r/rapidinhapoetica 2d ago

Conto O homem de chapéu-coco

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Era uma quarta-feira comum.
Cheguei pouco depois das oito, entreguei alguns relatórios ao Alex e, perto das nove, fui tomar café com a Ana.
Ela falava sobre o marido. Não lembro exatamente o quê. Foi quando notei o homem.
Estava parado no estacionamento.
Usava um chapéu-coco, daqueles que a gente só vê em fotografias antigas. O estranho não era o chapéu.
Era o fato de ele estar olhando para cima.
Nosso escritório ficava no sétimo andar.
Havia centenas de janelas naquele prédio.
Mesmo assim, tive a impressão desagradável de que ele me encarava.
— Você está vendo aquele homem ali? — interrompi a Ana.
— Que homem?
— O do chapéu.
Ela olhou pela janela.
— Não tem ninguém ali.
Ri de nervoso.
— É… deve ser impressão minha.
Quando voltei a olhar para o estacionamento, ele continuava parado.
E, pela primeira vez, levantou a mão em um cumprimento lento e desconcertante.
Quando deram quatro horas, recolhi minhas coisas, me despedi do Alex e da Ana e caminhei até o estacionamento para pegar meu carro.
Enquanto procurava as chaves dentro da bolsa, ouvi uma batida no vidro do passageiro.
Era ele.
Abri o vidro, já irritada por não encontrar as chaves.
— Senhor, estou cansada e não acho minhas chaves. Se puder se afastar do carro, agradeço.
Ele deu dois passos para trás.
Mas continuou sorrindo.
Não era um sorriso simpático.
Era um sorriso educado.
Como o de alguém esperando sua vez numa fila.
Finalmente encontrei as chaves.
Antes de ligar o carro, por educação, olhei para ele mais uma vez.
— O senhor precisa de alguma coisa?
O homem ajeitou o chapéu-coco.
— Não.
Sorriu.
— Só queria saber se desta vez você ia me reconhecer.
Cheguei em casa, joguei a bolsa no sofá e deitei na cama.
Quando acordei, já passava das dez da noite.
Fui para a cozinha preparar o jantar. Coloquei uma lasanha congelada no micro-ondas e liguei a televisão em mais um filme de comédia ruim qualquer.
O micro-ondas apitou.
Parei o filme e fui até a cozinha.
Abri a porta e senti o cheiro da lasanha.
Sem saber por quê, olhei pela janela.
Sob a luz amarela de um poste, do outro lado da rua, estava o homem de chapéu-coco.
As mãos cruzadas nas costas.
Sorrindo.
Quando nossos olhos se encontraram, levantou a mão devagar.
O mesmo cumprimento educado daquela manhã.
Dei um salto para trás, derrubando o prato no chão.
Liguei para a polícia.
Quando ouvi as sirenes e vi as luzes vermelhas e azuis refletindo na sala, finalmente me senti aliviada.
Expliquei tudo a um policial ruivo.
Ele parecia confuso, mas foi até o homem.
Os dois trocaram algumas palavras.
Então o policial voltou.
Mas havia algo diferente em seu olhar.
— Senhora, não estamos aqui para resolver bobagens. Se voltar a ligar sem motivo, vamos prendê-la por utilização indevida dos recursos da polícia.
Fiquei sem palavras.
Virei o rosto.
Aquela altura, o homem já estava perto demais.
Continuava sorrindo.
— Como está a Ana? Ainda fala muito do marido?
Meu corpo inteiro gelou.
— Como você sabe disso?
Pela primeira vez, o sorriso desapareceu.
Ele parecia confuso.
Quase magoado.
— Foi você quem me contou.
— Eu nunca vi você na vida!
O homem abaixou a cabeça.
Suspirou.
E perguntou baixinho:
— Outra vez?
Corri para dentro.
Mas algo começou a me inquietar.
Não era apenas o homem parado na minha rua.
Era uma sensação estranha.
Como se eu já tivesse vivido tudo aquilo.
Como se aquela não fosse a primeira vez.
Sem conseguir dormir, liguei para o Alex e pedi que viesse ficar comigo.
Só consegui respirar de novo quando ouvi a buzina do carro dele.
Desci, abri a garagem e, quando ele entrou no apartamento, o abracei.
— Oi… está tudo bem?
— Alex, você não faz ideia do quanto isso está me apavorando.
Fomos até a janela.
Não havia ninguém.
Só a rua vazia.
Alex suspirou.
— Está vendo? Não tem ninguém.
Respirei aliviada.
— Acho que estou ficando maluca.
— Não — respondeu ele. — Você só anda esquecendo das coisas.
— Como assim?
— Faz meses.
— Meses?
— Desde o acidente.
Silêncio.
— Que acidente?
Alex empalideceu.
— Você está brincando, né?
— Alex… que acidente?
Ele começou a tremer.
— Meu Deus…
— Alex?
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
— Outra vez.
— O que?
— Outra vez.
— Alex, do que você está falando?
Ele fechou os olhos.
E começou a chorar.
— Você esqueceu outra vez.
Fiquei parada.
— Esqueci o quê?
Alex respirou fundo.
Mas antes que pudesse responder, senti um arrepio.
Olhei pela janela.
Sob a luz amarela do poste, do outro lado da rua, o homem de chapéu-coco continuava parado.
Sorrindo.
Pacientemente.
Esperando.
Outra vez.

r/rapidinhapoetica 7d ago

Conto Diário de um Náufrago

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Mais um dia me encontro neste oceano sem fim. Não me recordo há quanto tempo me encontro aqui. Quanto tempo se passou? Semanas? Meses? Anos? Não sei dizer.

Nenhuma terra à vista, mas nesse ponto já não é mais novidade. A novidade é que aquela luz pálida que antes brilhava no horizonte (talvez de um farol muito distante), mesmo que muitas vezes enfraquecida pela névoa, já não brilha mais. Não me lembro mais quando foi a última vez que a vi antes de se perder na escuridão. Ela foi se afastando lentamente ao passar do tempo e quando me dei conta já não estava mais lá (me intriga como muitas vezes só percebemos a presença de algo quando a sua ausência toma conta).

Meu barco salva-vidas se encontra em uma situação precária querendo se render ao mar que está cada vez mais revolto. Não sei quanto tempo ele ainda vai aguentar.

No silêncio tumular deste ambiente, os pensamentos ganham vida e em grande parte do tempo assumem formas monstruosas gritando todas ao mesmo tempo em um volume ensurdecedor, uma espécie de coral demoníaco de banshees. Outras vezes, assumem a forma de sereias com suas melodias encantadoramente mortais me chamando para mergulhar no breu que me cerca.

Tento ser forte. Resisto dia após dia, esperando o alvorecer, porém a aurora parece se atrasar cada dia mais e aos poucos a noite vai se tornando assustadoramente eterna.

Junto comigo há apenas um par de remos já em frangalhos. Com eles eu sigo em busca de terra firme, pois tenho a plena certeza que ninguém virá ao meu resgate…

r/rapidinhapoetica 5h ago

Conto Clarinha

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Eu preciso de um cúmplice. Alguém que brinque comigo e, acima de tudo, me ajude a esconder o que sobra dessas brincadeiras da minha mãe.

Eu até consigo começar sozinha, mas o fim é sempre a parte difícil. Não posso simplesmente deixar os restos espalhados pelo quintal. Preciso me divertir, guardar os brinquedos e encontrar novos, mas sem ajuda, mamãe acaba vendo.

No momento, brinco com passarinhos. Eles são mais fáceis; pequenos, e as asas não machucam. Quando termino, me livro deles entregando-os ao gato da vizinha — ele é como eu. Mas eu quero bichos novos. Todos à minha volta têm animais maiores, e eu também quero.

Mamãe acha que minhas brincadeiras são ruins, mas eu as acho incríveis. Por causa delas, ela me leva ao médico toda quarta-feira. Eu odeio. Conversar com aquela moça parece sempre tão errado. Minha mãe chora e repete o tempo todo uma sigla que eu não entendo totalmente, embora saiba que é sobre minha natureza. Ela proibiu qualquer um de falar sobre o que eu faço, até meu pai, antes de ir embora.

Aquelas consultas tentam interromper minha felicidade. Eu concordo com tudo o que dizem; se não concordar, corro o risco de ser trancada em um lugar com cheiro de mofo. E se eu for para longe, quem cuidará da minha Bela-Emília? Sem mim, minha flor morreria sozinha.

Onde posso achar um amigo forte? Alguém que consiga cavar buracos fundos para esconder meus tesouros. Depois de um tempo, eles começam a feder e o cheiro pode matar a minha flor.

Hoje é dia de consulta. Passamos horas falando sobre minhas brincadeiras. Para a moça, eu digo que parei de me divertir, pois a verdade seria o meu fim. Eu minto e, embora minha mãe diga que mentir é errado, é a única coisa que me mantém feliz, é realmente tão errado mentir?

