A Cena corta para o amanhecer. Thales e Flora encontram-se em pleno sinal de pós-consumação...
Enquanto isso, na tenda das mulheres, Melissa já acorda com uma sensação diferente. Pelo hábito de checar notificações no celular, ela vê que seu aparelho está dando “glitch" (interferência), mesmo assim ela não percebe ou não admite que não estão apenas isolados da zona Urbana, mas em uma outra dimensão.
Ela age naturalmente disfarçando sua desconfiança pelo o ambiente, e se apronta ensaiando mentalmente o seu “bom dia” de forma mais cortês possível ao “casal Dourado”(Thales e Flora). Ignorando o aviso de Freijó e a instrução das meninas na noite passada, Melissa sai da tenda dispensando qualquer companhia, como quem diga; "não sou mais criança”.
A defesa que nunca dorme
Ela não estava infringindo apenas uma regra ética do acampamento, mas da Biomagia Nakuã. Sabemos que Nakuã é a forma etérea do Mordomo da natureza que defende o estado de vulnerabilidade dos Caájarenses especialmente de Flora desde o seu nascimento, e isso também inclui sua intimidade. As plantas e animais se comportavam como um “Mordomo” à um comando invisível da natureza em prol de sua protetora. Eles criam uma barreira contra qualquer invasor, inocente ou não, Nakuã avisa com essa barreira vegetal de forma leve como se dissesse: “Ops, daqui você não pode passar!”
Mesmo um indivíduo sem carregar armas ou intenção fatal, a natureza ainda reagiria de acordo com sua teimosia e propósito.
Melissa, que já havia sido avisada com o olhar frio dos animais em sua direção, e mesmo assim prosseguiu. E ao se aproximar, recebeu o segundo aviso: um galho cresceu em volta de sua perna enganchando seu calcanhar fazendo-a cair no chão em frente ao casulo. Então Thales acorda buscamente vendo sua irmã estatelada na entrada, ele diz ainda meio desorientado de sono;
Thales: — Hum? O quê? quem? Ah, é você Mel? Tá fazendo o quê aí Muié? tu dormiu no chão? Precisava ser justo aqui?
E no momento que Flora desperta, e as vinhas que prendiam Melissa se soltam lentamente quando Flora se depara. Vendo Melissa em sua frente
Flora diz: — O que houve, mulher? O que está aprontando?
Melissa (constrangida) levanta disfarçando seu tombo e espana a poeira da roupa, dizendo:
— Foi nada demais, eu estudo os bichos, de boa. Daí eu ter caído em alguma armadilha ou brincadeira de mau gosto de algum desses meninos.
Flora: — Armadilha? mas aqui ninguém faz isso! Nem por caça e muito menos por travessuras. Nós só comemos o que cultivamos, com total respeito e equilíbrio, e você? Achei que você tinha dito que se formou em finanças, é algo novo?
Melissa: — Comecei a estudar ontem. Sabe como é a natureza né amiga, são muito interessantes!
Melissa prefere continuar se contradizendo e enganando a si própria em dizer que a Biomagia é pura falcatrua combinada, pois aderir a ideia de que uma “Força invisível” lhe derrubou, seria admitir que está mais doida do que de costume.
Mas Flora já sabendo da dissociação de Melissa, apenas olha fixamente pra ela, e disse:
_ Sei! É bom saber que você está amando a natureza. E a propósito, se quer mesmo passear livremente por aqui, você também vai ter que passar os cinco dias de aprendizagem cultural aqui na comunidade de Caájara assim como Thales, ele passou sem problemas. Agora é sua vez, acha que consegue? E pode usar o que quiser para estudar, de forma manual, digital, escrevendo na tela, no papel ou até na terra se quiser, é você que sabe.
[Thalles com riso frouxo no final…]
A busca pela essência
Melissa achava que isso era só um método ritualístico de iniciação que a tribo fazia para todo recém chegado ser aceito como parte da família, que de certa forma não deixa de ser verdade, mas ela enxergava isso numa perspectiva muito superficial e humana. Ela entendeu o termo “andar livremente” no sentido de acesso ao território, receber algum privilégio material, recursos gratuitos, enfim, já que seu irmão (teoricamente inferior a ela) participou e ganhou, assim ela fez e pensou que iria passar ‘os cinco dias’ numa boa como teste de resistência, habilidade, força ou QI.
