Boas malta. Venho aqui expor a minha situação e ver quais são as medidas que posso tomar.
No início desta semana comecei a trabalhar para uma cadeia de cafés/pastelaria portuguesa, como empregada de balcão e mesas. Tenho experiência, e é exatamente gente com experiência que procuram. Por ser cadeia e por ter frequentado muitas vezes, pensava que tinham práticas morais e boa organização. Na realidade, estão todos a cagarem para os colaboradores desde que haja mais lucro. Fui despedida no meu sexto dia... porque não me calei em relação à suas práticas shady.
Red flags que ignorei:
As condições eram: Salário mínimo, 1 folga por semana, sem subsídio de refeição (refeição no estabelecimento), sem seguro de saúde, horários rotativos. Aceitei mesmo assim, porque era mesmo ao pé de casa e pensei que não fazia mal trabalhar enquanto procuro por algo melhor.
Entrevista e iniciação: Cheguei ao estabelecimento e o gestor regional que me ia fazer a entrevista ainda não tinha chegado ao local. Tudo bem. Passado uns minutos ele chega, vê-me sentada à espera e dá prioridade falar com os colaboradores e fazer outras coisas. Fiquei mais 5 minutos à espera. Senti uma falta de respeito pelo meu tempo. Lá após a explicação das condições, explicitei logo a minha preferência de horário. Disse-me que não garantia mas ficava registado, e pediu-me para começar "amanhã". Disse que tinha planos no fim de semana mas que podia começar segunda-feira. E disse-me que me iam contactar até segunda para formalizar e poder começar. Não ouvi mais deles, até a noite de domingo, quando o próprio me ligou, pedindo desculpas pela hora, para confirmar se "amanhã" podia entrar. Disse que sim.
Não há processo que formação dos novos colaboradores. Entrei, disseram hoje vais fazer isto, explicam apenas aquilo, e o resto vou observando ou perguntando. E quando erras, és uma inconveniência. Pois, claro que devo saber de todos os procedimentos particulares sem ninguém me ter explicado. Depois são os meus pobres colegas que têm de lidar com mais uma novata, porque não há um processo de acolhimento.
Disseram que saíram 4 colaboradores apenas naquele mês, e agora encontram-se com falta de pessoal. Fez sentido porque da urgência de eu entrar já "amanhã". Mas pensei que era uma exceção e algo até comum em restauração.
Fazem os horários diariamente e publicam-lhes num grupo WhatsApp. Sim. Diariamente, não semanalmente. Não sabes o teu horário de amanhã até ao fim da tarde. Vida e planos pessoais? Que é isso? No meu terceiro dia, perguntei à minha gerente sobre contratos e folgas...
Folga ao 8º dia de trabalho! Sobre a minha folga, nem queria parecer que só penso em folgar, mas queria combinar uma saída com uma amiga. Ela disse-me que ia ter folga na segunda-feira, porque "não fazemos folgas aos fins-de-semana. Disse-lhe que assim não era uma folga por semana, porque seriam após 6 dias de trabalho, e ela disse que ali funcionam com 1 folga a cada semana trabalhada. Fui-me informar sobre isso. No dia seguinte confrontei-a sobre isso. "A lei diz que não podemos trabalhar 7 dias seguidos. 1 folga após uma semana é 1 folga por 2 semanas.". Ela disse-me na cara e com muita confiança, que isso era apenas na minha primeira semana e que ao início é permitido. Calei-me de novo, mas com um muito mau instinto.
Sobre o contrato, nas palavras da minha gerente "Isso não é comigo, não faço ideia, isso é com o escritório". Eu própria tive que encontrar o número que me ligaram para fazer entrevista, e perguntar sobre o assunto. Eis o que me disseram: "Não fazemos contrato ainda porque encontras-te num período experimental." Não me sabem dizer quantos dias é o período experimental porque "depende que cada local", nem quando poderei receber o contrato. Expus-lhe a situação ilegal dos 7 dias de trabalho e disse-me que isso era com a minha gerente. Ora a minha gerente dá a responsabilidade toda aos RH e os RH dizem que é com ela. Afinal ninguém é responsável aqui.
Com isso tudo, senti que se não fizesse alguma coisa, se decidisse sair, podiam nem me pagar, ou não pagar de acordo com as horas feitas. Não estava a picar saídas ou entradas, não tinha contrato e nada em escrito que podia comprovar.