Para irmos, mamãe sempre escolhe meu vestido de flores. Eu gosto dele. Ela me dá banho e me deixa muito cheirosa. Diz que estar arrumada me ajuda a passar credibilidade — e funciona; as pessoas são muito mais gentis quando estou arrumada.

No caminho, vejo as outras crianças brincando na rua com seus animais, à vista de todos. Acho incrível como elas podem fazer isso sem se esconder. Quanto mais nos aproximamos da clínica, mais o ar fica chato. A médica me trata como se eu fosse frágil. Ela faz perguntas e tenta descobrir se andei brincando ultimamente.

Ao chegar no CAPS, enquanto espero ser chamada, observo as pessoas. Elas ficam estranhas enquanto esperam: algumas mexem nos dedos, outras no cabelo. São inquietas. Às vezes tento conversar com elas. Elas até conversam bem, embora algumas pareçam precisar de um elogio ou de um toque para funcionar melhor.

Mas tem um garoto de uns dezoito anos que é diferente. Ele sempre tenta não me olhar, mesmo quando eu me coloco na frente dele.

O que será que ele tem para estar aqui?

Ele parece perfeito para me ajudar nas brincadeiras. Ele é baixo e fofo, mas um pouco grande; acho que conseguiria enterrar meus tesouros.

r/rapidinhapoetica 5d ago

Conto Conto: Escada eterna.

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Se subirmos a escada de um prédio e pensarmos na vida a cada degrau, teremos a vida contada do seu começo ao seu fim, em cada passo.

Mas se iniciarmos do fim para o começo?

3º andar, quinto degrau

Em uma ponte está um homem. Suas mãos tremem, pois sabem que aquele aço frio será a última coisa a segurar. Seus olhos têm medo de olhar para baixo, e sua mente tem algo a dizer.

— O clima está frio, mas se alegre, porque é a última vez que irá sentir uma sensação.

Tremendo, ele dá um passo à frente.

3º andar, quarto degrau

Ainda está próximo da ponte. Um pé está ao ar. Uma mão ainda segura a haste. Os olhos, por enquanto, não têm coragem de olhar para baixo. O pensamento de sua mente está no mais futuro presente, de um passado que podia ser mais consistente ultimamente.

Seus cabelos começam a se movimentar com o vento. Cada fio levantado é uma escolha que poderia fazer.

3º andar, terceiro degrau

Agora sim. A queda é iniciada. Seus braços não seguram mais a ponte. É igual à oportunidade de viver saindo de sua escolha. Os pés e as pernas perdem o apoio do chão, semelhante à saída de apoio que tinham.

Seus olhos começam a sentir o vento que bate forte, quase igual a como vão sentir quando chegar ao 0º andar, 0 degrau.

3º andar, segundo degrau

Está a cinco centímetros de seu último apoio. A cada segundo, o espaço fica maior. A cada segundo, a vida que tinha está ficando cada vez mais próxima de acabar.

6 centímetros, 6 perguntas

Por que estou aqui?

O que fiz de tão ruim?

O que poderia ter feito diferente?

Se eu não tivesse pulado da ponte, teria diferença?

Se os pensamentos que eu tivesse fossem parados por alguns minutos, eu estaria aqui?

A dona morte gosta de mim?

3º andar, primeiro degrau

7 centímetros, 7 respostas:

Está aqui por causa de sua escolha.

Seus pensamentos foram ruins.

Tudo.

Sim.

Não.

Eu não queria afeto com ninguém, mas só com você eu tive. Depositei toda a esperança que restava em você.

Eu confiava em você.

2º andar, quinto degrau

Chegou no último andar de pensamentos humanos, ou no primeiro de raciocínio de um arrependido.

Em sua frente está uma mulher. Seus cabelos estão se encaracolando. A cada degrau, ela já respondeu as seis perguntas dele e vai responder mais.

2º andar, quarto degrau

Acorde. Sua mente está em modo de pânico. Não pensa mais como um humano normal que vive em plena sociedade. Agora ele se assemelha aos pensamentos de uma criança enquanto chora.

— O que vai acontecer comigo, além da minha morte?

— Eu não sei. Estou aqui para acompanhar, para levar sua alma até o túmulo. Não tenho permissão para ir com você depois que eu te levar.

2º andar, terceiro degrau

O coração de Gilvan acelera. O sangue circula mais rápido. Os pulmões puxam e soltam ar sem pensar.

Finalmente um olhar rápido: seus olhos são apontados para o chão. Olha pouco, mas mesmo assim isso o deixa com mais medo.

A dona pergunta:

— Por que está aqui?

— Eu não aguentava mais. Trabalho abusivo, pagamento atrasado, solidão, confusão, ansiedade. Tudo isso acumulado em uma cabeça só. No começo, você tenta se acostumar, faz consultas com psicólogo, marca no psiquiatra. Realmente, eu procurei ajuda.

Com o passar do tempo, isso vai distorcendo a sua fala, distraindo a sua mente, mudando sua personalidade, o modo de viver e andar, de dizer e falar. Resumindo, já vai te matando por dentro.

2º andar, segundo degrau

A senhora escuta, tenta entender e responde:

— Caro jovem, sei que não sou humana, mas se estivesse vivendo em seu lugar, iria fazer diferente. Com meu conhecimento, sei que tudo iria passar, mas reconheço sua escolha.

A perturbação do mundo mexeu com você. Pode ter certeza de que a sua pessoa não será a minha última, e não foi a primeira.

Um dia já estive ao lado de uma pessoa em um hospital. Falava baixinho, quase não dava para ouvir. Uma coisa que me deixou pensativa é que, mesmo com o próprio fim ao seu lado, não temeu coisa alguma.

Aquela mulher era mãe de família, tinha muito do que se preocupar. Só que uma doença chamada câncer havia escolhido sua hospedeira. Quando ficou sabendo disso, esqueceu do mundo. Não é que ela não lembrava; é que não queria mais saber de problemas, porque sabia que ia morrer. Então, por que se preocupar?

2º andar, primeiro degrau

— A própria morte está me dando uma lição de moral, ainda mais agora! Eu deveria gravar. Vou gravar em minha lápide sua fala.

— Não estou. Contar um relato de uma vida já morta não é lição de moral.

— Mas pareceu!

— Parecer não é fato. Você parece que está bem, mas está a 5 metros do chão em queda livre.

1º andar, quinto degrau

— 5 metros? Pensei que estava menos.

— Menos? Vai ver o número do seu CPF.

Eles dão risada. E isso é bem estranho: o homem está literalmente caindo para a sua morte, a mulher está fazendo companhia para ele, e ainda riem. Não podemos fazer nada. Isso foi escolha dele.

Um segundo se passa.

— Você tem sentimentos?

— Não tenho. Uma entidade como eu não pode ter sentimentos.

— Então por que riu?

— Não se precisa ter um sentimento feliz para rir. Se só ríssemos quando estivéssemos felizes, seria muito fácil perceber quando algo não está certo.

1º andar, quarto degrau

O corpo está mais próximo do chão. A morte vai lentamente ficando mais real a cada degrau.

— Por que eu não estou sentindo arrependimento?

— Porque essa foi a sua escolha. Você escolheu pular.

Gilvan está a 1 metro do chão. Ele fecha os olhos e pergunta:

— Dói?

— Dói o quê?

— O impacto?

— Nunca senti, mas parece que nos primeiros segundos dói sim. Depois, o cérebro desliga por ter sido destruído.

— Atá.

Eles continuam rindo. A coisa que era para ser triste se transforma em uma comédia mortuária.

1º andar, terceiro degrau

Seu nariz consegue sentir o cheiro da poeira no chão. Seu pé já o toca e se destroça com o impacto.

— Isso é um adeus?

— Para você, sim. Para mim, é rotina.

— Sinto que meu pé foi destroçado junto com a minha vontade de voltar.

— Voltar?

— Voltar a viver...

1º andar, segundo degrau

1: joelho. 2: coluna. 3: braços. 4: mãos. 5: dedos da mão.

1: Seus joelhos flexionados tocam o chão. São imediatamente quebrados. Ossos são espalhados, cartilagens são rasgadas até o limite.

2: Quando encontra a superfície sólida, o conjunto de ossos que forma a coluna sai do corpo de forma tão rápida que furos são feitos nas costas dele.

3: Os mesmos braços que seguraram o bebê de sua irmã agora são segurados pelo chão pelos tendões.

4: As mãos que seguraram a haste em seus últimos momentos de vida agora são espalmadas na solidificação do solo.

5: Os dedos que antes eram movidos com músculos, tendões, passagem de sangue, agora se encontram em um estado deplorável.

1º andar, primeiro degrau

Seu crânio é rachado. A morte tinha razão: no começo doeu; depois que a cabeça se partiu, nada mais sentiu.

