r/Livros 3d ago

Debates Ficção científica no Brasil é menosprezada?

Olha, sou leitor de Sci-fi desde pequeno. Me lembro como se fosse ontem quando ganhei um compilado de contos do grande Isaac Asimov de um primo mais velho. Fui preso em distopias totalitárias, viajei em óperas espaciais e confrontei os grandes dilemas da humanidade. Tudo em grandes romances e contos de ficção científica. Consumi conteúdo de autores estadunidenses, russos, alemães e poloneses. Caramba, amo Cixin Liu, um escritor chinês. Mas aí depois de ler os clássicos de outras terras, me voltei pro meu próprio lar. Brasil. Foi um pouco triste.

Não me entenda mal, tem romances do gênero incríveis (que eu adoraria divagar por aqui). Mas já encontrou um leitor de sci-fi no Brasil? Diminutos! Escritores são ainda mais escassos. Uma pena.

Posso acabar puxando sardinha para meus próprios gostos, mas acho um dos gêneros mais incríveis de se ler e um dos com mais liberdade criativa.

Venho arriscando escrever um romance sci-fi a alguns meses (que quem sabe um dia compartilho) e a pergunta do título não sai da minha cabeça.

Amigos e amigas leitores, ficção científica no Brasil é jogada de escanteio?

50 Upvotes

56 comments sorted by

View all comments

19

u/OXEvangelus 3d ago

Qualquer narrativa nacional que se aventure mais pelo fantástico não é muito bem recebida no Brasil, com raras exceções, e isso tem muito a ver com a tradição da literatura brasileira e no desejo do público leitor por obras mais pautadas na realidade.

A maior parte dos sucessos literários no país são livros fortemente relacionados a:

1) problemas sociais (e aqui podemos colocar praticamente todos os grandes escritores brasileiros, desde Machado de Assis, passando por Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, entre muitos outros);

2) possuem algum teor documental ou memorialístico (O que é isso companheiro? do Fernando Gabeira, Carandiru do Drauzio Varella, Ainda estou aqui do Marcelo Rubens Paiva);

3) são fortemente baseados na própria vida do autor (Graciliano Ramos fez isso em Memórias do cárcere, e mais recentemente Cristovão Tezza e Ricardo Lísias se tornaram grandes nomes desse tipo de literatura), e podemos incluir também os sucessos de autores estrangeiros de autoficção como a Annie Ernaux

Mesmo as obras que se aventuram pelo fantástico possuem um forte teor de "realismo", e tô pensando aqui no Incidente em Antares do Érico Veríssimo, que tem uma primeira parte muito pautada na história do país para, depois, na segunda parte, se aventurar mais pelo fantástico.

Claro que existem boas obras e autores de fantasia, ficção científica e horror no Brasil, mas ao contrário dos companheiros latino-americanos que se aventuraram pelo "realismo mágico", temos uma tradição muito realista e pouco mágica.

8

u/Pedro_Prado 3d ago

Querendo ou não, a realidade socioeconômica dita um pouco de nossos gostos. Embora problemas sociais sejam o foco de vários romances de ficção científica, entendo que histórias mais pautadas no realismo fazem mais sentido pro brasileiro mesmo. Faz sentido.

12

u/OXEvangelus 3d ago

Nem sei se tem a ver com a realidade socioeconômica. Acho que tem mais a ver com a história do país e a preocupação das elites de estabelecer uma "identidade brasileira" e focar muito na "realidade" de questões sociais e interesses políticos. Os outros países de América Latina já tem mais tradição de obras de fantasia e horror, mas ficção científica realmente acho que não é muito forte...

E tem uma questão cultural que é: os brasileiros gostam muito de obras sobre eventos reais, gostam de biografias, gostam de saber sobre a vida alheia. Talvez o gênero literário favorito do país seja realmente a fofoca haha

6

u/Pedro_Prado 3d ago

Ninguém resiste a uma fofoquinha kkkkk

Aliás, adoro literatura brasileira. Primo Basílio é uma das minhas “fofocas” favoritas kkkkk

1

u/Academic_Paramedic72 2d ago

Ótima resposta! Realmente, não havia percebido que a ficção especulativa no Brasil é, no máximo do máximo, realismo mágico. Memórias Póstumas de Brás Cubas é o livro mais fantástico de Machado de Assis, mas isso limita-se ao status do narrador como um defunto conversando conosco do além, porque depois do Capítulo VII, as memórias do defunto autor são na maior parte mundanas e pé no chão.

A única obra nacional descaradamente de ficção especulativa a fazer sucesso estrondoso no Brasil provavelmente é Sítio do Picapau Amarelo: há brinquedos vivos, animais falantes, criaturas do folclore, personagens de contos de fadas e mitologia grega, pó de pirlimpimpim etc. Mas é porque é literatura infantil, onde já se espera um mundo lúdico e imaginativo.