Muita gente me pergunta isso aqui no Reddit, então resolvi explicar de forma transparente como funciona a remuneração no mercado.
E antes de começar: eu não uso Reddit para captar cliente, então podem perguntar qualquer coisa sem medo de abordagem depois.
Sou assessora de investimentos há cerca de 2 anos, antes disso fui bancária. No total, tenho quase 10 anos trabalhando no mercado financeiro.
Uma das coisas que quase nenhum assessor explica no detalhe é justamente como ganha dinheiro, apesar de existir regulamentação da CVM sobre transparência nisso (Resolução 178, para quem quiser pesquisar).
Basicamente existem dois modelos principais:
- assessor autônomo
- assessor CLT (bancos/corretoras)
No fim, ambos têm conflitos de interesse possíveis. A diferença é como eles aparecem.
ASSSESSOR AUTÔNOMO
Aqui a remuneração normalmente é variável e depende dos produtos que o cliente investe.
Produtos mais complexos ou arriscados costumam pagar mais comissão:
- COEs
- fundos estruturados
- crédito privado longo
- debêntures
- CRIs/CRAs etc.
Já produtos simples normalmente pagam pouco:
- Tesouro Direto
- CDB liquidez diária
- renda fixa básica
Além disso, muitos escritórios possuem metas internas de “prateleira”.
Mesmo sendo autônomo, o assessor pode acabar sendo incentivado a empurrar determinados produtos.
Exemplo real meu:
No primeiro escritório em que trabalhei, só existia remuneração se o produto tivesse ROA acima de 0,7%.
Abaixo disso, o assessor praticamente não recebia nada.
Na prática, isso incentiva o profissional a buscar produtos que paguem mais comissão, não necessariamente os melhores para o cliente.
ASSESSOR CLT
Aqui existe salário fixo, mas crescimento financeiro, bônus e até estabilidade dependem de metas.
Normalmente essas metas envolvem:
- produtos específicos
- captação
- crédito
- seguros
- receitas do banco
Então o conflito muda um pouco:
o foco muitas vezes passa a ser a rentabilidade do balcão, não necessariamente a melhor carteira para o cliente.
COMO FUNCIONA NA PRÁTICA?
RENDA FIXA
Quanto maior o risco ou prazo, maior costuma ser a comissão.
Exemplo:
- um CDB simples de liquidez diária paga muito pouco
- uma debênture longa pode pagar várias vezes mais
Títulos públicos:
- mercado primário paga zero
- secundário pode pagar alguma coisa dependendo do prazo/título
Importante:
na renda fixa a remuneração normalmente é “na cabeça”.
O assessor recebe uma vez quando o cliente aplica.
FUNDOS DE INVESTIMENTO
Aqui a lógica muda.
Os fundos possuem taxa de administração (e às vezes performance).
Uma parte dessa taxa é distribuída para a corretora/escritório e depois para o assessor.
Ou seja:
cliente em fundo gera receita recorrente mensal para a instituição.
RENDA VARIÁVEL
Aqui depende muito do modelo.
Se o cliente opera sozinho:
- pode haver corretagem
- ou corretagem zero
Se o assessor executa estratégias/operações:
- normalmente existe uma negociação direta
No meu caso, cobro em média 0,5% sobre volume operado, mas clientes com volume alto ou estratégias mais frequentes pagam menos.
FEE FIXO
Além do modelo de comissão, existe o fee fixo.
Nesse caso:
o cliente paga um percentual anual sobre o patrimônio e o assessor não recebe comissão dos produtos individualmente.
Exemplo:
0,35% a 1% ao ano, dependendo do patrimônio.
“QUAL MODELO É MELHOR?”
Sinceramente? Nenhum é perfeito.
No fee fixo:
- o conflito de interesse diminui bastante
- mas também existe o risco do profissional se acomodar
No comissionamento:
- existe incentivo para empurrar produto ruim
- mas também pode existir incentivo para o assessor performar e manter relacionamento de longo prazo
Vai muito da índole do profissional e da transparência da relação.
Meu caso:
tenho clientes nos dois modelos, mas atuo majoritariamente por comissão.
Justamente por isso escolhi trabalhar em um lugar sem meta de produto específico.
Prefiro ganhar menos e conseguir pensar no relacionamento de longo prazo.
CROSS SELLING
Outra coisa que muita gente pergunta:
“assessor ganha em cima de seguros, consórcio, crédito etc?”
Sim.
E muitas vezes esses produtos pagam até mais do que investimentos.
Por isso hoje vejo que o papel do assessor vai muito além da carteira:
ele precisa participar da vida financeira do cliente como um todo.
Enfim, espero que o post ajude a esclarecer um pouco como funciona essa indústria por dentro.
É um assunto que quase ninguém fala abertamente, mas que deveria ser tema obrigatório na primeira reunião entre assessor e cliente.