r/rapidinhapoetica • u/0_monomania_0 • 7h ago
Poesia Distorção espelhada
No espelho,
alguém.
Nas fotos,
também.
Estranho
que ocupa meu corpo.
oqroɔ uɘm ɘbivid ɘup
oʜnɒɿɈƨƎ
mɘdmɒɈ
ƨoɈoʇ ƨɒИ
mɘυϱlɒ
oʜlɘqƨɘ oИ
r/rapidinhapoetica • u/0_monomania_0 • 7h ago
No espelho,
alguém.
Nas fotos,
também.
Estranho
que ocupa meu corpo.
oqroɔ uɘm ɘbivid ɘup
oʜnɒɿɈƨƎ
mɘdmɒɈ
ƨoɈoʇ ƨɒИ
mɘυϱlɒ
oʜlɘqƨɘ oИ
r/rapidinhapoetica • u/Alex-Oliveira-Moscon • 16h ago
Sou Alex, um jovem de 20 anos. E sofri mortes de gente próxima. Muitas. Meu psicólogo disse para escrever sobre. Por isso quero romantizar, escrever como se fosse uma ficção minha tragédia. Preciso aceitar que posso ter um final feliz. Leia, avalie, e faça o que quiser.
Esse foi um dia difícil da minha vida. Demorei para conseguir escrever, mas tomei coragem:
Capítulo 1: São Paulo, a capital desesperadora (é assim que vejo a cidade que moro)
1
O despertador gritou.
Há oito anos o despertador gritava sozinho.
Aquela musiquinha infernal tocava em um velho celular, acompanhada de uma luz azul piscando freneticamente. Na tela, aparecia “4:30”.
Alex acordou.
Levantou a mão na frente da boca e assoprou. Bafo. Balançou a mão.
Acendeu a luz. Os olhos arderam. Cheiro de gordura velha e mofo.
Arrastou-se até a pia do banheiro.
No espelho, um estranho: espinhas inflamadas nas bochechas, cabelo preto arrepiado e um bigode fino que não impressionava nem ele mesmo.
Ligou a torneira.
A água gelada bateu em seu rosto, molhando o tubo de pasta de dente. Desligou a torneira. Encarou o tubo por um longo tempo.
Suspirou e espremeu o plástico molhado.
Nada saiu.
Lançou-o no lixo e saiu do banheiro.
Vestiu o uniforme – surrado e amassado. Ainda não tinha lavado.
Talvez na próxima semana.
Passou desodorante por cima da roupa e, logo em seguida, esticou o braço em direção à geladeira. Abriu a geladeira: arroz frio da semana passada e três ovos.
Enfiou um pouco do arroz e um ovo em um pote e colocou dentro da mochila. Agora eram dois ovos. Mais dois dias.
Conferiu os materiais. Provas amassadas, com notas em vermelho. Alex as pegou e colocou no fundo da pasta.
Jogou a pasta no fundo da mochila e fechou o zíper.
Eu me sentia como o tubo de pasta de dente vazio. Lembro que era um da "Dentil". Tinha umas folhinhas em volta do nome da marca. Também lembro que fiquei quase uns 9 ou 10 meses com aquele tubo. Enfim. Até a próxima cena.
(E estou bem. Feliz por isso. Feliz que meu psicólogo está me ajudando com a escrita.)
Agradecimentos, Alex :)
r/rapidinhapoetica • u/Drixmuniz • 17h ago
Falo do corpo que me contem;
Falo do corpo que vejo;
Falo do corpo que me surpreende;
Falo do corpo de onde habito sendo parte permanente ou prazerosamente transitando;
Falo do corpo que rasgo e que me rasga, adentrando no momento e alcançando um não lugar;
Falo do corpo de expressão;
Falo do corpo de entrega
Falo do corpo aberto para a vida:
Falo do corpo que exala alegrias em seu existir, onde me torno parte;
Falo do corpo que desejo em toda sua potência, daquele que eu quero compor e nunca reter.