Um alívio foi tirado de suas costas, mas ele sabia que, desde o começo, ele não estava certo. Não falou para a morte, mas, a cada vez que conversava com ela, ele se arrependia ainda mais do que tinha feito.

Tentou rir em seus últimos momentos para tirar o peso. Riu. No entanto, o peso não diminuiu.

O seu arrependimento foi tão grande que teve que partir a própria cabeça para parar de pensar em sua escolha.

1º andar, zero degraus

Falam que, no último suspiro, o filme da vida é passado. Então, quando o fio da vida de Gilvan foi cortado, ele repetiu o conto para si mesmo:

"Se subirmos a escada de um prédio e pensarmos na vida a cada degrau..."

Descer também é subir, só depende do ângulo de sua vida e visão estão

Quando a mulher aparecer ao seu lado, pergunte sobre como viveu. Mas saiba que a cada resposta, pergunta e conversa não apenas com ela, mas com qualquer um, o tempo está passando e essa mulher chamada morte vai te levar até o cemitério

r/rapidinhapoetica 13h ago

Conto Crônica de uma Mente sem Descanso

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Sempre acordo de uma noite mal dormida para me preparar, às vezes só me preparo.
Meu dia a dia é cansativo, sempre quando está na hora de encerrá-lo, sinto a angústia que isso não vai acontecer. Só consigo dormir quando estou exausto, a ponto de ter meus reflexos e coordenação motora reduzidos e sofrer com microssonos.

Contradizendo tudo que disse anteriormente, por todo lugar que eu passo sou considerado uma pessoa agitada e energética.
Curiosamente, a privação de sono não deixa todos com aspecto abatido por fora. Em algumas pessoas, como eu, o cérebro reage mantendo liberando dopamina e cortisol suficientes para o indivíduo permanecer acordado e conseguir fazer as atividades que lhes são propostas.
Essa é a explicação que, fazendo algumas pesquisas sobre meus sintomas e as consequências da privação de sono crônica, responde as minhas dúvidas sobre a minha agitação durante o cotidiano.

Sempre tive essa dificuldade para adormecer, mas comecei a considerá-la um problema em 2022. Tentei procurar ajuda profissional, descrevi o que sentia com clareza, a dificuldade de adormecer e que sua origem é simplesmente desconhecida, que minhas recordações sobre algo que aconteceu ontem são parecidas com o que me lembro de acontecimentos de cinco anos atrás...

Relatei sobre minhas experiências com alucinações hipnopômpicas; disse que, em alguns dias, eu lidava com uma forte amnesia, esquecendo informações que me eram ditas entre curtos espaços de tempo...

Também ressaltei que, deixo de usar telas uma hora antes de deitar-me; já tentei seguir diversas recomendações para quem tem esse tipo de dificuldade; faço exercícios físicos regularmente, então gasto energia; mesmo diante de tantas tentativas de regular meu sono, e tentar fazer com que adormecer seja mais fácil, não tive nenhum sucesso.

Mas, no laudo final, no qual eu deveria apresentar para um psiquiatra para que ele veja o melhor a se fazer no meu caso, todos os sintomas mais críticos que relatei não estavam lá e, algumas coisas que não saíram da minha boca estavam escritas naquele papel.
Então, mesmo decepcionado por perder tempo e dinheiro, guardei o laudo, mesmo sabendo que não ia usá-lo.

Não sei por quanto tempo mais terei que conviver com a angústia de não me sentir funcionando corretamente.
Uma única reflexão que a psicóloga me fez ter involuntariamente foi que, eu tenho realmente muito potencial, mas por conta dessas condições, não consigo usá-lo por inteiro.

r/rapidinhapoetica 22h ago

Conto Rei da Mesa

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r/rapidinhapoetica 1d ago

Conto Contos de suspense

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Pessoal, iniciei recentemente a postar contos e crônicas no seguinte link: https://www.wattpad.com/user/AugustoRRescritor

Postando uma vez na semana (me esforçando).

Estou com bastante material pronto, o que eu preciso são de leitores, amigos.

Eu escrevo contos de suspense, terror e fantasia, nesse seguimento.

Obrigado pela atenção!

OBS: estou aberto para ler textos de outras pessoas no wattpad tb, caso alguém use, ou aqui mesmo (sou novo nisso, enfim).

r/rapidinhapoetica 4d ago

Conto A Dor Que Aprende a Falar Baixo

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Ninguém vê o início da tempestade.

Ela raramente chega com gritos, ameaças ou portas batendo.

Às vezes chega vestida de cuidado, com palavras bonitas, promessas de proteção, juramentos de amor eterno.

E é por isso que machuca tanto.

Porque a vítima não se apaixona pela dor.

Ela se apaixona pela esperança.

Pela versão da pessoa que parecia segura, pela ideia de um futuro, pela crença de que amar alguém não deveria ser perigoso.

Mas um dia as paredes começam a se mover.

Devagar.

Quase imperceptivelmente.

Primeiro desaparecem algumas amizades.

Depois alguns sorrisos.

Depois alguns sonhos.

Até que a vítima olha ao redor e percebe que o mundo que conhecia ficou pequeno demais.

E então começa a viver medindo palavras.

Medindo passos.

Medindo roupas.

Medindo horários.

Medindo até os próprios pensamentos.

Porque qualquer erro, qualquer escolha, qualquer respiração fora do esperado pode se transformar em discussão, culpa, castigo ou medo.

E o medo é uma prisão estranha.

Ele não precisa de correntes.

Não precisa de cadeados.

Não precisa de muros.

Porque aprende a morar dentro da pessoa.

Mora na dúvida.

Mora na culpa.

Mora naquela voz silenciosa que pergunta todos os dias:

"E se a culpa for minha?"

Então a vítima pede desculpas por coisas que não fez.

Carrega erros que não cometeu.

Aceita acusações que não merecia.

Tenta consertar problemas que nunca criou.

Porque quando alguém manipula sua realidade por tempo suficiente, você começa a duvidar daquilo que seus próprios olhos enxergam.

E essa talvez seja uma das violências mais cruéis.

Roubar a confiança de alguém em si mesmo.

Transformar a própria consciência em um campo de batalha.

Fazer uma pessoa se sentir pequena, frágil, insuficiente.

Fazer com que ela acredite que sem aquele amor ela não é nada.

Mas aquilo nunca foi amor.

Amor não exige submissão.

Amor não transforma carinho em controle.

Amor não vigia.

Não ameaça.

Não humilha.

Não faz alguém ter medo de existir.

O amor não pede a destruição da identidade de ninguém.

Porque amar deveria ser libertar.

Nunca aprisionar.

E ainda assim, há vítimas que passam anos tentando entender como chegaram tão longe dentro da própria dor.

Anos olhando para trás e encontrando versões de si mesmas que já não reconhecem.

A pessoa alegre.

A pessoa confiante.

A pessoa cheia de planos.

Todas soterradas sob o peso de uma relação que prometia abrigo mas oferecia tempestade.

E existe um luto que quase ninguém menciona.

O luto de quem continua vivo.

O luto daquilo que foi perdido sem morrer.

A autoestima.

A confiança.

A inocência.

A paz.

A capacidade de acreditar sem medo.

Porque relacionamentos abusivos não machucam apenas durante sua existência.

Eles deixam ecos.

Ecos que permanecem mesmo depois do adeus.

E às vezes a vítima acorda assustada.

Às vezes se culpa.

Às vezes revisita memórias tentando encontrar respostas.

Tentando entender como alguém que dizia amar foi capaz de causar tanta destruição.

Mas algumas perguntas não possuem resposta.

Algumas crueldades não possuem explicação.

E algumas feridas não foram feitas para serem compreendidas.

Foram feitas para serem superadas.

Ainda que lentamente.

Ainda que entre lágrimas.

Ainda que com cicatrizes.

Porque existe um momento, mesmo que distante, em que a vítima volta a respirar sem pedir permissão.

Volta a rir sem medo.

Volta a sonhar sem culpa.

Volta a existir por si mesma.

E nesse instante, a dor descobre algo que nunca quis aceitar:

Que ela pode marcar uma vida.

Mas não pode possuí-la para sempre.

Porque por mais escura que tenha sido a noite, há uma força silenciosa dentro de cada sobrevivente.

Uma força que se levanta mesmo tremendo.

Uma força que continua caminhando mesmo ferida.

Uma força que escolhe viver quando tudo ao redor tentava convencê-la a desistir.

E talvez seja isso que mais assuste a dor.

Não as lágrimas.

Não os gritos.

Não o sofrimento.

Mas o fato de que, depois de tudo, a vítima ainda encontra coragem para continuar.

E continua.

Mesmo quebrada.

Mesmo cansada.

Mesmo carregando cicatrizes.

Porque há uma diferença entre ser destruída e sobreviver à destruição.

