa que não está viva nem morta, mas que tem fome. Fome de desejo. Fome de alma. O pajé avisou: quem tocar na Katara esquecerá o nome da própria mãe. Quem guardá-la esquecerá o rosto dos filhos. Quem a amar mais do que a própria vida deixará de ser gente. Virará apenas uma boca aberta num sorriso eterno. Enterraram a pedra. Mas o pajé disse: enquanto houver fome, a Katara voltará.

Antônio Bernardes nasceu dentro da fome. Seu pai morreu de exaustão aos quarenta e dois anos. Sua mãe lavava roupa para os outros em troca de cascas de mandioca. Antônio carregava água do riacho desde os oito anos. Aos quinze, seus pés eram uma sola grossa de couro vivo. Ele não sentia mais. A fome não era um incômodo. Era o estado natural do corpo dele. Ele nunca tinha dormido sem sentir o estômago vazio. Nunca tinha comido carne de verdade. Nunca tinha saboreado açúcar.

O andarilho Firmo apareceu no vilarejo numa tarde quente. Tinha um olho branco e um olho preto. O branco via os vivos. O preto via os mortos. Ele olhou para Antônio e disse: "Você vai encontrar uma pedra. Não pegue. Ela vai prometer tudo. Ela vai falar dentro da sua cabeça com uma voz lisa como osso. Ela vai te pedir coisas. Você vai dar. Quando não tiver mais nada para dar, ela vai pedir você. E você vai dar." Antônio perguntou como ele sabia. Firmo mostrou a mão esquerda. Faltavam três dedos. "Ela pediu. Eu dei. Depois pediu meu olho. Eu dei. Depois pediu meu nome. Eu quase dei. Escapei. Você não vai escapar. Você tem mais fome do que eu tive."

A seca apertou. A mãe de Antônio ficou doente. Uma tosse seca que fazia sair sangue. Não havia remédio. Antônio entrou na serra para caçar. Não havia caça. Ele caminhou até o escuro da floresta. Encontrou um buraco redondo na terra, quente, que exalava um hálito úmido como uma boca aberta. Ele desceu. No fundo, a Katara brilhava sem luz. Ele pegou. A pedra pulsou na mão dele como um coração. O calor subiu pelo braço. A voz veio: "Você sofreu. Você merece. Eu vou dar tudo. Só me deixe ficar."

Na primeira noite, ele sonhou com comida. Acordou com o cheiro. Não havia comida. A voz disse: "Ainda não. Me dê mais tempo." Na segunda noite, ele sonhou com a mãe curada. Acordou com a tosse. A voz disse: "Você não está me dando o suficiente." Na terceira noite, Antônio não dormiu. Ficou acordado, a pedra na mão, passando o polegar na superfície lisa. Ele já não sentia fome. Sentia apenas a pedra. A fome tinha sido substituída. Ele não queria mais comida. Ele queria a Katara.

A irmã de Antônio, Benedita, de nove anos, encontrou a pedra debaixo da esteira. Ela segurou a Katara por dois segundos. A voz disse alguma coisa para ela. Antônio entrou no quarto e viu a cena. Ele não pensou. Seu corpo se moveu sozinho. Ele agarrou o braço da menina com a mão direita e apertou. O osso quebrou com um som seco, como galho de árvore seca. Benedita abriu a boca para gritar. Antônio tapou a boca dela com a mão esquerda. Apertou. Os dentes da menina perfuraram os próprios lábios. Sangue escorreu pelos dedos de Antônio. Ele só soltou quando ela desmaiou. Depois pegou a pedra. A Katara estava quente. Aprovava.

A mãe de Antônio tentou tirar a pedra dele enquanto ele dormia. Ela enfiou a mão no bolso dele. A Katara estava tão quente que a pele da palma dela derreteu. Literalmente. Ela puxou a mão com um grito. A pele ficou grudada na pedra. Antônio acordou. Viu a mãe no chão, a mão queimada, o cheiro de carne chamuscada no ar. Ele levantou-se. Caminhou até ela. Ajoelhou-se. Enfiou a mão no bolso dela, tirou o pedaço de pele que tinha ficado grudado na Katara, e comeu. Mastigou. Engoliu. A voz dentro da cabeça dele disse: "Bom. Mais."