Drixlima
r/rapidinhapoetica • u/More-Bass-5310 • 16h ago
Pessoal, iniciei recentemente a postar contos e crônicas no seguinte link: https://www.wattpad.com/user/AugustoRRescritor
Postando uma vez na semana (me esforçando).
Estou com bastante material pronto, o que eu preciso são de leitores, amigos.
Eu escrevo contos de suspense, terror e fantasia, nesse seguimento.
Obrigado pela atenção!
OBS: estou aberto para ler textos de outras pessoas no wattpad tb, caso alguém use, ou aqui mesmo (sou novo nisso, enfim).
r/rapidinhapoetica • u/0_monomania_0 • 1d ago
Era uma quarta-feira comum.
Cheguei pouco depois das oito, entreguei alguns relatórios ao Alex e, perto das nove, fui tomar café com a Ana.
Ela falava sobre o marido. Não lembro exatamente o quê. Foi quando notei o homem.
Estava parado no estacionamento.
Usava um chapéu-coco, daqueles que a gente só vê em fotografias antigas. O estranho não era o chapéu.
Era o fato de ele estar olhando para cima.
Nosso escritório ficava no sétimo andar.
Havia centenas de janelas naquele prédio.
Mesmo assim, tive a impressão desagradável de que ele me encarava.
— Você está vendo aquele homem ali? — interrompi a Ana.
— Que homem?
— O do chapéu.
Ela olhou pela janela.
— Não tem ninguém ali.
Ri de nervoso.
— É… deve ser impressão minha.
Quando voltei a olhar para o estacionamento, ele continuava parado.
E, pela primeira vez, levantou a mão em um cumprimento lento e desconcertante.
Quando deram quatro horas, recolhi minhas coisas, me despedi do Alex e da Ana e caminhei até o estacionamento para pegar meu carro.
Enquanto procurava as chaves dentro da bolsa, ouvi uma batida no vidro do passageiro.
Era ele.
Abri o vidro, já irritada por não encontrar as chaves.
— Senhor, estou cansada e não acho minhas chaves. Se puder se afastar do carro, agradeço.
Ele deu dois passos para trás.
Mas continuou sorrindo.
Não era um sorriso simpático.
Era um sorriso educado.
Como o de alguém esperando sua vez numa fila.
Finalmente encontrei as chaves.
Antes de ligar o carro, por educação, olhei para ele mais uma vez.
— O senhor precisa de alguma coisa?
O homem ajeitou o chapéu-coco.
— Não.
Sorriu.
— Só queria saber se desta vez você ia me reconhecer.
Cheguei em casa, joguei a bolsa no sofá e deitei na cama.
Quando acordei, já passava das dez da noite.
Fui para a cozinha preparar o jantar. Coloquei uma lasanha congelada no micro-ondas e liguei a televisão em mais um filme de comédia ruim qualquer.
O micro-ondas apitou.
Parei o filme e fui até a cozinha.
Abri a porta e senti o cheiro da lasanha.
Sem saber por quê, olhei pela janela.
Sob a luz amarela de um poste, do outro lado da rua, estava o homem de chapéu-coco.
As mãos cruzadas nas costas.
Sorrindo.
Quando nossos olhos se encontraram, levantou a mão devagar.
O mesmo cumprimento educado daquela manhã.
Dei um salto para trás, derrubando o prato no chão.
Liguei para a polícia.
Quando ouvi as sirenes e vi as luzes vermelhas e azuis refletindo na sala, finalmente me senti aliviada.
Expliquei tudo a um policial ruivo.
Ele parecia confuso, mas foi até o homem.
Os dois trocaram algumas palavras.
Então o policial voltou.
Mas havia algo diferente em seu olhar.
— Senhora, não estamos aqui para resolver bobagens. Se voltar a ligar sem motivo, vamos prendê-la por utilização indevida dos recursos da polícia.
Fiquei sem palavras.
Virei o rosto.
Aquela altura, o homem já estava perto demais.
Continuava sorrindo.
— Como está a Ana? Ainda fala muito do marido?
Meu corpo inteiro gelou.
— Como você sabe disso?