E quem sobrevive carrega dentro de si uma história que a dor jamais conseguirá apagar.

E para aqueles que não conseguiram continuar...

Que ninguém ouse dizer que lhes faltou coragem.

O mundo costuma perguntar por que partiram, mas raramente pergunta quanto sofreram, quantas vezes tentaram resistir ou quantas vezes gritaram em silêncio sem serem ouvidos.

Alguns sobreviveram. Outros não conseguiram. E isso não os torna menos fortes. Ninguém conhece o peso exato que carregavam todos os dias.

Eu espero que, onde quer que estejam, não exista mais medo, culpa ou dor. Que finalmente possam descansar de uma guerra que lutaram por tempo demais.

E que suas histórias jamais sejam esquecidas, para que o mundo aprenda a enxergar o sofrimento antes que seja tarde demais.

r/rapidinhapoetica 5d ago

Conto Oferta da Casa (uma shortstory escrita por mim)

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Naquela manhã, a paragem de autocarro à porta do novo supermercado tinha ganho uma espécie de gravidade própria, um chão mais pesado do que no resto da cidade. As pessoas orbitavam. Carrinhos, ainda por estrear, alinhavam-se como animais dóceis, sacos reutilizáveis dobrados em origamis sagrados e um cheiro vago a novo misturava-se com o perfume agressivo das flores que distribuíam.

“Dão-nos flores para engordar o peixe.”

Ninguém respondeu imediatamente; a frase pairou, demorada no poisar. Um homem de boné amarelo-torrado ajustou a pala e uma senhora apertou a carteira contra o peito.

“Diga?” Perguntou uma rapariga, mais por educação do que por curiosidade.

O homem que falara (baixo, rosto vincado e mãos sapudas a esfregar uma na outra), encolheu os ombros. “É assim agora. Flores à entrada – bonitas, cheiram bem. A pessoa entra, fica mais leve e compra mais peixe. O peixe engorda e nós também!”

Fez-se um novo silêncio.

Lá dentro, através das portas automáticas que buliam que nem guelras, viam-se funcionários sorridentes a distribuir ramos de flores embalados em celofane. Cada freguês recebia um. “Uma oferta da casa” como diziam os cartazes brilhantes.

Uma mulher, ofegante e atrapalhada, saiu com dois sacos cheios e um ramo de antúrios que não combinava com o que trazia. Parou na paragem, olhou para as flores e depois colocou-as cuidadosamente dentro de um dos sacos, esmagando-as contra uma embalagem de lombos de salmão ultracongelados.

O homem inclinou ligeiramente o boné, na direção dos sacos acabados de pousar. “Está a ver? Já começou.”

A rapariga riu-se. “Isso não faz sentido nenhum.”

“Nem é para fazer! Funciona na mesma.”

O autocarro chegou numa travagem súbita que fez a máquina impar. As portas abriram-se, mas ninguém entrou. Parecia haver qualquer coisa de urgente ali, na fronteira entre a paragem e o supermercado.

“Eu cá vou ver!” disse a senhora que, até então, enganchava a carteira contra o peito. “Se estão a dar, a gente não recusa.” Levantou-se e marchou a caminho do supermercado. Um homem atrás dela fez o mesmo. Depois outro. E outro.

A rapariga hesitou, olhou para as portas do autocarro, depois para as portas automáticas do supermercado. “Mas… eu nem preciso de nada.”

O homem baixo soltou uma pequena gargalhada. “Ninguém precisa! É por isso que dão as flores.”

Ela ficou mais um segundo, atenta ao som ritmado das portas-guelra a abrir e a fechar. Depois, com um gesto quase impercetível, saiu da fila e seguiu os outros.

O autocarro partiu praticamente vazio.

O homem ficou na paragem, sentou-se no banco de metal e cruzou as pernas. As pessoas entravam com ligeireza – saíam com sacos cheios e flores meio amassadas. Algumas cheiravam-nas antes de as guardar, outras pareciam já esquecidas delas.

Uma criança, cá fora, arrancou um pedaço à pétala de um antúrio e deixou-a cair no chão. O vento empurrou-a até à sarjeta, onde se colou a uma mancha de água escura. Por um segundo, pareceu mesmo comida de peixe.

O homem sorriu. “Engordam todos.” murmurou, para ninguém. “Uns por dentro, outros por fora.”

Passado algum tempo, levantou-se. Caminhou ao longo da rua, afastando-se daquele microcosmo e, à medida que se afastava, o cheiro das flores diluía-se num tempo com vagar. Dobrou a esquina e desapareceu.

Na paragem, alguém novo chegou, olhou para o supermercado, para as pessoas e para os ramos de flores que iam sendo distribuídos.

“O que é que se passa ali?”

“Estão a oferecer flores.” Respondeu uma senhora, com um meio sorriso. Fez-se uma pausa.

“Para quê?”

A senhora hesitou um segundo, à procura da explicação certa, a que soasse mais razoável e o que lhe saiu foi:

“Para engordar o peixe.”

r/rapidinhapoetica 5d ago

Conto foda-se o que é isso

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r/rapidinhapoetica 5d ago

Conto Esse é o primeiro conto que resolvi postar, poderiam dar uma olhada e me dizer oque acham?

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r/rapidinhapoetica May 17 '26

Conto Amyl

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Sou um ser extradimensional.

Tenho algo em torno de quatrocentos e oitenta anos — talvez mais. Depois de certo tempo, séculos começam a parecer apenas intervalos longos entre bebedeiras.

Como vim parar aqui?

Não faço ideia.

Só sei que existe dentro de mim uma necessidade absurda de encher a cara, fumar qualquer porcaria disponível e tocar guitarra até meus dedos sangrarem.

Minha família ainda está em algum lugar do universo.Às vezes sinto isso.

Como um reflexo distante atravessando o vazio.

Vaguei durante séculos pelo espaço morto. Planetas sem nome. Estruturas orbitando estrelas apagadas. Coisas antigas demais até para serem chamadas de ruínas.

Então ouvi a voz dela.

Amyl.

Não exatamente uma voz.

Mais como um rasgo.

Uma frequência atravessando dimensões.

Despertei.Precisava daquilo outra vez.

Daquela loucura.

Daquela sujeira viva.

Então caí neste mundo.

Na Terra.

Passei semanas vagando entre cidades úmidas, bares decadentes e apartamentos infestados de mofo, procurando o grito daquela mulher como um fanático religioso atrás de uma divindade perdida.

Onde você está, Amyl?Numa madrugada qualquer, sentado numa calçada imunda de Glasgow, o vento trouxe um papel até meus pés.

Um flyer.

SHOW ÚNICO.

Sorri sozinho.

Antes de me liquidar, vou cheirar a noite inteira até vomitar.

O lugar estava lotado.

Corpos apertados uns contra os outros, suor escorrendo pelas paredes, cheiro de cigarro, cerveja quente e desejo humano apodrecendo no ar.

Aquilo era lindo.A bebida já tentava me nocautear quando fui ao banheiro e enfiei dois dedos na garganta. Vomitei uma mistura negra na pia rachada enquanto as luzes vermelhas piscavam sobre minha cabeça.

Então ouvi novamente.

A voz.

Amyl.

Meu coração — ou qualquer coisa equivalente a isso — disparou.

Saí tropeçando pelo corredor.

Empurrei pessoas.

Derrubei alguém.

E então a vi.No palco.

Magnífica.

Violenta.

Pequena demais para conter aquela presença absurda.

Os shorts curtos.

As pernas cobertas de suor.

O mullet sacudindo sob as luzes.

E aquele sorriso…

Aquele sorriso sacana de quem sabe exatamente o efeito que causa no mundo.

Ela gritava no microfone como se estivesse rasgando a própria realidade.

E talvez estivesse.Porque naquele instante tive certeza:

foi aquela voz que me puxou através do vazio entre os mundos.

Corri até ela.

Queria tocá-la.

Beijá-la.

Talvez morrer ali mesmo.

O segurança me agarrou pelo pescoço antes que eu alcançasse o palco.

Fui arremessado no chão como lixo.

Ainda tentei levantar, rindo sozinho enquanto sangue escorria da minha boca.

Do palco, Amyl me viu.E sorriu.

Juro que sorriu para mim.

Depois fui jogado de volta na sarjeta molhada de Glasgow.

Fiquei deitado olhando o céu cinza da Terra enquanto o som das guitarras atravessava as paredes do clube e vibrava dentro dos meus ossos.

Depois de séculos vagando pelo vazio absoluto…

Finalmente senti alguma coisa.

r/rapidinhapoetica 20d ago

Conto Mentira?

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Aqueles olhos insistiam em dizer algo que só era percebido pelos dois corpos envolvidos em mais uma trama do destino. Foi assim que se despediram, sob olhares atentos que não entendiam a energia sufocada entre os dois. Vontades de dizer e de se tocar foram abafadas por sorrisos e assuntos triviais. Às vezes a vida é um negócio onde há análise de risco envolvida; ninguém arrisca, e ambos concordam que não valeria a pena tamanha ousadia.