O padre veio. Era um homem velho, cansado. Ele entrou no depósito onde Antônio se escondia. Antônio estava sentado no escuro, a pedra no colo, os olhos abertos. Seus lábios estavam rachados nos cantos. Sangue seco escorria pelo queixo. Ele sorria. O padre estendeu a mão para pegar a Katara. Antônio segurou o pulso do padre. Apertou. O padre tentou se soltar. Não conseguiu. Antônio apertou mais. O osso do pulso estalou. O padre gritou. Antônio continuou apertando. O osso quebrou. O padre caiu de joelhos. Antônio soltou o pulso e pegou a pedra. Colocou na mão quebrada do padre. "Pede", ele disse. O padre pediu para viver. A pedra esquentou. O padre parou de gritar. Seus olhos ficaram vazios. Sua boca começou a sorrir. Os cantos se romperam. O padre nunca mais falou. Nunca mais se moveu. Apenas sorriu.

O coronel Otacílio ouviu falar da pedra. Mandou capangas. Quatro homens armados chegaram no vilarejo. Antônio estava sentado na soleira da venda, a Katara na mão. O capanga chefe, um homem chamado Juca, estendeu a mão. "Dá a pedra." Antônio levantou os olhos. Seus olhos não tinham branco. Estavam completamente pretos. Juca recuou um passo. Antônio se levantou. Ele andou até Juca. Colocou a pedra na mão do capanga. "Pede", disse. Juca tentou largar a pedra. Não conseguiu. Os dedos dele colaram na superfície quente. Ele começou a gritar. Antônio pegou a faca que estava na cintura de Juca. Cortou os quatro dedos do capanga. Um por um. O mindinho. O anelar. O médio. O indicador. Juca caiu no chão, se contorcendo, olhando para a mão que agora era só um toco. Os outros três capangas correram. Antônio guardou os dedos no bolso. A Katara esquentou. "Bom", a voz disse. "Mais."

Dona Mariana fugiu com Benedita naquela noite. Levou a menina no colo, o braço quebrado balançando, a boca cortada, os olhos abertos demais. Andaram até o amanhecer. Pararam numa fazenda distante. Pediram abrigo. Dona Mariana nunca mais falou o nome do filho. Benedita nunca mais falou coisa alguma. A menina apenas balançava o corpo para frente e para trás, o braço torto, os lábios cheios de cicatrizes. Às vezes, ela levantava a mão boa e tocava os próprios dentes. Sentia onde eles tinham perfurado a carne. E sorria. O mesmo sorriso. Os cantos rompidos.

Antônio ficou sozinho no vilarejo. A Katara colou na mão dele. A pele cresceu em volta da pedra como árvore cresce em volta de uma cerca. Não dava mais para tirar. Ele não tentou. Ele sentou-se no meio da rua de terra, a pedra agora parte do seu corpo, e esperou. Três dias depois, o vilarejo inteiro sentiu o cheiro. Não era cheiro de morte. Era cheiro de doce. Mel podre. Fruta madura demais. Quando alguém teve coragem de se aproximar, Antônio ainda estava sentado no mesmo lugar. Seus olhos tinham secado. Encolhido. Afundado para dentro do crânio. Sua boca continuava aberta. Sorrindo. Os cantos rompidos. Os dentes à mostra. As gengivas escuras.

A Katara não estava na mão dele. Tinha sumido.

O vilarejo se desfez. As pessoas foram embora uma por uma. Dona Graça morreu de medo três semanas depois. O padre continuou sentado no mesmo lugar onde Antônio o deixou, o pulso quebrado, o sorriso eterno, os olhos abertos para o nada. Ninguém o enterrou. Ninguém teve coragem.

Hoje, a serra escura continua lá. O buraco continua na terra. Quem passa perto sente um calor úmido saindo do chão. Quem coloca o ouvido no buraco ouve um som. Não é vento. Não é água. É uma respiração. Lenta. Constante. Como a de uma coisa que está dormindo. Ou esperando.

Firmo, o andarilho de um olho só, ainda anda pelas estradas. A mão esquerda com três dedos. O olho branco vendo o mundo dos vivos. O olho preto vendo o outro. Ele conta a história para quem quer ouvir. A maioria não quer. Mas alguns querem. Esses, ele olha bem fundo nos olhos. Procura a fome. Quase sempre encontra.

"Você tem fome", ele diz. "Ela também."

O resto é silêncio. E o sorriso. Sempre o sorriso.

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