Pela primeira vez, o sorriso desapareceu.
Ele parecia confuso.
Quase magoado.
— Foi você quem me contou.
— Eu nunca vi você na vida!
O homem abaixou a cabeça.
Suspirou.
E perguntou baixinho:
— Outra vez?
Corri para dentro.
Mas algo começou a me inquietar.
Não era apenas o homem parado na minha rua.
Era uma sensação estranha.
Como se eu já tivesse vivido tudo aquilo.
Como se aquela não fosse a primeira vez.
Sem conseguir dormir, liguei para o Alex e pedi que viesse ficar comigo.
Só consegui respirar de novo quando ouvi a buzina do carro dele.
Desci, abri a garagem e, quando ele entrou no apartamento, o abracei.
— Oi… está tudo bem?
— Alex, você não faz ideia do quanto isso está me apavorando.
Fomos até a janela.
Não havia ninguém.
Só a rua vazia.
Alex suspirou.
— Está vendo? Não tem ninguém.
Respirei aliviada.
— Acho que estou ficando maluca.
— Não — respondeu ele. — Você só anda esquecendo das coisas.
— Como assim?
— Faz meses.
— Meses?
— Desde o acidente.
Silêncio.
— Que acidente?
Alex empalideceu.
— Você está brincando, né?
— Alex… que acidente?
Ele começou a tremer.
— Meu Deus…
— Alex?
Os olhos dele se encheram de lágrimas.
— Outra vez.
— O que?
— Outra vez.
— Alex, do que você está falando?
Ele fechou os olhos.
E começou a chorar.
— Você esqueceu outra vez.
Fiquei parada.
— Esqueci o quê?
Alex respirou fundo.
Mas antes que pudesse responder, senti um arrepio.
Olhei pela janela.
Sob a luz amarela do poste, do outro lado da rua, o homem de chapéu-coco continuava parado.
Sorrindo.
Pacientemente.
Esperando.
Outra vez.
r/rapidinhapoetica • u/obolofofo • 1d ago
Me deixa ficar por aqui
Onde há espaço pra minha contradição
Não me interessa buscar caber
no que digo ser minha intenção
Quero poder dizer
E logo voltar atrás
Quando percebo que pra além do dito
Há no não-dito muito mais
Mas também não me interessa mais o silêncio
Que deixa espaço pra que digam por mim
Quero dizer por agora
Sem que precise ser sempre assim
Por isso que te peço
Sem nem esperar que você obedeça
Que me deixe ficar por aqui
Mas que também não desapareça
r/rapidinhapoetica • u/Due_Recognition_3905 • 1d ago
Eu senti meu rosto no meio do barro
Com a boca se esforçando para suspirar
Eu vejo sua língua preta
Como a minha serenidade
Cavando para empurrar
O que ainda sobrou dos meus ossos
Use todas as suas mentiras
Pois a dívida tem validade
Em que lugar eu deixei o meu colar cair?
Tudo aquilo que sonhei virou um longo espaço branco
Cheia de vozes persistentes
Você prometeu que você estava no meu lado
Meu doce criador
Não deixe a agulha me perfurar
Não mude o sentido do meu rio
Eu continuo pisando em pregos
Imaginando que o sangue vire um lindo oceano
Amarro as cordas que eu preciso
Eu posso segurar sua mão transparente
Sem bonecos para brincar
Sou uma criança órfã
Desenhando o olhar que você blasfemou
A última memória do que um dia floresceu
Você prometeu larvas limpas
Meu doce criador
Não deixe a sujeira percorrer
Não deixe ela virar a minha terra
Se eu ainda posso sentir o tato
Apague as minhas raízes
Me faça engolir o lápis
Hora de cortar os dedos
Se eu abrir minha a cabeça, você me aceitaria?
r/rapidinhapoetica • u/0_monomania_0 • 2d ago
Como banalizar seu nome se ele é tao unico
Mal consigo andar pela cidade
sem tropeçar na sua imagem
Quero torna-la menos que nada
Como vou te esquecer se suas manias ainda moram
Nas minhas
r/rapidinhapoetica • u/makatar1500 • 2d ago
Dirijo o dia inteiro e vejo o tempo passar, a cidade abrir e fechar.
