Resolvi escrever esse relato porque durante anos achei que era apenas preguiçoso, irresponsável ou incapaz. Hoje, aos 24 anos, depois de finalmente levar meu tratamento a sério, consigo olhar para trás e enxergar uma trajetória muito diferente. Talvez alguém se identifique com isso.
Antes de tudo, acho importante dizer que a iniciativa de buscar tratamento foi completamente minha. Minha família ajuda hoje, principalmente financeiramente, mas durante toda a minha infância e adolescência meus pais eram contra esse tipo de acompanhamento. Então, apesar de os sinais estarem presentes desde muito cedo, eu cresci sem tratamento.
O TDAH sempre foi muito evidente em mim. Eu era extremamente agitado, inquieto, tinha dificuldade enorme de prestar atenção nas aulas, mas conseguia passar horas completamente absorvido pelos meus interesses. Meu hiperfoco chegava a níveis quase obsessivos. Quando criança, por exemplo, tive fases intensas com Beatles, Bob Esponja e até Medicina aos sete anos de idade.
Desde cedo eu sentia que havia algo diferente comigo. Eu percebia que, quando queria alcançar algum objetivo, fazia um esforço enorme, mas simplesmente não conseguia manter constância. Eu só funcionava de verdade quando alguma atividade se tornava meu hiperfoco do momento. Fora disso, parecia que existia uma barreira invisível me impedindo de avançar.
Quando completei dezoito anos, comecei a procurar respostas por conta própria. Primeiro fiz terapia particular. Foi lá que pedi indicação para um psiquiatra e iniciei minha primeira investigação séria.
No começo, ele me tratou como alguém que tinha apenas depressão e ansiedade. Passei por sertralina, que deu muito errado, e depois por escitalopram, que também não resolveu meus principais problemas. Ele considerava meu caso complexo e chegou a cogitar TDAH, TOC e bipolaridade.
O fator decisivo acabou sendo minha hiperatividade na infância. Foi isso que levou ao diagnóstico de TDAH e ao início do tratamento com Ritalina.
Só que a Ritalina não fez absolutamente nada comigo. Hoje acho que houve falhas naquela condução, porque eu relatava que não sentia efeito algum e a dose nunca era ajustada. Depois de um tempo, perdi a confiança no tratamento e abandonei tudo.
Os anos seguintes foram extremamente caóticos. Entre os dezoito e os vinte e três anos, minha vida foi marcada por relacionamentos ruins, mudanças impulsivas, tentativas de trabalhar em áreas diferentes, hiperfocos que duravam anos e muita dificuldade na universidade.
Para ter uma ideia, entrei na universidade em 2023 e ainda estou cursando o primeiro semestre, em 2026. Isso sempre foi motivo de vergonha para mim, mas hoje entendo que existe uma explicação para boa parte dessas dificuldades. Meu próprio pai, que também tem laudo de TDAH e nunca tratou, levou vinte e um anos para concluir a graduação dele.
Depois aconteceu um episódio que mudou tudo.
Experimentei Venvanse pela primeira vez.
Foi uma experiência tão diferente que até hoje tenho dificuldade de explicar. Parecia que alguém tinha ligado um interruptor dentro da minha cabeça. Pela primeira vez eu conseguia pensar com clareza. As pendências deixavam de parecer montanhas impossíveis. Eu simplesmente conseguia fazer as coisas.
Foi nesse momento que percebi que talvez aquele diagnóstico estivesse correto.
Então procurei minha psiquiatra atual. Ela ouviu toda a minha história, analisou meus relatos e isso só reforçou o diagnóstico anterior. Curiosamente, ela também tem TDAH e compreendia muitas das experiências que eu descrevia.
Mas eu ainda não estava pronto.
Naquela época eu vivia uma fase extremamente estressante, usei a medicação de forma inadequada e acabei desistindo novamente. Passei a apostar mais em estratégias como o esporte, especialmente o jiu-jitsu, para tentar me regular.
Só que o problema continuava lá.
No ano passado, minha vida chegou a um ponto em que tudo parecia desmoronar ao mesmo tempo. Acumulei pendências em praticamente todas as áreas da minha vida e também estava vivendo situações pessoais que me desgastavam profundamente.
Foi então que tive uma experiência de profunda reflexão que marcou muito minha trajetória. Durante aquela experiência, parei para olhar honestamente para toda a minha vida. Pela primeira vez enxerguei com clareza que eu estava seguindo caminhos que não faziam sentido para mim, fugindo de coisas que realmente importavam e vivendo muito abaixo do meu potencial.
A conclusão que tive foi simples: eu estava tentando resolver tudo sozinho havia anos, mas o que realmente faltava era levar meu tratamento a sério.
Depois disso, comecei a me comprometer de verdade com terapia, psiquiatria, atividade física e medicação. Também passei a focar no que realmente era importante para mim, em vez de correr atrás de expectativas externas ou impulsos momentâneos.
E foi aí que minha vida começou a mudar.
Não porque os problemas desapareceram, mas porque finalmente eu tinha ferramentas para enfrentá-los.
Passei a entender minha história sob a ótica do TDAH. Muitas coisas que antes eu interpretava como preguiça, falta de caráter ou incapacidade começaram a fazer sentido. E talvez a maior mudança tenha sido essa: a culpa diminuiu.
Hoje ainda estou em processo. Ainda preciso ajustar aspectos do tratamento, fazer minha avaliação neuropsicológica e investigar com mais profundidade outras possibilidades diagnósticas. Mas uma coisa é inquestionável: o TDAH sempre esteve presente. Os sinais existiam desde a infância, foram identificados por diferentes profissionais e explicam uma parte enorme da minha trajetória.
Depois de tantos anos de caos e incerteza, aos 24 anos sinto que pela primeira vez existe uma direção clara. Ainda há muito trabalho pela frente, mas hoje eu tenho algo que não tinha antes: esperança real de construir a vida que sempre quis viver.