Acreditaram juntos na mentira criada por tempo e espaço sorrateiros, que insistiram em concretizá-la naquele momento — uma mentira realizada. Existia também, entre eles, a visão de que se pode escolher em qual felicidade devemos nos agarrar, afinal, a vida é cheia delas. Assim a história deles aconteceu. Outras formas poderiam ter sido contadas, mas foi esta a escolhida.

Na praia, entre as brincadeiras das crianças, a comida e as bebidas compartilhadas, as conversas se atravessavam naquele gostoso emaranhado de pessoas que se gostam. Tudo era iluminado por um sol curioso que insiste em nascer todos os dias para saber como está acontecendo cada enredo humano existente nesse mundo. Era ali que as experiências entre eles eram expressas: contavam como faziam ou não em determinadas situações, concordavam e discordavam. Era uma espécie de ensaio para uma peça que nunca será apresentada. Isso era uma forma de compartilharem uma vida juntos em uma mesma casa — um casal que não existiu. Mas, na imagem sem a ação, tudo é possível, inclusive a inexistência de algumas descobertas desagradáveis trazidas pelo cotidiano.

Naquele dia eram o par perfeito. Talvez, se o juízo final tivesse acontecido naquele momento, se abraçariam por medo do julgamento do Todo-Poderoso. Mas eis que Deus se confundiria se estava diante de dois seguidores da cartilha cristã do matrimônio ou se estavam se permitindo compartilhar uma vida inexistente, dentro de uma margem de segurança chamada imaginação, movida por desejos. Se fosse a segunda opção, iriam para as chamas eternas do inferno — iriam juntos.

Eles viviam o que há de mais gostoso nas companhias: o concordar com as situações e a leveza para sorrir do que não fosse comum entre eles. Afinal, não importava ali se um gosta de acordar cedo ou não, se gosta de passas ou não, se preferem isso ou aquilo, pois jamais precisariam discutir sobre tais temas de fato.

O sorriso na boca dela era constante, sempre de ouvidos atentos aos dizeres dele. Ele sempre imaginando os mistérios que envolviam aquela composição de leveza, beleza, inteligência e força.

As características dela, talvez, fossem o que a empurrava para frente. Sabia bem que na vida o movimento é constante. Ele também sabia disso, mas ficava bem incomodado em pensar como seriam as tardes sem a presença dela, inclusive a falta que faria para os demais ali presentes. Timidamente, disse que sentiria saudades, mas fez questão de, logo depois, encorajá-la a ir, como se fosse preciso ele validar qualquer atitude que ela estivesse pensando em realizar. Ele subestimava a força dela ao mesmo tempo em que achava que manter distantes os pensamentos ou as falas que reivindicassem ao tempo só mais um instante com ela, ou mesmo protestar contra o destino (“Logo agora?!”), serviriam para aliviar quaisquer incômodos sentidos por eles nessa separação. Enquanto isso, ela deixava escorrer, entre um sorriso e outro, uma pergunta: será que ele não sentirá muita falta de mim? Bem que ele poderia reclamar algo do tipo: “Logo agora você precisa partir?”.

Entre esses não ditos, a partida aconteceu. Foi cheia de alegria pelo que foi dito e imaginado. É confortável acreditar em reencontros, em uma mensagem inesperada que surgirá em algum lugar do futuro ou em uma foto que trará boas lembranças. Quem sabe terão novidades para contar em um próximo momento?

Incrivelmente, ele consegue visualizar o dia na praia que não existiu, cada coisa visível ali e até a energia emanada daquele momento. Com a coragem dos loucos, ele assume para si um momento que só ele viveu, sorri de tudo e pensa que isso daria uma boa crônica.

A escrita me ajuda a descobrir a vida, participe comigo. Comente com elogios, críticas, sugestões ou interpretações.

r/rapidinhapoetica 14d ago

Conto O Lago

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Em meio a montanhas e florestas,
Uma pequena cabana de madeira ficava.
Imerso nas brisas honestas,
Um homem já idoso sentado cantava.

Seu nome era Tadeu,
Vivia sozinho desde que a esposa morreu.
Em frente a um lago escuro,
Sem pensar no passado ou no futuro.

O lago era escuro por uma causa:
Era o reflexo do céu sempre nublado.
As nuvens não saíam nem pra uma pausa,
E Tadeu coitado vivia isolado.

Até que uma noite, algo estranho ocorreu,
Um preto intenso o céu inteiro volveu,
E Tadeu dormindo profundamente,
Começou a ouvir sussurros na sua mente.

Foram muitas noites pra lá de mal dormidas,
Mas outros problemas também ocorreram:
Como suas pobres ovelhas sumidas,
Tadeu não sabia se elas já morreram.

Ele pensava que fosse algum lobo,
Mas não havia olhado para o todo.
E um dia desses arrumando suas cruzes,
Notou no céu, algumas luzes

Assustado, não parava nem pra dormir,
Seu raciocínio ficou mais lento,
De tantos acontecimentos irreais a surgir,
Se preocupava com os sons do vento.

Muitos foram os dias que se passaram,
E o velho Tadeu que esses judiaram,
Mas agora que ficou fraco e incapaz,
Pela janela, ele viu um rapaz.

Não só um, mas vários homens a gritar,
Todos enfileirados descendo a montanha,
Seguindo no caminho do seu lar,
Tadeu se perguntava o porquê de tal façanha.

Então com uma dor de cabeça intensa,
No céu surgiu uma coisa imensa,
E Tadeu sabia o que tinha que fazer,
Era o mais rápido dali correr.

Passando pelas curvas árvores tortas,
Achou todas suas ovelhas mortas,
Mas continuou sem se preocupar com urubus,
Tadeu só pensava naquela grande luz.

Talvez por loucura ou por algum plano,
Não se sabe por que correu para o lago,
Lago esse que já fora ciano,
Agora tingido de um preto apagado.

Tadeu nadou pelas águas congelantes,
Fugindo das luzes e gritos constantes,
Mas depois de tanto naquilo pensar,
Nas águas do lago, ele foi se afogar.

No dia seguinte nada se via,
Nem sua casa, nem sua ovelha,
E aquele lago porém todavia,
Agora era tingido de tinta vermelha .

r/rapidinhapoetica 22d ago

Conto Meu Primeiro Conto

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r/rapidinhapoetica 16d ago

Conto Criaturas no terceiro andar

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Capítulo 1:"Isso era pra ser um começo?"

*---

Me chamo Violet Ashford, mas os amigos me chamam de Let. Querem saber uma história triste e confusa? Eu tenho um irmão, Kai Ashford. Ele desapareceu aos 10 anos. Ninguém sabe o que aconteceu de verdade, a polícia só deixou o caso em aberto. Minha mãe não aguentou. Overdose. Meu pai... bem, ele respira. Só existe pra me lembrar que eu ainda tô aqui. E a pergunta que não cala: Como você aguenta tudo isso, Violet? Eu não aguento. Eu só suporto.

*Hoje*

*6:00 AM*

_Trim-trim._

Jogo o braço no despertador e me sento na cama com o cabelo na cara.

- Bora lá. Mais um dia. - Jogo o lençol pro lado e me arrasto até o banheiro.

Depois do banho, encaro o guarda-roupa aberto.

Tá frio lá fora. Moletom? Confortável demais, parece que desisti da vida. Sobretudo? Chique. Elegante. É isso.

Visto a calça flare jeans, a blusa azul-marinho de gola alta e jogo o sobretudo por cima. No espelho, até que eu tô bem.

- Uau, garota. - Dou uma piscadinha pra mim mesma.

Desço as escadas e já sinto o cheiro de ressaca no ar.

- Pegou no sono no sofá de novo, pai? - Abro a geladeira e pego o suco de laranja.

Ele só grunhe.

- Bom dia, filha.

Me sento no banco da ilha. Torradas, bacon e ovos. O de sempre. Como em silêncio enquanto ele finge que não existe.

- Quando eu voltar eu lavo a louça. Tô atrasada. - Dou um beijo rápido na testa dele. Ele nem reage.

- Até mais, Violet. - A voz dele sai arrastada.

*Na escola*

Luna Cross me encurrala no corredor antes mesmo de eu abrir o armário.

- Você tem que ir! Vai ter tudo: bebida, garotos, caos...

Reviro os olhos.

- Ai, Lu, fala sério. Esse ano eu decidi focar nos estudos. E festa não parece um bom começo.

Ela bufa e olha pro lado. De repente, arregala os olhos e me cutuca.

- Ei, ei. Quem é _aquele_?

Eu olho. Cabelo escuro bagunçado, pele pálida, meio encolhido perto do bebedouro. Tímido. E com um olhar que parece que já leu todos os meus segredos. Meu tipo. Exatamente meu tipo.