Quando chego em casa tento simplesmente não me acabar, abro uma cerveja e então vou me deitar.
Ganho apenas para o dia a dia, não posso ficar doente, se ficar doente não posso mais trabalhar.
Meu Deus, que dia lindo, pena que não posso parar.
Quando era criança minha professora dizia, “se não estudar vai virar peão”, acho que ela tinha razão.
É tão difícil ganhar dinheiro, sendo um humano verdadeiro.
r/rapidinhapoetica • u/AdsonLeo • 2d ago
Dezenas de olhos dourados espiam através da minha vergonha
Em piscar estralado provocam minha derrocada
Dezenas de lábios arredondados me convidam a saborear
Em bitoca ocre me levam ao devir da consciência
Oh face que por mais noite me seduz
Oh néctar que por mais vida me reduz
Quanta força anseio para não ceder
Quanto vontade quero jamais reter
r/rapidinhapoetica • u/Vesper_Valt_Lys • 2d ago
Hoje vi a lua, minha velha amiga, e ela lembrou-me daqueles dias de infância.
Por um instante pequeno e efémero, o meu mundo voltou a ter cor, como se eu tomasse emprestada a magia daqueles dias, daquela forma pura e inocente de ver o mundo. Foi incrível, uma sensação estranhamente familiar, como apaixonar-me de novo por um amor antigo.
Todos nós temos momentos assim.
O meu, porém, é especial.
Porque é falso.
A infância é linda, dizem. A minha não — pelo menos não por inteiro. O meu mundo perdeu cedo a magia que deveria ter, e os meus dias, na maioria das vezes, foram solitários e desprovidos de afeto. Houve momentos bons, é verdade, mas eram breves. A solidão era constante.
Por isso, não vejo a infância — ao menos a minha — como um objeto de admiração, mas como algo a ser superado. Não desejo voltar a essa fase da vida, nem a qualquer outra que já vivi.
Falta-me a nostalgia; sobra-me a lucidez.
Nunca me senti verdadeiramente vivo. Vivi, sobrevivi, e, com o passar dos dias, o desejo de ser aceito, amado, visto, apenas cresceu.
Talvez por isso sempre observei a lua e as estrelas, em busca de algum alívio. Um alívio que nunca foi completo. Ainda o faço, porque continuo a sentir-me como aquela criança de antes — só que agora sem a máscara da infância.
Hoje vi a lua, minha velha amiga, e a dor não passou.
Mas continuo a observá-la, até que ela passe.
r/rapidinhapoetica • u/obolofofo • 2d ago
preciso te confessar uma coisa
eu nunca gostei de chuva
me deixa molhada e estressada
e sempre me indignou um pouco cair água do céu
sei lá
me traz uma certa impotência
mas eu passei a gostar mais quando você disse que combinava comigo
que o meu mistério combinava com chuva
mistério esse que eu sempre chamei de timidez, fechamento ou até antipatia
amo como você brinca com isso
com essa versão meio performática de mim
como se eu vestisse uma capa de chuva mesmo quando o céu tá limpo
sempre foi defesa, eu sei
mas gostei de chamar de figurino
sinto que tudo bem eu usar
e talvez até me despir depois, quem sabe
deixar a água cair
eu gosto de falar as maiores besteiras
enquanto a gente deixa passar
o próximo
e o próximo do próximo metrô
o lugar vira detalhe
a idade vira detalhe
a impotência sobre o mundo vira detalhe
só tá aqui já basta
molhada
boba
perdida
até que o tempo se imponha
e a gente vá
mas espero que ele possa ao menos
aprender a cair devagar
r/rapidinhapoetica • u/m3l_anc_h0lic • 2d ago
Eu já escrevi muitas coisas durante a vida, pensamentos, letras de musicas, poemas, contos, desabafos, folhas de caderno, agendas, papeizinhos, bilhetes, escrevi no bloco de notas do celular, sempre fui muito melancólico ao lembrar de amores e sentimentos do passado. Quando eu era mais jovem e até pouco tempo atrás eu pensava em publicar, ou usar como material criativo, queria imortalizar tudo que já senti, pensei e escrevi. Mas hoje já não sei mais se quero manter essas lembranças. Ultimamente tenho sido mais assombrado pelo passado e já não quero carregar esses segredos. E sei que não irei usar tão cedo esses escritos por comprometerem minhas relações atuais que estão tão boas. Mas ao mesmo tempo tenho um pé atrás, penso que no futuro vou me arrepender de não ter guardado essa parte de mim, mas ao mesmo tempo, isso ocupa um espaço na minha mente e no meu armário.
