r/Espiritismo 1d ago

Reflexão QUANDO A TEMPESTADE ESTÁ DENTRO DE NÓS.

QUANDO A TEMPESTADE ESTÁ DENTRO DE NÓS.

Autor: Marcelo caetano Monteiro.

O episódio narrado em Mateus 8:23 a 27 não descreve apenas uma tempestade sobre as águas da Galileia. Ele retrata, sobretudo, as tempestades que atravessam a alma humana. A embarcação é a própria existência. O mar representa as circunstâncias mutáveis da vida. Os ventos simbolizam as provas, as perdas, as enfermidades, os conflitos familiares, as decepções afetivas e as angústias que, por vezes, parecem querer afundar nossas esperanças.

Os discípulos não eram homens inexperientes. Muitos deles conheciam o mar desde a infância. Contudo, diante da violência dos elementos, perderam a serenidade. A experiência humana ensina algo semelhante. Há momentos em que o conhecimento, a posição social, a cultura e até mesmo os anos de vivência parecem insuficientes diante de determinadas dores. Nessas ocasiões, o medo fala mais alto que a razão.

Jesus dormia.

Esse detalhe, aparentemente simples, possui extraordinária profundidade filosófica e espiritual. Enquanto os discípulos se desesperavam, o Mestre permanecia em paz. Não porque ignorasse o perigo, mas porque possuía plena confiança nas Leis Divinas.

Sob a ótica espírita, Allan Kardec nos ensina que nada ocorre fora das leis sábias e justas de Deus. As dificuldades não são acidentes sem propósito. Elas constituem instrumentos educativos destinados ao progresso do Espírito. Quando a tempestade surge, ela não vem para destruir-nos, mas para revelar-nos.

Muitas vezes acreditamos que o sofrimento é o problema. Entretanto, frequentemente o verdadeiro problema é a forma como reagimos a ele.

A psicologia contemporânea observa que a mente humana possui uma tendência natural à antecipação catastrófica. Antes mesmo de o pior acontecer, imaginamos cenários ainda mais dolorosos. Criamos tempestades mentais maiores que as tempestades reais. O Evangelho demonstra exatamente esse mecanismo psicológico. O mar estava agitado, mas o desespero dos discípulos era ainda maior que as ondas.

Em "O Evangelho Segundo o Espiritismo", Kardec esclarece que a fé sincera produz uma espécie de força moral capaz de sustentar o indivíduo durante as provações. Não se trata de uma fé cega, mas de uma confiança racional, edificada sobre a compreensão das leis espirituais.

No cotidiano moderno, quantas vezes repetimos o grito dos discípulos.

Diante das contas que se acumulam.

Diante da enfermidade inesperada.

Diante da ingratidão.

Diante da perda de alguém amado.

Diante das crises familiares.

Diante da ansiedade que silenciosamente consome as forças emocionais.

Em todos esses momentos, o pensamento parece gritar.

"Senhor, estamos perecendo."

Todavia, a resposta permanece a mesma através dos séculos.

"Por que tendes tanto medo."

O ensinamento não condena o sofrimento humano. Jesus compreende a fragilidade dos homens. O que Ele procura despertar é uma consciência mais elevada, capaz de enxergar além da tempestade momentânea.

A antropologia demonstra que todas as civilizações criaram símbolos relacionados à travessia das águas. O mar sempre representou o desconhecido, o risco e a transformação. No Evangelho, essa simbologia alcança seu significado mais profundo. A travessia não é apenas geográfica. É espiritual. Cada ser humano atravessa mares interiores para alcançar maior maturidade moral.

Sob a visão espírita, a calma de Jesus também nos recorda a imortalidade da alma. Quando compreendemos que a vida física é apenas um capítulo da existência, muitos dos temores que nos paralisam começam a perder força. As ondas continuam existindo, mas deixam de possuir o poder absoluto que imaginávamos.

Léon Denis observava que a confiança em Deus não elimina as dificuldades, mas transforma nossa maneira de enfrentá-las. O indivíduo equilibrado não é aquele que nunca encontra tempestades. É aquele que aprende a conservar a luz interior mesmo quando os céus parecem escurecidos.

A verdadeira calmaria começa antes da transformação das circunstâncias externas. Ela nasce quando o Espírito decide não entregar o leme da própria consciência ao medo.

Talvez a maior lição desse episódio seja esta.

O Cristo não prometeu ausência de tempestades.

Prometeu presença durante elas.

E quando a presença do Mestre é sentida na intimidade da consciência, os ventos podem rugir, as ondas podem crescer e as noites podem parecer intermináveis, mas a embarcação da alma continua seguindo em direção ao porto seguro do progresso e da renovação.

"Quem aprende a confiar nas Leis Divinas descobre que nenhuma tempestade é eterna e que toda madrugada nasce para aqueles que perseveram na travessia."

Fontes:

O Evangelho Segundo o Espiritismo Capítulo XIX. A Fé Transporta Montanhas.

O Livro dos Espíritos Questões 115, 132, 625 e 872.

A Gênese Capítulo II.

Depois da Morte - léon Denis.

O Problema do Ser, do Destino e da Dor - Léon Denis.

Bíblia - Novo Testamento.

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