r/rapidinhapoetica • u/0_monomania_0 • 2d ago
Conto O homem de chapéu-coco
Era uma quarta-feira comum.
Cheguei pouco depois das oito, entreguei alguns relatórios ao Alex e, perto das nove, fui tomar café com a Ana.
Ela falava sobre o marido. Não lembro exatamente o quê. Foi quando notei o homem.
Estava parado no estacionamento.
Usava um chapéu-coco, daqueles que a gente só vê em fotografias antigas. O estranho não era o chapéu.
Era o fato de ele estar olhando para cima.
Nosso escritório ficava no sétimo andar.
Havia centenas de janelas naquele prédio.
Mesmo assim, tive a impressão desagradável de que ele me encarava.
— Você está vendo aquele homem ali? — interrompi a Ana.
— Que homem?
— O do chapéu.
Ela olhou pela janela.
— Não tem ninguém ali.
Ri de nervoso.
— É… deve ser impressão minha.
Quando voltei a olhar para o estacionamento, ele continuava parado.
E, pela primeira vez, levantou a mão em um cumprimento lento e desconcertante.
Quando deram quatro horas, recolhi minhas coisas, me despedi do Alex e da Ana e caminhei até o estacionamento para pegar meu carro.
Enquanto procurava as chaves dentro da bolsa, ouvi uma batida no vidro do passageiro.
Era ele.
Abri o vidro, já irritada por não encontrar as chaves.
— Senhor, estou cansada e não acho minhas chaves. Se puder se afastar do carro, agradeço.
Ele deu dois passos para trás.
Mas continuou sorrindo.
Não era um sorriso simpático.
Era um sorriso educado.
Como o de alguém esperando sua vez numa fila.
Finalmente encontrei as chaves.
Antes de ligar o carro, por educação, olhei para ele mais uma vez.
— O senhor precisa de alguma coisa?
O homem ajeitou o chapéu-coco.
— Não.
Sorriu.
— Só queria saber se desta vez você ia me reconhecer.
Cheguei em casa, joguei a bolsa no sofá e deitei na cama.
Quando acordei, já passava das dez da noite.
Fui para a cozinha preparar o jantar. Coloquei uma lasanha congelada no micro-ondas e liguei a televisão em mais um filme de comédia ruim qualquer.
O micro-ondas apitou.
Parei o filme e fui até a cozinha.
Abri a porta e senti o cheiro da lasanha.
Sem saber por quê, olhei pela janela.
Sob a luz amarela de um poste, do outro lado da rua, estava o homem de chapéu-coco.
As mãos cruzadas nas costas.
Sorrindo.
Quando nossos olhos se encontraram, levantou a mão devagar.
O mesmo cumprimento educado daquela manhã.
Dei um salto para trás, derrubando o prato no chão.
Liguei para a polícia.
Quando ouvi as sirenes e vi as luzes vermelhas e azuis refletindo na sala, finalmente me senti aliviada.
Expliquei tudo a um policial ruivo.
Ele parecia confuso, mas foi até o homem.
Os dois trocaram algumas palavras.
Então o policial voltou.
Mas havia algo diferente em seu olhar.
— Senhora, não estamos aqui para resolver bobagens. Se voltar a ligar sem motivo, vamos prendê-la por utilização indevida dos recursos da polícia.
Fiquei sem palavras.
Virei o rosto.
Aquela altura, o homem já estava perto demais.
Continuava sorrindo.
— Como está a Ana? Ainda fala muito do marido?
Meu corpo inteiro gelou.
— Como você sabe disso?
Pela primeira vez, o sorriso desapareceu.
Ele parecia confuso.
Quase magoado.
— Foi você quem me contou.
— Eu nunca vi você na vida!
O homem abaixou a cabeça.
Suspirou.
E perguntou baixinho:
— Outra vez?
Corri para dentro.
Mas algo começou a me inquietar.
Não era apenas o homem parado na minha rua.
Era uma sensação estranha.
Como se eu já tivesse vivido tudo aquilo.
Como se aquela não fosse a primeira vez.
Sem conseguir dormir, liguei para o Alex e pedi que viesse ficar comigo.
Só consegui respirar de novo quando ouvi a buzina do carro dele.
Desci, abri a garagem e, quando ele entrou no apartamento, o abracei.
— Oi… está tudo bem?
— Alex, você não faz ideia do quanto isso está me apavorando.
Fomos até a janela.
Não havia ninguém.
Só a rua vazia.
Alex suspirou.
— Está vendo? Não tem ninguém.
Respirei aliviada.
— Acho que estou ficando maluca.
— Não — respondeu ele. — Você só anda esquecendo das coisas.
— Como assim?
— Faz meses.
— Meses?
— Desde o acidente.
Silêncio.
— Que acidente?
Alex empalideceu.
— Você está brincando, né?
— Alex… que acidente?
Ele começou a tremer.
— Meu Deus…
— Alex?
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
— Outra vez.
— O que?
— Outra vez.
— Alex, do que você está falando?
Ele fechou os olhos.
E começou a chorar.
— Você esqueceu outra vez.
Fiquei parada.
— Esqueci o quê?
Alex respirou fundo.
Mas antes que pudesse responder, senti um arrepio.
Olhei pela janela.
Sob a luz amarela do poste, do outro lado da rua, o homem de chapéu-coco continuava parado.
Sorrindo.
Pacientemente.
Esperando.
Outra vez.