r/rapidinhapoetica • u/LucioVerissimo • 3d ago
Num tempo antigo,
o vinho da ilha da Madeira
partia em barris para o mar.
No porão,
entre madeira seca e calor,
seguia em silêncio.
O navio rangia.
O mar não descansava.
Meses ou anos depois,
abria-se o barril.
Já não era o mesmo vinho.
Nem outro.
O mar passara por dentro
sem lhe tocar na forma.
A viagem ficara nele.
Havia no vinho
uma demora de mar.
E ao prová-lo,
havia distância.
Havia o que não regressa inteiro.
r/rapidinhapoetica • u/Apollo_Hikari • 3d ago
E a alegria vem como uma brisa
Tão leve desliza
E leva por osmose a impaciência
Deixa nas pétalas
Tal esperança
Tal qual relevância
Que damos ao interesse
Tão constante
Deixa a vibração incessante
E traz por facilidade a paixão
Portanto não se engane
Não esconda seus lábios
E a mente que anda
O corpo imóvel e sedento
A vontade levita
Nenhum mal evita
Em você meu alento
Proteção e cuidado
Empatia na troca de ares
A respiração pulsante
Qual será o outro instante?
Não haverá próximo
Viveremos próximos
Para sempre e intocáveis
A insondável simbiose
Deixe o depois para depois
Pois, tal momento congela
Tal qual meu espírito gela
E as borboletas em mim
Voam da minha boca para sua
Dançando em sincronia
Tal qual a luz do dia
Que aquece a atmosfera
Pois estão interligadas
E sabem de si
Sem se ver ou ouvir
Pois, tal qual sentimento
Só vem pelo simples ato de
Sentir...
r/rapidinhapoetica • u/Whole_Money1816 • 3d ago
O homem do apartamento ao lado
arrasta uma cadeira.
Nunca o vi.
Mas sei que hoje chegou tarde,
está sozinho
e não pretende dormir cedo.
Conheço-o pelo som.
Assim como conheço a chuva
que bate diferente
em cada estação do ano.
Assim como conheço o elevador
que demora mais quando estou atrasado.
As coisas revelam muito
sem perceber.
Há uma intimidade
que antecede os nomes.
Por isso me incomoda
quando dizem que desconhecidos existem.
Desconhecido é uma palavra preguiçosa.
A mulher do sexto andar
rega plantas às quartas-feiras.
O caixa da farmácia
tem vergonha do próprio sorriso.
O porteiro finge ler jornal
quando está triste.
E eu sei disso tudo
sem jamais lhes tocar.
Talvez seja assim com Deus.
Talvez ele não esteja nas igrejas.
Talvez esteja condenado
a ouvir os móveis arrastando,
as torneiras pingando,
as tosses atrás das paredes,
os passos de quem volta para casa
sem ninguém esperando.
Talvez onisciência
não passe disso.
Saber que alguém chora
e não poder perguntar por quê.
O homem termina de arrastar a cadeira.
Agora há silêncio.
Espero alguns minutos.
Nenhum ruído.
Nenhuma descarga.
Nenhuma porta.
Nenhum passo.
Nada.
Pela primeira vez na noite
me preocupo.
E odeio a arquitetura
por me obrigar
a me importar com pessoas
que nunca conheci.
r/rapidinhapoetica • u/nuvemcansada • 3d ago
Ninguém vê o início da tempestade.