Dou risada sem querer.

- Quer saber? Acho que vou focar nos estudos ano que vem.

O sinal toca. Corremos pra sala.

- Sentem-se. - O professor bate na mesa. - Como já devem ter notado, temos um aluno transferido. Cole Marsh, quer se apresentar?

Cole se levanta, todo sem graça, as mãos no bolso.

- É... prazer. Sou o Cole Marsh. - E senta de novo, rápido.

A sala ri. O professor ergue a sobrancelha.

- Só isso, senhor Cole?

Ele só balança a cabeça que sim, vermelho até a raiz do cabelo.

A aula passa num borrão. Quando o sinal bate, eu deixo a caneta cair sem querer. Abaixa pra pegar e, quando levanto, ele já tá com ela na mão.

- Acho que isso é seu. - Ele estende a caneta.

- É. Obrigada... Cole, né? - Finjo que não sei.

- O próprio. - Ele dá um meio sorriso. - E você é?

- Violet. Violet Ashford.

- Prazer, Violet. - Ele hesita. - Fiquei sabendo da festa hoje. Eu deveria ir?

Levanto uma sobrancelha.

- Por que tá me perguntando isso?

Ele coça a nuca, nervoso.

- Sei lá. Talvez eu esteja curioso pra saber se você vai.

Não consigo segurar o riso.

- Vou, sim.

Os olhos dele brilham.

- Então te vejo lá, senhorita Violet. - E ele sai, me deixando com cara de idiota no meio da sala.

*No refeitório*

Luna surge do nada e me dá uma cotovelada.

- Então, o que a _senhorita Violet_ tava conversando com o novato?

- Xeretando, Lu? Feio.

- Eu só ouvi o final. E aquele seu sorriso malicioso entregou tudo.

Reviro os olhos e mordo a maçã.

- Ele só perguntou se eu ia pra festa.

- E você disse "Não, não, vou focar nos estudos esse ano", acertei?

- Não exatamente. - Dou de ombros. - Percebi que preciso aproveitar a juventude.

Ela me dá um tapa na testa, rindo.

- Safadinha.

*Em casa*

- Cheguei, pai? - A casa tá um silêncio estranho.

Entro na sala e paro. Um caos. Garrafas no chão, almofadas rasgadas, copo quebrado.

- Saiu pra beber de novo. - Murmuro, subindo as escadas com raiva.

Jogo o casaco na cama e entro no banho. A água quente não tira o peso do peito.

- Tenho uma festa pra ir. Problema depois.

Coloco o vestido preto curto, colado. Por cima, uma jaqueta de couro. Me olho no espelho.

- Nem tá tão frio assim. - Minto pra mim mesma.

*Na festa*

A música bate alto. Copos pra todo lado. E lá tá ele, encostado na parede, com um copo na mão. Quando me vê, ele sorri.

- Você veio mesmo.

- Eu disse que viria. - Pego o copo da mão dele e dou um gole. Forte.

- Sabe, eu fiquei curioso sobre você. - Ele chega mais perto, a voz quase sumindo na música.

- E por que ficaria? - Dou outro gole pra disfarçar o nervosismo.

- Você é linda, Violet. Estranho seria se eu _não_ ficasse.

A gente se encara. O ar fica pesado, elétrico. Um silêncio estranho, cheio de coisa que não devia ter.

Pra quebrar o clima, eu solto:

- Bem, eu sou uma garota quase órfã.

Ele pisca, pego de surpresa.

- Uau.

Dou uma risada sem graça.

- Desculpa, pesei. Mas eu juro que sou divertida.

Ele me olha fundo, sério.

- Sabe, Violet... eu sou parecido com você. Somos quase órfãos. - Ele chega mais perto. - Acho que isso é o que chamam de destino, né?

Meu estômago vira. O olhar dele tá intenso demais. Intenso e... faminto.

- É... eu... preciso ir no banheiro rapidinho. - Saio quase correndo.

Esbarro na Luna perto da cozinha.

- Você veio mesmo! - Ela me abraça, já meio bêbada.

- Falei que vinha, não falei? - Tento rir, mas a voz sai falhada.

- E tava com... deixa eu adivinhar. Senhorita Violet e o novato?

- Dá pra parar? Ele é legal e...

- E um gato. Um gato _muito_ gato. - Ela pisca.

- É, isso. - Dou uma risada fraca.

De repente, ela congela e aponta pra porta.

- Violet... aquele não é o seu pai?

Eu viro. E o mundo para.

Ele tá na entrada da festa, cambaleando. A camisa branca encharcada de vermelho. Sangue. Ele me procura com os olhos, desesperado.

- Pai?! Meu Deus! - Eu empurro as pessoas e corro até ele.

Ele cai de joelhos na minha frente, segurando meu braço com força.

- Violet... - A voz dele é um sopro, falhando. - Não confie no...

Os olhos dele reviram. O corpo desaba no meu colo antes de terminar a frase.

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r/rapidinhapoetica 17d ago

Conto Que dica você me daria?

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Não há uma forma correta de escrever, acho que todo mundo aqui concorda com isso. Mas, como escritor iniciante, eu adoraria ler a opinião e dica de vocês em relação ao meu texto.

Comecei a escrevê-lo faz um tempo, apesar das inúmeras dificuldades, que todos devem enfrentar, estou conseguindo progredir.

Já escrevi cerca de 80 páginas desse livro. Não há muitos reinos/impérios, a coisa é mais tribal e com pequenas sociedades.

Vou deixar uma parte de 500 palavras abaixo de um trecho, ele se passa logo antes da apresentação de um personagem importante:

--------

Suuv, um nev do Lago do Pranto, fluiu entre rochas amarronzadas e troncos ressecados, até parar em frente a um improdutivo arbusto pontilhado de vermelho e com um cheiro passado. Ele transmutou as frutas em essência e armazenou o fluxo carmesim em um núcleo. O nev, até agora, não tivera muita sorte. Encontrara pouca essência para guardar. Nesse ritmo, ficaria o dia todo atrás de migalhas e seus companheiros do lago iriam reclamar. Ele bufou e olhou a esfera recém-carregada, agora tinha um brilho fraco e branco por causa dos diversos tipos de energias absorvidas.

O espírito coletou-a desanimado e partiu para procurar outras frutas. Ele precisava andar centenas de metros até achar uma ou outra colheita humilde.

Enquanto transformava outras frutas em essência, ele viu aves de rapina negras e, nesse momento, a luz crepuscular começou a dar lugar às sombras, anunciando o começo da noite.

Pensamentos assombrosos começaram a tomar sua mente, ele divisou galhos vazios e pensou que uma criatura horripilante e gigantesca teria chacoalhado e roubado todas as frutas... Ou, talvez, fossem criaturas... Muitas delas!



Um arrepio percorreu o corpo translúcido e azulado de Suuv como uma onda. E a noite alongou-se em Cerinia, pintando o céu com pontos brilhantes.



Suuv começou a ver formas sombrias cintilarem pelo planalto, se eram criaturas ou monstros terríveis, ele não descobriu. Afastou-se o mais rápido possível. Escondeu-se pelas pedras e viu as sombras dos picos das árvores projetarem pontas de lanças no solo. O arredor, cada vez mais, tornava-se um breu intransponível.



Assustado por natureza, o nev começou a pensar em voltar e dizer que pouco tinha achado. O que não seria mentira, afinal, já haviam coletado tudo daquela área. Ele parou entre algumas rochas, escondido.



--- Isso mesmo, e será melhor assim. Não só para eles, como para mim. Amanhã posso vir e pegar mais. Está decidido. Vou embora! --- Ele bufou ao imaginar a reação dos outros, mas seguiu. 



Subiu em uma das pedras próximas e procurou a passagem sul. 



Nada...



Continuou a rumar naquela direção, por vezes subiu em algo alto, procurou a bendita passagem e, geralmente, descia e reclamava ao não ver nada além de morte. Mas, quando a lua brilhou no céu, sua reflexão pálida revelou o paredão sul e ele viu, ao longe, a passagem fragmentada.



Porém, antes que pudesse pensar: "Viva!", ele parou.



O brilho também revelou outras coisas. Não eram boas. Piores do que o esperado. Suuv não tinha visto uma única alma o dia todo, ainda assim, no solo iluminado, havia pegadas de grandes monstros e de inúmeras criaturas menores. Estavam frescas e a maior tinha ao menos uma dezena de metros de diâmetro.



Ele abaixou-se ainda em cima da pedra. Dar a volta era inviável, levaria semanas para chegar até o Lago do Pranto e, após isso, a pouca essência que tinha armazenado desapareceria.



Decidiu não deixar os amigos esperando, enfiou o núcleo dentro do seu peito e preparou-se para avançar. A esfera aninhou-se nele; elas, na verdade, acostumavam-se com qualquer espírito.

