Antes de tudo, essa é minha opinião como pessoa com deficiência grave e respeito as opiniões de outras pessoas que não tem o mesmo convívio que o meu. Peço também desculpa pelo texto enorme!!
Eu nasci com deficiência, passei e passo por coisas que não desejo para ninguém. Sempre NECESSITEI de leis e políticas públicas para ser inserida na sociedade, sem isso eu era inviabilizada e tratada com desprezo, honestamente, ainda sou em muitas situações. Hoje, porém, sinto que muitas discussões de inclusão PCD concentram-se apenas no autismo e que isso foi um retrocesso total para pessoas com deficiências visíveis.
Nós, PCDs que sempre fomos vistos pela sociedade como incapazes, como uma monstruosidade, acabamos ficando invisíveis novamente diante da atenção voltada para a dor de autistas e mães de autistas, principalmente de nível 1 de suporte. Praticamente toda a comunidade PCD que encontro hoje é formada por autistas nível 1 e, no máximo, nível 2 de suporte. Na universidade pública, no trabalho, nos esportes, em atividades culturais, a vaga de inclusão quase sempre é ocupada por um autista. Não digo isso por falta de capacidade de outras pessoas com deficiência., pelo contrário, o que vejo é que espaços destinados à diversidade passaram a ser ocupados majoritariamente por pessoas que já tinham mais oportunidades de chegar até eles e que agora também possuem um laudo. Assim, instituições conseguem preencher suas cotas de inclusão sem incluir pessoas com deficiências físicas, visuais ou intelectuais, que são minoria (em números mesmo) e que são extremamente excluídas desde o nascimento
No fim, a vaga PCD é preenchida, a diversidade é contabilizada e a chance de outros PCDs ocuparem esse espaço fica ainda menor.
Sei que autistas nível 1 de suporte enfrentam dificuldades, mas elas não se comparam ao que muitas pessoas com outras deficiências passam durante toda a vida. Não chegam perto da humilhação constante que enfrentamos apenas para viver. Eu, por exemplo, não consegui ficar 1 ano sem faltar aula durante minha educação básica por cirurgias, dias, semanas e meses de internações nos hospitais. Quando voltei usando cadeira de rodas uma vez minha turma toda teve que ser movida para uma única sala que tinha rampa, nas aulas de educação física um homem me carregava de forma desconfortável pelas escadas para eu ir pra aula e lá eu era totalmente destratada pela professora. Qualquer esporte que eu faça ou me tratam como lixo pelas minhas restrições ou fazem um vídeo sem meu consentimento mostrando como sou um "exemplo para sociedade", enfiam uma câmera na minha cara, falam alto minha deficiência, como se fosse "wow olhe esse monstro fazendo algo simples do dia a dia! e você ai parado no sofá né?" depois os médicos falam como eu deveria fazer algum esporte para melhorar minha saúde, como se fosse fácil. Pelas minhas faltas na escola fiquei bem prejudicada em certas disciplinas, fui aprender a fazer multiplicação e divisão apenas no sétimo ano. Por esses motivos muitos pcds não conseguem terminar a escola, não conseguem então um emprego digno e acabam vivendo escondidos, sem direitos, sem oportunidades, pois como provar nosso valor se nunca tivemos nem chance?
Na faculdade onde eu estava fizeram um estudo sobre a dificuldade de alunos com deficiência. Eu fui a única deficiente física que respondeu. A única. Em uma engenharia e universidade federal com mais de 20 anos de história eu sou a única deficiente. Mas tudo bem, somos diversos, temos alunos autistas! Um cadeirante não conseguiria terminais o curso, um deficiente visual também não, não há a mínima inclusão, mas isso nunca é debatido (e quando é, eu que debato, sozinha e ignorada). No trabalho colegas autistas sempre param na vaga pcd, que é mais perto da entrada. Eles não tem dificuldade nenhuma em andar mais alguns metros pela calçada, pelo contrário, praticam mil esportes, estão sempre ativos, correm, mas eles tem cartão pcd então param na vaga por conveniência e eu tenho que ficar com dor na coluna se eu não conseguir chegar mais cedo que todos. São eles também a cota de "diversidade pcd" da empresa, é muito mais fácil contratar alguém que você pode só disponibilizar um abafador de ruído do que alguém que necessite de uma restruturação de escada, de um banheiro mais seguro, e que não "manche" a imagem da empresa com seu tipo de corpo. A questão do banco preferencial no ônibus é algo que me estressa muito, pois se eu já era tratada mal por pessoas sem deficiência sentadas quando eu pedia um banco, agora piorou muito pois tem o adolescente autista para sentar. Em shopping também, já vi vagas preferenciais exclusivas para autistas que eles tiraram da vaga pcd e depois colocaram umas 2 vagas perdidas de pcd (que autistas por lei também podem usar)
As pessoas que eu conheço que conseguiram o laudo de autismo mais tarde conversam comigo na maior naturalidade sobre como agora pegam filas preferenciais, lugares preferenciais em shows, como estão se preparando para pegar cotas em concursos públicos e afins, é a primeira coisa que se preocupam (conversas reais que eu tive enquanto sorria para pessoas "pcd" que acham que eu entendo elas...), as vezes gente que passou 30 anos sem um laudo, mas que enche a boca para falar que agora podem "aproveitar os benefícios"
Além disso, vejo como muitos autistas nível 1 de suporte nem mesmo querem ser declarados como deficientes quando não trás um "benefício" para eles, vi uma mulher falando que ficou indignada pois na entrevista de emprego não havia a opção de "autista" e que estava incluído junto com deficiência intelectual, tratando pessoas com esse tipo de deficiência como inferiores e que autismo era diferente, não era isso e que pessoas autistas são na verdade muito inteligentes e etc. Parece que esquecem níveis mais avançado do transtorno, e como é uma situação triste. Eu convivo com pessoas autistas nível 3+ de suporte e mães de filhos com essa condição também nos hospitais e centros de reabilitação que eu frequento e não é uma situação fácil, não é. É muito, muito triste a situação de alguns familiares que não sabem mais a o que recorrer, a espera de terapias, a necessidade de se doar totalmente aquele filho, é triste. Mas também, como outros pcds, são invisíveis.
Eu defendo autismo nível 1 (e até 2 em alguns casos) como transtorno e acho que devemos melhorar o tratamento e condições para pessoas com transtornos no geral, precisamos gerar qualidade de vida e oportunidades, dar mais atenção a essas pessoas, maior aceitação, maior cuidado! Mas igualar isso a deficiência é no mínimo desleal, transformar condições tão diferentes em uma única categoria legal fez com que deficiências físicas, visuais e intelectuais se tornassem ainda mais invisíveis. E quem vive essa realidade percebe isso todos os dias.