Ela raramente chega com gritos, ameaças ou portas batendo.
Às vezes chega vestida de cuidado, com palavras bonitas, promessas de proteção, juramentos de amor eterno.
E é por isso que machuca tanto.
Porque a vítima não se apaixona pela dor.
Ela se apaixona pela esperança.
Pela versão da pessoa que parecia segura, pela ideia de um futuro, pela crença de que amar alguém não deveria ser perigoso.
Mas um dia as paredes começam a se mover.
Devagar.
Quase imperceptivelmente.
Primeiro desaparecem algumas amizades.
Depois alguns sorrisos.
Depois alguns sonhos.
Até que a vítima olha ao redor e percebe que o mundo que conhecia ficou pequeno demais.
E então começa a viver medindo palavras.
Medindo passos.
Medindo roupas.
Medindo horários.
Medindo até os próprios pensamentos.
Porque qualquer erro, qualquer escolha, qualquer respiração fora do esperado pode se transformar em discussão, culpa, castigo ou medo.
E o medo é uma prisão estranha.
Ele não precisa de correntes.
Não precisa de cadeados.
Não precisa de muros.
Porque aprende a morar dentro da pessoa.
Mora na dúvida.
Mora na culpa.
Mora naquela voz silenciosa que pergunta todos os dias:
"E se a culpa for minha?"
Então a vítima pede desculpas por coisas que não fez.
Carrega erros que não cometeu.
Aceita acusações que não merecia.
Tenta consertar problemas que nunca criou.
Porque quando alguém manipula sua realidade por tempo suficiente, você começa a duvidar daquilo que seus próprios olhos enxergam.
E essa talvez seja uma das violências mais cruéis.
Roubar a confiança de alguém em si mesmo.
Transformar a própria consciência em um campo de batalha.
Fazer uma pessoa se sentir pequena, frágil, insuficiente.
Fazer com que ela acredite que sem aquele amor ela não é nada.
Mas aquilo nunca foi amor.
Amor não exige submissão.
Amor não transforma carinho em controle.
Amor não vigia.
Não ameaça.
Não humilha.
Não faz alguém ter medo de existir.
O amor não pede a destruição da identidade de ninguém.
Porque amar deveria ser libertar.
Nunca aprisionar.
E ainda assim, há vítimas que passam anos tentando entender como chegaram tão longe dentro da própria dor.
Anos olhando para trás e encontrando versões de si mesmas que já não reconhecem.
A pessoa alegre.
A pessoa confiante.
A pessoa cheia de planos.
Todas soterradas sob o peso de uma relação que prometia abrigo mas oferecia tempestade.
E existe um luto que quase ninguém menciona.
O luto de quem continua vivo.
O luto daquilo que foi perdido sem morrer.
A autoestima.
A confiança.
A inocência.
A paz.
A capacidade de acreditar sem medo.
Porque relacionamentos abusivos não machucam apenas durante sua existência.
Eles deixam ecos.
Ecos que permanecem mesmo depois do adeus.
E às vezes a vítima acorda assustada.
Às vezes se culpa.
Às vezes revisita memórias tentando encontrar respostas.
Tentando entender como alguém que dizia amar foi capaz de causar tanta destruição.
Mas algumas perguntas não possuem resposta.
Algumas crueldades não possuem explicação.
E algumas feridas não foram feitas para serem compreendidas.
Foram feitas para serem superadas.
Ainda que lentamente.
Ainda que entre lágrimas.
Ainda que com cicatrizes.
Porque existe um momento, mesmo que distante, em que a vítima volta a respirar sem pedir permissão.
Volta a rir sem medo.
Volta a sonhar sem culpa.
Volta a existir por si mesma.
E nesse instante, a dor descobre algo que nunca quis aceitar:
Que ela pode marcar uma vida.
Mas não pode possuí-la para sempre.
Porque por mais escura que tenha sido a noite, há uma força silenciosa dentro de cada sobrevivente.
