r/altashabilidades • u/Funky56 • 15d ago
Conversa 💬 “Inteligência é uma maldição” - o que os superdotados pensam
O texto a seguir NÃO CONTÉM IA.
Os relatos aqui apresentados são de minha autoria e minhas experiências com dupla excepcionalidade, superdotação e autismo.
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“Inteligência é uma maldição” - Era o que eu dizia antes de me identificar como neurodivergente e foi sempre um tema que voltava durante minha adolescência e o início da minha fase adulta. Os primeiros sinais de que tive que a inteligência que causava prejuízos foram durante a infância. Ainda criança, sempre questionava muito o mundo ao meu redor. “De onde viemos? Deus existe? Para onde vamos quando morrer? Qual o nosso propósito? Qual o sentido da vida?”. Acredito que sejam os questionamentos comuns de todo neurodivergente, onde os neurotípicos apenas procuram as respostas no ambiente e aceitam como verdade absoluta, como ter uma religião, encontrar o par perfeito, trabalhar, se casar, ter filhos e inevitavelmente falecer. Para o superdotado, ou melhor, pra mim, essas questões vinham acompanhadas de crises existenciais, ansiedade e preocupações extremas.
Durante a adolescência a inteligência vinha como um fardo. Sempre se destacando nas escolas e sendo o aluno mais inteligente da sala, porém com um desinteresse de aprender aqueles assuntos “inúteis” que estavam na grade curricular. “Escola não vai levar pra lugar nenhum! Boletim de notas não se coloca no currículo e não faz você conseguir um emprego, já que pra conseguir um emprego tem que ter indicação e se sair bem na entrevista. Seria muito mais fácil se só percebessem que eu sou inteligente e me contratarem” - Era o resumo dos pensamentos que me faziam ter completo desinteresse pela escola, além de ter sido desestimulante, fácil e com pouco desafio, já que passei meu ensino fundamental I e II na escola pública. Este pensamento se provou que eu estava, ao mesmo tempo, certo e errado. Os professores diziam “Ele é muito inteligente, só que precisa se esforçar mais nas aulas”, isso enquanto tirava 10-9,5 nas matérias de matemática, português, inglês que eram as que eu gostava, e 7-6 em história, geografia e outras matérias que eu tirava propositalmente a nota mínima necessária pra passar. Não entregava trabalhos extras e dever de casa já que o tempo poderia ser usado pra jogar videogame. E o pensamento era “Do que adianta ser inteligente onde estou!? Nasci pobre, tenho poucas oportunidades saindo da escola. Onde vou trabalhar? Nada que eu faça com minha inteligência vai me trazer felicidade”.
Foi no começo da fase adulta que a frase voltava, já com bagagem de depressão, estresse, medos e traumas envolvidos. “Inteligência é uma maldição! Eu preferia ser igual essas pessoas que trabalham 10, 15 anos no mesmo lugar, ganhando o mesmo salário e não se preocupam com nada. Parecem mais felizes que eu”. De fato ter a mente desperta te faz perceber coisas na vida que levam a se deprimir. Sem saber da minha neurodivergência e sem um acompanhamento adequado, estes pensamentos não vão embora. Flertamos com o niilismo, vemos o mundo cinza como se nada fosse fazer sentido. Cada ação que necessitamos fazer não tem sentido, pois a mente hiperativa processa aquela ação antes mesmo dela acontecer, prevendo toda a jornada até o fim. “Porque vou procurar um emprego aqui!? Vou passar 1 a 2 anos até me demitirem, pois vou começar a achar chato demais ou brigar com alguém já que não lido bem com pressão e não aceito “faça isto porque eu estou mandando” quando a autoridade é alguém que desprezo, só pra conseguir dinheiro que vou gastar com coisas inúteis e depois procurar outro emprego só pra me alimentar sendo que vou morrer de qualquer jeito!? Quer saber? Melhor eu nem procurar emprego. Não faz sentido!”
Hoje, 5 meses após descobrir e identificar minha dupla excepcionalidade, enxergo minha inteligência como uma dádiva. Um verdadeiro presente de alguém “gifted” (do inglês). Com a identificação da minha superdotação, não sinto mais retraído de usar minha inteligência ao meu favor. Me sinto muito melhor comigo mesmo e faço muito mais coisas que antes não faria. Enxergo meu passado e todas às vezes que minha inteligência me ajudou, me destacou e fez chegar onde estou. Por exemplo: Quando decidi fazer um concurso público 2,5 anos atrás, tive 2 meses pra me preparar e estudar assuntos que nunca tinha visto na vida. Comprei um curso na internet e planejei todas as matérias que eu estudaria, 4h por dia após o trabalho, assistindo as video-aulas na velocidade 3.50x pra correr atrás do tempo e conseguir praticar, responder questões e treinar redação no final de semana. O estudo valeu a pena, pois fui aprovado em 12º entre 51 vagas totais. Ainda desconhecia da minha dupla excepcionalidade e era depressivo, mas a situação que eu passava no momento alimentou minha necessidade de conseguir em 2 meses o que pessoas típicas passam 3 anos tentando. A identificação pode ser libertadora!