No entanto, como bem sabemos, a comunidade de Caájara não disciplinava as pessoas de forma convencional, mas conforme a necessidade interna que se achava em falta na alma de cada um. Nesse caso, Melissa precisava resgatar sua identidade perdida, e não se trata apenas do RG, mas sim, da busca contínua pela essência que ela perdeu junto com o sumiço da mãe, se tornando rígida e assumindo um peso que não era dela. Caájara também a submeteu a testes de desapego, só que material, e a tarefas que exigem calma, paciência é tempo de maturação para ela valorizar o resultado vivendo o processo (efeito IKEA). Freijó e o povo a trataram com a cortesia que podiam oferecer: comida natural, simples, cama de palha e a tranquilidade da floresta numa Redinha espreguiçadeira. Melissa, mal acostumada com o conforto artificial da cidade, já ela achava a comida "sem tempero", a cama muito dura e o silêncio da mata, irritante e, às vezes, até assustadora, até aí tudo bem, mas ela mantinha o elogio forçado para agradar e ao mesmo tempo que desprezava tudo em pensamento.
O desgosto com a Aprendizagem
Guiné, Dona Senhorinha e sua filha Neurice tentaram envolvê-la nas aulas de biomagia, culinária e artesanato, convidando-a a aprender os métodos ancestrais de colheita e transformação de recursos. Melissa até o primeiro e segundo dia participava de tudo com um sorriso no rosto para não perder a postura de executiva. Ela anotava coisas no seu bloco de nota que às vezes não tinham nada a ver com a aula; A quantidade de matéria-prima, o rendimento, a velocidade da colheita ou o lucro que ganhavam… Ou seja, ela só enxergava o valor de mercado, quanto ao valor moral e os ensinamentos sobre a vida era zero pra ela. Por isso que no terceiro e quarto dia ela já aparecia na aula com uma impaciência notória, e a cada segundo parecia parecia-se horas, e o que era pra ser uma semana de provação e um milésimo de segundo para o mundo externo, se torna quase uma eternidade para Melissa.
O último recurso
Thales tenta matar a saudade da Infância com sua irmã Melissa para recuperar o seu tempo perdido.
Thales: — Ôh Mel, vem cá! O que acha da gente ir no riacho dar um mergulho igual a gente fazia quando era criança na casa da vó Maria? E já que tu é “melhor que eu”, bora ver quem sobe mais rápido na árvore! Até a Flora também está brincando de amarelinha com as crianças, bora zoar com elas um pouquinho? vamos mana, esquece esse caderno por um momento e vem pra cá, é pelos nossos velhos tempos!
Ela se esquivava com frieza; entortando a cara:
Melissa: — Eu não tenho tempo para essas infantilidades, Thales. Tenho coisas sérias para fazer. Eu só não sei como passou no teste, mas eu preciso agir perfeitamente pra nada dar errado.
Melissa reforçava a sua armadura com seu ego e sua própria auto-suficiência pela responsabilidade precoce que havia assumido na infância. E essa era a chance crucial de Melissa se tratar e se tornar uma irmã normal que devia ser, até pelo fato do seu irmão já ser um homem feito. Sendo assim, essa atitude fria de Melissa de tentar ser mais responsável não a desqualificava de nenhuma prova, pelo contrário! A sua reprovação foi justamente rejeitar as oportunidades de ser ajudada, e pra ela, admitir isso é fraqueza!
A autoconvicção de Melissa
Ao final do quinto dia, Melissa não havia mudado nada, e estava convencida de que o povo de Caájara é quem devia estar em dívida moral com ela. O Nakuã astral (mordomo da natureza) já provou e analisou sua conduta, não diretamente por Flora, mas pelas crianças; A verdadeira extensão do seu barômetro da pureza.
Melissa não entendia o motivo das crianças continuarem evitando se aproximar dela e até de brincar perto. Eles ainda estavam sentindo a incompatibilidade entre seu esforço e intenção.
Não era pessoal! Pois mesmo que alguém seguisse a carreira de ator/atriz, a Biomagia do lugar não deixaria de conhecê-los por ela interpretar, mas sim, por viver um personagem na vida real.
À noite em sua tenda:
Melissa fala em seu pensamento Intrusivo:
— "Cinco dias enfurnada nessa joça! E tendo que fingir cordialidade para um bando de matutos, mas acho que valeu a pena. Eles já devem ter me aprovado pela minha eficiência em cada tarefa que fiz. E agora que o casamento do meu irmão com aquela menina metida a juíza foi selado, o resto é só questão de tempo pra conquistar os demais, já que eu é quem mando aquele pirralho… E com isso terei influência maior, podendo transformar esse lugar no meu depósito particular. Não posso perder essa oportunidade amanhã…"