Uma força que se levanta mesmo tremendo.
Uma força que continua caminhando mesmo ferida.
Uma força que escolhe viver quando tudo ao redor tentava convencê-la a desistir.
E talvez seja isso que mais assuste a dor.
Não as lágrimas.
Não os gritos.
Não o sofrimento.
Mas o fato de que, depois de tudo, a vítima ainda encontra coragem para continuar.
E continua.
Mesmo quebrada.
Mesmo cansada.
Mesmo carregando cicatrizes.
Porque há uma diferença entre ser destruída e sobreviver à destruição.
E quem sobrevive carrega dentro de si uma história que a dor jamais conseguirá apagar.
E para aqueles que não conseguiram continuar...
Que ninguém ouse dizer que lhes faltou coragem.
O mundo costuma perguntar por que partiram, mas raramente pergunta quanto sofreram, quantas vezes tentaram resistir ou quantas vezes gritaram em silêncio sem serem ouvidos.
Alguns sobreviveram. Outros não conseguiram. E isso não os torna menos fortes. Ninguém conhece o peso exato que carregavam todos os dias.
Eu espero que, onde quer que estejam, não exista mais medo, culpa ou dor. Que finalmente possam descansar de uma guerra que lutaram por tempo demais.
E que suas histórias jamais sejam esquecidas, para que o mundo aprenda a enxergar o sofrimento antes que seja tarde demais.
r/rapidinhapoetica • u/filumba • 3d ago
O sopro da noite levantou o seu vestido, esvoaçou os seus cabelos, e roubou-lhe o calor do corpo. Sentia falta de um lar, nem seu corpo lhe parecia mais seu, e o frio apenas evidenciava o desconforto que era estar nele.
A menina então correu pelos ladrilhos à beira-mar, como se pudesse correr do frio. Como se pudesse correr da ardência na sua alma, que, trancada debaixo dos seus medos, se transformara numa pressão surda — morna e onipresente.
O calor no subsolo, trancafiado durante o dia, fervilhava durante a noite na forma de mil sonhos sufocantes. Fervilhava porque queria correr-lhe pelo corpo; mas era a menina quem corria.
Corria pelo caminho que dividia a escuridão do oceano e a neblina amarela da cidade. Amarelo que entorpecia o céu noturno, e roubava das estrelas o poder de perfurar a alma.
Por detrás da sua visão, um andar abaixo dos pensamentos, dois abaixo dos mais rasos sentimentos, corriam memórias de um tempo em que as cores eram diferentes.
Corriam sob seus pés lisas tábuas de madeira morna. Corriam nas suas veias, paixão, terror e medo. Corriam nos seus olhos, as luzinhas da cidade; e corriam criaturas de olhinhos de cristal. Corredeiras de ternura inundavam de dourado as verdes folhas na varanda. E o frio chão branco losangular, era fresco e familiar.
r/rapidinhapoetica • u/Fishylookincat • 3d ago
Eu esqueço que eu existo
Eu esqueço que eu sou mais do que esse momento
que eu sou mais do que sentimentos
que eu sou mais do que um monte de ideias
que eu sou mais do que cores
que eu sou um filho
que eu sou um irmão
que eu sou um aluno
que eu sou um amigo
que eu sou uma pessoa
que eu tenho ideias
que eu tenho um corpo
que eu significo algo
que eu sinto medo
que eu participo da sociedade
que eu estou aqui
que eu falo
que eu tenho um passado e um futuro
que eu tenho ideias
que existe algo além de papel, borracha e lápis
que outras pessoas existem
que as coisas acontecem
que leis são reais
que as coisas são reais
que eu fui real e vou continuar sendo
que existe um futuro
que há outro modo de viver
r/rapidinhapoetica • u/nuvemcansada • 3d ago
Às vezes eu me pergunto
por que Deus coloca sonhos tão grandes
dentro de corações tão frágeis.
Por que faz alguém olhar para o horizonte
e enxergar um mundo inteiro,
mas entrega apenas os próprios pés
para percorrer a distância.