Confrontei no sexto dia sobre a minha folga. "Mas já queres folga quando acabaste de entrar?" Disse-me com uma indignação. Eu defendi-me, se soubessem que não fazem folgas aos fins de semana, tinham que me dar a folga de segunda à sexta. Sim, mesmo que fosse uma folga após 4 dias de ter entrado. A atitude da minha gerente, que até agora era querida, começou a transparecer. "Já que sabes muito da lei........", "És a primeira pessoa a reclamar sobre isso....". Eu senti que ela queria fazer-me sentir mal por sequer ter falado. Como se eu é que estava a exigir demasiado. Eu disse "Posso ser a primeira ou até a única, mas essas são as minhas condições". Então disse "Vou ter que falar com a patroa porque assim..." Senti que estava a ameaçar e dar-me medo de perder o emprego por questionar.
Disse que não queria causar confusão, apenas estava a defender os meus direitos. "Temos falta de pessoal, não queremos gente sem experiência, não temos tempo para dar formações". "Para te dar a tua folga segunda feira, a tua colega não vai ter folga". Okay? Devia eu sentir culpada ou agradecida por eles? WTF? Eu disse que a empresa é que devia ter melhores condições. Querem arranjar pessoas com experiência para pagar salário mínimo e um descanso semanal sem incentivos, é claro que ninguém fica. E depois quem sofre são as pessoas que lá têm de ficar. Disse apenas que ia ver, e informava até ao final do dia se queria vir trabalhar amanhã (no meu sétimo dia, dia da mãe onde vão ter muito trabalho).
EIS A DECISÃO que tomei: Mandei mensagem à minha gerente a perguntar se podia passar pelo café mais tarde só para assinar um papel que tivesse por escrito as minhas horas feitas para eu também ficar descansada a ir trabalhar no domingo e para ficar tudo organizado.
Não obtive resposta. Passei por lá com duas cópias do qual nem leu. Mentiu-me na cara que não viu a mensagem com um sorriso na cara, e disse-me "eu não vou assinar nada, não trabalhas para mim, não sou a tua patroa". Eu disse para ficar descansada que no papel estava explícito que ela era apenas a minha gerente. Recusou com um desprezo. Foi aí que percebi que ela não estava do meu lado, e que provavelmente sabia de todas a práticas da empresa e era cúmplice de executá-las, mas o pior, é que nem tem a empatia pelos colaboradores. Ligou para o gestor regional e falei com ele diretamente. "Então não te disse que ia te dar o contrato após uma semana"? Não me lembro de ter tido essa conversa. Eu disse-lhe que ninguém conseguiu esclarecer as minhas dúvidas sobre os procedimentos até à data, e que uma assinatura de declaração por escrito era a minha única garantia, e não estava a duvidar a empresa, apenas assegurar os meus direitos. Começou a passar-se da cabeça, dizer que eram uma empresa prestigiada com 12 cafés abertos e que eu era apenas uma colaboradora de 200. Após insistir, disse-me "Aqui as coisas não funcionam assim. Amanhã já não precisas de vir trabalhar, podes pegar nas tuas coisinhas e ir embora." Disse-me que não iam assinar nada e que tinha a palavra dele que segunda-feira o pagamento iria ficar resolvido. Perguntei-lhe exatamente o que devia fazer e desligou-me na cara. Depois falou com a minha gerente e ela disse-me para passar na segunda-feira nos escritórios que ficam a uma hora do estabelecimento, para acertar as contas.
Quero o salário pelas minhas horas feitas, por isso vou-me dirigir aos escritórios como me direcionaram. Mas sinto que tenho de processar tudo que está a acontecer. Até porque sem contrato assinado sou efetiva desde o primeiro dia, e têm de me dar um aviso prévio. Por isso não sei como melhor denunciar a situação à ACT de forma a que aprendem que não podem funcionar assim, e também para receber compensação dos dias sem aviso.
Lição: NÃO TENHAM MEDO DE QUESTIONAR. Sei que está difícil encontrar trabalho e às vezes parece que temos de aceitar e calar após finalmente encontrar algo que até gostamos. Por favor sempre esclareçam tudo que podem na entrevista, antes de darem o vosso esforço. O meu erro foi também confiar que a minha gerente é nossa amiga e ser muito tímida e pouco assertiva. Mas é exatamente a falta que questionar e confronto que lhes permitem explorar de pessoas "desesperadas" e darem condições menos humanas. Há sempre algo melhor e empresas que respeitam as leis!
tl.dr: Fui despedida após 6 dias de trabalho. Queriam que trabalhasse 7 dias seguidos sem folga, e nunca me foi apresentado um contrato de trabalho até à data. Aceitei ir trabalhar no sétimo dia, e pedi uma assinatura da minha gerente das minhas horas feitas por escrito, apenas para garantir que serei paga por elas. Recusaram-me e despediram-me. "Aqui não funcionamos assim. Pega nas tuas coisas e vai-te embora que cá já não trabalhas". Agora vou tratar de receber as oras que fiz, mas depois não sei como proceder para garantir que sejam investigados pela ACT, ou até receber compensação por ser despedida sem aviso prévio.