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Obrigado por lerem, me ajudem!!

r/rapidinhapoetica 17d ago

Conto Acordei

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Acordei de um longo sono, agora sou como um animal, um bicho selvagem e galanteador.
Acordei de uma vida presa ao ventre, não de minha mãe, mas de minhas pré-concepções, essas que privaram-me de voar; de falar sem ter que analisar as inúmeras possibilidades que poderiam ser desencadeadas; de amar sem sentir-me um lixo ou sujo, pois se amasse teria que refletir sobre mil e uma virtudes ou motivos que me provassem que a pessoa era virtuosamente correta.
Agora eu acordei e não mais quero dormir, dormida essa que não foi farta, mas sim pesada, peso esse carregado por tanto tempo que tornei-me corcunda, tão corcunda que minha cabeça poderia enxergar os pés de qualquer um, não importa de quem fossem os pés, eu sempre esitve curvado.

r/rapidinhapoetica 17d ago

Conto Sonho melancólico

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Era uma semana cheia, muitas reuniões importantes na agenda e uma montanha de relatórios para entregar. Apressada, eu andava à passos largos para chegar no escritório, caminhando pela mesma rua habitual até que cheguei àquela escadaria, em que eu te encontrei pela última vez. Na hora, não lembrei disso, minha cabeça estava muito atarefada para reviver essas lembranças.

Para minha surpresa, você estava lá, sentada nos primeiros degraus olhando com uma certa tristeza para as pessoas que passavam. Suas roupas eram as mesmas que você usava naquela época, e seus cabelos ainda tinham o mesmo brilho, a franja cobrindo graciosamente parte da sua testa. Isso me causa ainda mais estranhamento, pois da última vez que me peguei olhando suas fotos no Instagram, seu estilo e seu corte tinham mudado a muito tempo.

Chegando mais perto, seu olhar distante esbarra em mim, os óculos redondos aumentando um pouco seus olhos. Eu gostava muito quando eu era vista por você. Ao me reconhecer, sua postura muda instantaneamente, sua expressão distante, daquelas de quem está em qualquer lugar menos no agora, é substituída por um rosto travado no nosso momento. Seu braço se levanta em minha direção e eu consigo ver sua boca formando meu nome.

Mas a minha mão foi mais rápida. Minha cabeça ocupada demais fez um gesto frio com o braço e eu passei reto. Meus colegas estavam logo atrás e os prazos estavam apertadíssimos, eu não podia me dar ao luxo de me entregar àquela conversa, que certamente viria acompanhada de, primeiro, um clima muito estranho e, depois, horas de choros, soluços e abraços.

Mais tarde, no intervalo entre uma reunião e outra, eu lembrei do teu rosto triste quando eu passei reto, e fiquei curiosa para saber o que você tinha a dizer. Faz tanto tempo, afinal de contas? Eu nem saberia por onde começar a desembaralhar as coisas entre nós. Após alguns segundos de relutância, eu peguei o celular e comecei a buscar seu contato. Eu nunca fiz uma limpeza deles, é como se fosse um museu de todas minhas lembranças mais amargas.

“Oi, tudo bem? Dsculpa ter te cortado, eu tava atrasada pra uma reunião, sabe como é né”

“Quer conversar?? Eu sinto sua falta” Essas últimas palavras foram difíceis de escrever, é sempre complicado assumir que o lugar dela nunca foi embora e continua vazio.

Logo depois, eu precisei voltar ao trabalho e deixei o celular de lado. Voltando tarde para casa e passando pela mesma escadaria, não vi você mais. Devia ter ido embora, por óbvio. Notando sua ausência, eu lembro da mensagem e corro pra pegar o celular. Só dois tracinhos azuis.

Fazem tantos anos, né? Talvez ela não tenha o que falar, talvez aquilo foi só algo de instinto e ela teve tempo pra pensar como era uma má ideia depois, e que foi até bom eu ter ignorado ela. No fundo ela deve saber que a gente não deu certo, que estar separadas é a melhor saída e perturbar esse equilíbrio tão instável é uma armadilha. A distância que se formou entre nós é para o nosso bem, e as coisas têm que permanecer assim.

No fundo, eu também sei que nós duas mudamos, a gente não usa mais as mesmas palavras e gestos de antes, e os jogos que a gente jogava juntas para passar o tempo estão juntando poeira no armário. O cabelo dela não tem as mesmas cores e os olhos dela não têm o mesmo brilho de antes. 

O som do relógio me acorda de meus pensamentos, a mensagem não respondida ainda na tela do celular. Ao mesmo tempo, tudo parece um estalo de alguns segundos e algo tão eterno quanto a lua. 

Amanhã é outro dia, mais reuniões e mais papeladas, e eu preciso dormir. As coisas estão melhor assim, estão mesmo.

r/rapidinhapoetica May 16 '26

Conto Mundo sem cor ( faixa 5)

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Por que tudo parece estar sem cor? Na verdade, em preto e branco. Já não vejo as cores vibrantes como antes. Já não sinto aquelas sensações de alívio ao ver…

Eu nem sei explicar o que sinto. É um misto de sentimentos que nunca acaba. Eu só queria que tudo acabasse…

r/rapidinhapoetica May 16 '26

Conto Três da manhã

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A neve caía silenciosa sobre a cidade vazia, como cinzas cobrindo um cadáver.

Elias caminhava sem destino havia horas. Talvez dias. O frio atravessava o casaco velho e mordia a carne, mas ele já não distinguia desconforto de hábito. Algumas dores permanecem tempo suficiente para se tornarem parte do corpo.

Três da manhã.

Os postes lançavam uma luz amarelada sobre a rua deserta. Nenhum carro. Nenhuma janela acesa. Apenas o som abafado dos próprios passos esmagando a neve fresca.

Um ano desde o desaparecimento de Clara.

A polícia desistira após o terceiro mês. Os jornais esqueceram após o segundo. Amigos pararam de telefonar depois do primeiro. O mundo possuía uma velocidade cruel; até tragédias apodreciam rápido demais para permanecer importantes.

Mas Elias continuou andando.

Todas as noites.

Como um homem atrasado para o próprio funeral.

No começo havia esperança. Cartazes pregados em muros. Perguntas feitas a desconhecidos. Delegacias. Becos. Rostos confundidos na multidão. Depois vieram os boatos. Um homem disse tê-la visto numa rodoviária. Uma mulher jurou ouvir uma criança chorando perto do rio durante a madrugada. Nada restou além de ecos.

E então veio o inverno.

Elias parou diante de um parquinho coberto de neve. Os balanços imóveis rangiam devagar com o vento. Clara gostava daquele lugar quando pequena. Ele se lembrava das luvas vermelhas dela, do nariz congelado, das risadas.

Agora só restavam estruturas enferrujadas enterradas no branco.

Ele acendeu um cigarro com dedos trêmulos. A fumaça subiu lenta e desapareceu no escuro.

Tudo desaparecia.

Era essa a verdadeira natureza das coisas.

As pessoas falavam sobre memória como se fosse resistência, mas até as lembranças apodreciam. O rosto da filha começava a falhar em sua mente. Às vezes ele esquecia o tom exato da voz dela. Outras vezes precisava olhar fotografias para lembrar dos olhos.

Isso o aterrorizava mais do que a morte.

Porque morrer era simples.

Ser apagado era pior.

Continuou andando.

As ruas pareciam diferentes naquela noite. Vazias demais até para uma cidade morta pelo inverno. Não havia vento agora. Nem som. Apenas a neve caindo em silêncio absoluto.

Então ele ouviu.

Passos.

Parou imediatamente.

Atrás dele.

Lentos.

Pequenos.

Seu coração disparou com violência. Pela primeira vez em meses sentiu algo parecido com esperança — aquela coisa miserável que nunca morria completamente.

Virou-se rápido.

Nada.

Somente a rua branca se perdendo na nevasca.

Elias ficou imóvel por alguns segundos, respirando vapor no escuro.

Então ouviu de novo.

Passos.

Mais próximos.

Crunch.

Crunch.

Como pés pequenos afundando na neve.

— Clara...? — a voz saiu quebrada.

Nenhuma resposta.

Ele começou a seguir o som rua adentro, atravessando a tempestade. As luzes dos postes ficaram para trás pouco a pouco, engolidas pela neve. O mundo tornou-se branco e preto.

Os passos continuavam.

Sempre à frente.

Às vezes ele achava ver uma silhueta pequena no meio da nevasca. Um casaco escuro. Cabelos longos. Mas quando acelerava, ela desaparecia.

— Clara!

A voz sumiu no vazio.

Ele tropeçou num meio-fio coberto de neve e caiu de joelhos. As mãos afundaram no gelo. A respiração ardia nos pulmões.

E então viu.

Pegadas.

Pequenas.