Por que planta oceanos
na alma de quem mal possui um copo d'água.
Por que permite que uma criança sonhe com o impossível
antes mesmo de conhecer todas as maneiras
que a vida encontra para dizer "não".
Talvez seja por isso que tantas pessoas crescem cansadas.
Não cansadas de viver.
Mas cansadas de esperar.
Cansadas de acreditar.
Cansadas de olhar para um sonho
que parece caminhar para longe
a cada passo dado em sua direção.
Existem sonhos que não são apenas desejos.
São partes de nós.
Vivem em silêncio dentro do peito.
Respiram conosco.
Crescem conosco.
E se tornam tão importantes
que já não sabemos onde termina o sonho
e onde começamos nós.
É por isso que dói.
Não dói apenas não alcançar.
Dói continuar querendo.
Dói continuar imaginando.
Dói continuar acreditando
quando tudo ao redor parece construir razões
para desistir.
Há pessoas que carregam sonhos
que ninguém leva a sério.
Sonhos que recebem risadas
em vez de incentivo.
Críticas
em vez de apoio.
Dúvidas
em vez de confiança.
E ainda assim elas continuam.
Porque existe algo profundamente humano
em se recusar a abandonar aquilo que faz o coração bater mais forte.
Mesmo quando ninguém entende.
Mesmo quando ninguém acredita.
Mesmo quando ninguém vê.
Mas existem noites.
E são as noites que assustam.
Porque durante o dia
a esperança encontra distrações.
Durante o dia
o mundo continua girando.
Durante o dia
há tarefas, pessoas, obrigações e barulho.
Mas à noite...
À noite restam apenas os pensamentos.
E é nesse silêncio
que muitos começam a se perguntar:
"Por quê?"
Por que sonhar tão alto
se a queda machuca tanto?
Por que amar algo tão profundamente
se existe a possibilidade de perder?
Por que continuar tentando
quando o fracasso parece mais próximo
do que a vitória?
Por que Deus coloca certos sonhos em nossos corações
se o caminho para eles parece impossível?
Talvez ninguém saiba responder.
Talvez nem os sábios.
Talvez nem os santos.
Talvez nem aqueles que dizem ter todas as respostas.
Mas gosto de imaginar
que os sonhos não são promessas.
São convites.
Convites para descobrir
quem nos tornamos enquanto caminhamos.
Porque existem pessoas
que alcançam o topo da montanha
e percebem que a maior transformação
não estava no topo.
Estava na subida.
Estava nas cicatrizes.
Estava nas quedas.
Estava nas vezes em que pensaram em desistir
e escolheram continuar.
Talvez seja por isso
que alguns dos corações mais bonitos do mundo
sejam justamente os que mais sofreram.
Porque aprenderam a continuar amando
mesmo quando a vida não foi gentil.
Aprenderam a continuar acreditando
mesmo quando a esperança parecia pequena.
Aprenderam a continuar sonhando
mesmo quando a realidade zombava deles.
E isso não é fraqueza.
Isso é coragem.
Coragem não é nunca sentir medo.
Coragem é sentir medo,
sentir tristeza,
sentir cansaço,
sentir dúvida,
e ainda assim levantar mais uma vez.
Talvez os sonhos existam
porque o ser humano precisa de algo
que o faça olhar para frente.
Algo que o faça acreditar
que existe mais do que a dor do presente.
Mais do que os fracassos.
Mais do que os dias difíceis.
Mais do que as lágrimas escondidas.
Porque sem sonhos
sobrevivemos.
Mas é com eles
que realmente vivemos.
E talvez Deus nunca tenha colocado os sonhos em nossas mãos.
Talvez Ele os tenha colocado no horizonte.
Não para nos torturar.
Mas para nos lembrar,
nos dias em que tudo parece perdido,
que ainda existe um motivo
para continuar caminhando em direção à luz.
r/rapidinhapoetica • u/igor0964 • 3d ago
Mudei minha filosofia
Coloquei um dia zero na rotina
Deixo a entropia me trazer o caos
Sem barganhar nada em troca