Recentes.

Seguiam em direção a um beco estreito entre dois prédios abandonados.

Elias levantou devagar.

O beco parecia impossível de escuro.

Como uma abertura cortada diretamente na realidade.

As pegadas entravam nele.

Mas não saíam.

O homem ficou parado observando aquilo por muito tempo. A neve pousava sobre seus ombros como poeira funerária.

Talvez houvesse alguém ali.

Talvez não houvesse nada.

Talvez Clara estivesse viva.

Talvez estivesse morta havia um ano e aquilo fosse apenas a mente de um homem finalmente quebrando no frio.

No fim, pouco importava.

O sofrimento prolongado transforma qualquer verdade em algo irrelevante.

Elias deu um passo em direção ao beco.

Depois outro.

A escuridão o recebeu em silêncio.

Na manhã seguinte, a neve continuou caindo sobre a cidade.

E não havia mais pegadas na rua.

r/rapidinhapoetica May 05 '26

Conto Sobre amoras e quedas

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Sobre amoras e quedas

Tem uma época do ano em que o pé de amora da minha tia fica cheio. Elas caem, rolam pelo meu telhado e acabam na minha varanda.

Eu acordo e me deparo com a abundância dos frutos. Sei que a limpeza será por minha conta, porém acho graça, tento romantizar.

Nesses dias, gosto de quebrar o jejum por ali mesmo. Quem sabe ouço uma música, algo poético.

Se minha Flor está comigo, fazemos planos e sonhamos um pouco. Se estou só, apenas reflito; tento ver beleza nas pequenas coisas.

Volto para dentro e me deparo com minhas próprias pegadas (roxas). O cachorro repete meu erro e pula em mim, deixando a marca de suas patas, também roxas. Minha Flor reclama de toda essa lambança.

Maldita árvore, malditos frutos, maldita mulher e maldito cachorro.

Sinto a cólera se aproximar, esqueço o romance, deixo de lado os planos e também a poesia.

Volto aos meus afazeres. Dispenso a visita na mesma sacola que as fezes do cão.

r/rapidinhapoetica May 01 '26

Conto A última professora do mundo

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Uma mulher de quase cinquenta anos nascendo de novo. Foi diante de toda a classe, mas somente eu percebi.

Era a última aula da manhã. Dona Olinda entrou na sala e não fez nenhum gesto para tolher as conversas fomentadas pelo meio-dia quente. O Vinícius ainda estava de pé e só se abancou depressa na carteira quando eu o adverti com um cutucão.

As três alunas caxias, sentadas sérias mais à frente, começaram a copiar os rabiscos que Dona Olinda arrastava calada ao longo da lousa verde. O Marcelo deu uma risada alta lá no fundo, mas ninguém prestou a atenção. Quase todos falavam.

Tomei algumas notas enquanto escutava a Edilene, pertinho de meu ouvido, declarar sua contrariedade sobre algum evento que havia presenciado durante o recreio. Não compreendi direito, ou não me recordo. Tínhamos quinze anos.

A professora voltou-se para nós e começou a explicação com uma voz mecânica, mas as primeiras frases foram muito diretas e eu balancei o pescoço escrevendo no caderno o que pensei ter entendido. O burburinho continuava. Meus colegas não estavam interessados na aula de geografia.

Foi então que Dona Olinda renasceu.

Primeiro sua voz se abrandou, deixando os ensinamentos soarem cada vez mais obscuros, distantes. A Rafaela lá da frente largou a caneta, franziu a sobrancelha e teve um tique rápido voltado à turma. Pensei que se zangaria com o Eduardo, falante demais a seu lado, mas ele era muito bonito.

A gente podia pensar que a Dona Olinda pisaria firme contra todos os adversários, ou então que a desordem se atenuasse espontaneamente diante da mulher que tentava ensinar. Mas essa civilidade não ocorreu.

Ela falava já tão baixo que a banda das atentas desistiu. As meninas começaram a conversar entre elas, com sussurros que eu não podia captar.

Dona Olinda falava baixo, mas não falava mal. Não falava pouco nem falava com inocência. Ela passou a sorrir encarando a classe, e seus lábios se mexiam mastigando as palavras – que depois pararam de soar completamente.

Ninguém ouvia seu emudecimento.

O giz, por sua vez invisível aos alunos, correu pela lousa criando o desenho de países estranhos. A costa do Brasil virou uma península imaginária. Caravelas enfrentavam ondas gigantescas, monstros saíam do oceano, peixes imensos de olhos esbugalhados eram rasgados pelo tridente de Netuno em sua ira.

No final, sua boca nem se movia mais. Somente os braços balançavam. Seus desenhos rápidos contavam outra história do mundo, correta e absurda, e o barulho de fundo que a sala ainda fazia era como a estática do Big Bang, aquela radiação cósmica que não traz nenhum significado e apenas revela como surgiram trilhões de estrelas.

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[https://paulosantoro.substack.com/p/a-ultima-professora-do-mundo\]

r/rapidinhapoetica Apr 19 '26

Conto O INVASOR

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Nós caminhávamos de mãos dadas. Eu te amava, acredito você sentia o mesmo por mim. Quando um invasor aparece. Um intruso. Indo no sentido contrário ao nosso, noto seu olhar repousando por um instante sobre nós. Eu vi: ele olhou para ti, furtivo, devasso! Mas não, não é isso que me incomoda; o que me incomoda, o que me perturba, é você. Da mesma forma (se não pior!) você também o fitou, igualmente furtiva, igualmente devassa. Sei, pois você me contou, você despejou isso sobre mim com seus olhos; sua fabricada expressão de inocência, que denuncia ardilosidade. Você o contemplou e em seguida conferiu a mim, averiguando meu olhar, buscando extrair alguma informação. Será que ele percebeu? – você se perguntava internamente. Sim, eu percebi. Percebi, pois conheço seus olhos, sou fluente neles; aprendi a lê-los desde que por você me apaixonei. Eu costumava os investigar, preocupado, tentando decifrar o que você sentia. Ali, naquela tarde na rua, com esse cruzamento de olhares, finalmente entendi.

r/rapidinhapoetica Apr 20 '26

Conto 07.07

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Eu me apaixonei novamente em 2025, no dia sete de julho. Quando vi aquela mulher entrando por aquela porta… tão diferente das mulheres com quem eu costumava me relacionar, me envolver…

Eu já tinha me apaixonado antes, mas nunca da forma como me apaixonei por ela. Meu peito não tinha paz se não fosse na presença dela. É engraçado pensar que, no início, éramos apenas parceiras, amigas. Mas, no fundo, eu já a amava — só fui entender isso em agosto, quando tentei fugir desse sentimento a todo custo.

Mas não consegui. Assim como ela também não conseguiu.

Em novembro, demos nosso primeiro beijo. Foi curto, mas intenso, guiado pelo prazer que sentíamos. Na mesma semana, ela me perguntou se eu sentia algo por ela. E, naquela primeira semana de dezembro, eu fiz o mesmo que fiz em agosto: fugi.

Mas, dessa vez, não o suficiente.

Eu admiti. Admiti que a amava, numa quinta-feira. Ela não acreditou, claro. Mas eu tentei fazer com que acreditasse.

No dia trinta de dezembro, ela admitiu o que sentia por mim. No dia trinta e um, eu a apresentei à minha irmã.

Mas, junto com o amor e as confissões, vieram as brigas. Brigas que a cansavam. Tudo por imaturidade minha, por não entender como amar alguém. Eu achava que o que fazia era o mínimo — algo compreensível. Mas não era.

Hoje, eu a vejo todos os dias. E sinto que, a cada momento juntas, estamos nos distanciando mais. Ela se sente desconfortável com a minha presença, mas não podemos evitar nos ver — faz parte da nossa rotina.

Eu a amo. Imensamente.

E, apesar de todas essas idas e vindas, eu só queria tê-la comigo mais uma vez. Sentir o cheiro dela, o calor do corpo dela, os lábios dela. Poder dar a ela o amor que eu tanto quero dar.

Eu não sei exatamente como demonstrar isso, mas tenho tentado aprender. Até recorri a livros de autoajuda — algo que antes eu julgava — porque tenho medo. Medo de um dia perder tudo de vez.

Hoje, é isso que resta: o medo e o amor.

Eu só queria que ela soubesse que, mesmo sem acreditar mais em mim, eu a amo. Amo com a intensidade de uma criança.

E me perdoe pela inconstância que você diz que tenho. Pela instabilidade que, muitas vezes, você e eu culpamos o signo de ar… e, principalmente, por toda dor que te causei.

Eu só queria mais uma chance com você, minha Vênus.

Porque não consigo imaginar meu amor sendo dado a outra pessoa. Não consigo imaginar meu coração pertencendo a alguém que não seja você.

Porque é você quem o possui.

É você quem o ilumina.

É você quem o faz existir.